CONTOS&CRÓNICAS – “O Hotel Natividade” – por António Sales

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No Hotel Natividade começava-se cedo a varrer a noite

.Pelo despertar damanhã chegavam da praça as provisões e a cozinha coloria-se da azáfama do pessoal nos preparativos do dia. O sol mal despontava, tratava-se das compras, roupas para os quartos, ementas, preparação dos pequenos-almoços. Havia movimento pelos corredores. Saíam os primeiros hóspedes dos seus quartos para as casas de banho que as criadas abasteciam de água quente em grandes jarros. Determinavam-se as tarefas, organizava-se o trabalho, estabeleciam-se responsabilidades, os criados vestiam as suas fardas. A fim de saudar os clientes surgia, pelas sete e meia, D. Maria da Natividade na grande e luminosa sala de refeições que por essa hora já havia adquirido a atmosfera acolhedora e eficiente que fazia do seu hotel um lugar de prestígio com o estatuto de instituição local.

Sobrinha de António da Cruz Pimenta foi gerente do hotel do tio estabelecendo-se depois por conta própria na Rua Serpa Pinto. Com a capacidade empreendedora da juventude rapidamente transferiu as instalações para uma casa solarenga frente ao Chafariz dos Canos. Mas o novo centro era agora o Largo D. Carlos I com o elegante Jardim da Graça e a ampla avenida que o ligava à estação pelo que o Hotel Natividade vestiu roupa nova num amplo edifício de esquina com a Rua da Olaria.

Maria da Natividade Marques desconhecia que eu viria a existir o que me permite estabelecer com imaginação o perfil de uma mulher seca de carnes, olhos grandes e arredondados em observação constante, o queixo saliente e voluntarioso de quem toma decisões. Mulher dotada de personalidade e dinamismo fora do comum para a época foi a primeirae única grande empresária de hotelaria em Torres Vedras pelo que não é possível falar da sociedade torriense no crepúsculo do século XIX sem integrar este centro agregador das “boas famílias” frequentado pelo prazer dos seus serões elegantes. Ponto de referência para celebrações familiares e consagrações oficiais possuía o seu brilho de chic, no dizer de um comentador da imprensa local. Por ali passaram banquetes oficiais, convívios republicanos, bailes sumptuosos, aniversários, récitas teatrais. Autêntica sala de visitas muda-se em Dezembro 1898 para a Avenida Casal Ribeiro a ocupar o edifício que fora do Hotel dos Cucos, em crise pela morte súbita do seu proprietário José Maria Xavier Paes. Se o Natividade passou para a avenida o novo Hotel Central, montado por Ernesto Nobre, antigo gerente do Hotel dos Cucos, tomava as instalações do antecessor no Largo D. Carlos I. Maria da Natividade Marques não teve dúvidas em arriscar um espaço mais amplo com «todos os quartos com janelas, sala de visitas com piano, bilhar e jardim», conforme informava a publicidade que nunca deixou de fazer nos jornais da vila até ao fim dos seus dias. Em Julho de 1899, pouco tempo após a abertura da época termal, inaugurava um salão de baile com uma soirée elegante animada por um sexteto «com distintos amadores desta vila», festa que provocou enorme expectativa no elemento feminino. Nas noites “formosas” do Hotel Natividade senhoras e cavalheiros vestiam a rigor um guarda-roupa que muitos dias antes dominava as conversas domésticas. Este brilho de chic jamais voltaria a repetir-se de forma tão sedutora e significativa. Mesmo o Hotel Central, que pelas mãos do seu proprietário José da Silva Carnide atingirá importância por volta dos anos trinta, será um substituto modesto dos tempos de esplendor.

 

 

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