“O DÚBIO MASCARADO O MENTIROSO” – DE MÁRIO DE SÁ CARNEIRO por Clara Castilho

Reparei que ontem, num passado já longínquo, tinha nascido Mário de Sá-Carneiro. O poeta incompreendido e pouco conhecido no seu tempo(ele próprio vaticinou que o seria no futuro…), o poeta dos paradoxos, da fragmentação, do desejo de uma totalidade nunca alcançada. O poeta que teatralizou a dor. O poeta cuja leitura dos seus poemas nos deixa a sensação de sempre ter sentido a falta de algo, permanentemente na busca da perfeição e do absoluto. O poeta sem medo da morte (tantas vezes anunciada) mas finalmente concretizada.

mario de sá carneiro

 

Cada leitor, se apropria da escrita de um outro, que deixou seus pensamentos para serem lidos. Cada leitor faz a sua leitura e sente diferente de um outro leitor. E agora quero aqui deixar este poema que, hoje, Portugal, 19 de Maio de 2014 me diz algo que me não disse noutros momentos da minha vida…

AQUELOUTRO

O dúbio mascarado o mentiroso
Afinal, que passou na vida incógnito
O Rei-lua postiço, o falso atónito;
Bem no fundo o covarde rigoroso..

Em vez de Pajem bobo presunçoso.
Sua Ama de neve asco de um vómito.
Seu ânimo cantado como indómito
Um lacaio invertido e pressuroso.

O sem nervos nem ânsia – o papa- açorda,
(Seu coração talvez movido a corda…)
Apesar de seus berros ao Ideal

O corrido, o raimoso, o desleal
O balofo arrotando Império astral
O mago sem condão, o Esfinge Gorda.

 

 

 

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