um gato mia solidão por entre árvores decepadas.
o luar é uma tinta triste a cobrir de vazio os lugares desfeitos.
se chamarem pela inteligência ouvir-se-á um rugido de loucura
a rir-se com os dentes despregados das raízes.
as bandeiras estão a morrer como lapas em rochedos onde a água
já não chega.
sente-se a mesma mágoa com que Chopin compôs
o Nocturno vinte.
espero que o carteiro não volte a este lugar para entregar
multas de inércia.
tudo ou quase tudo que já é o ontem mais sereno
vai-se afastando
com a delicadeza silenciosa dos cisnes.
para trás fica um lago ferido onde as nuvens
buscando a paz
se afogam no chão.

