EDITORIAL – AS ELEIÇÕES E A DEMOCRACIA

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As eleições para o parlamento europeu já decorrem em vários países da Europa. The Guardian informa-nos que, no auto-intitulado Reino Unido, o partido de extrema-direita UKIP progride, ganhando votos aos conservadores e também aos trabalhistas. Convém frisar que, neste país, decorrem simultaneamente com as eleições europeias, eleições autárquicas. Será interessante conhecer os resultados finais na Escócia e na Irlanda do Norte, tendo em conta que a primeira se prepara para um referendo sobre a sua independência, e na segunda, a situação política continua tensa, como o comprova a recente detenção por dois dias do ex-líder do IRA, Gerry Adams.

Um dos aspectos mais interessantes numa eleição é analisar os fenómenos secundários. Por fenómenos secundários numa eleição designam-se aqueles que não integram o objectivo directo da eleição que está a decorrer, mas que acabam por ter uma grande influência nas opções de voto, às vezes mais até do que o tal objectivo directo. Nestas eleições europeias estamos perante um exemplo claro. Os traumas causadas pelas políticas de austeridade (outra designação convencional) estão a ter o papel principal nas campanhas eleitorais em curso, e tudo indica que não é só em Portugal.

Não deveria ser necessário sublinhar os problemas que essa situação levanta para as opções dos cidadãos, e, claro, para o funcionamento dos órgãos eleitos. Por outro lado, os detentores do poder, que conhecem bem os mecanismos de manipulação da opinião pública, procuram tirar partido. Foi referido várias vezes a ausência das campanhas de informação e discussão à volta da situação em que se encontra a construção europeia propriamente dita. Apenas algumas referências ao peso que a situação da banca alemã tem tido nos trabalhos para essa construção, e na própria vida dos outros países da União Europeia, através da austeridade. Essas referências apontam todas num sentido: o mau caminho que leva a integração europeia. Contudo é duvidoso que tenham tido um impacto significativo na opinião pública, e mais duvidoso ainda que tenham vindo a tempo de ajudar a formar uma opção mais capaz.

No Reino Unido (ainda por enquanto) parece que a xenofobia progride, e que está a ser um dos motores do UKIP. Trata-se de uma situação deveras lamentável, evidentemente. O facto de tirar votos aos conservadores e aos trabalhistas, portanto, para usar as imagens correntes, tanto à direita como à esquerda, não é surpreendente. Um dos aspectos dos tais fenómenos secundários é, quando se fazem sentir em períodos eleitores, não sendo a matéria a que respeitam o objecto directo da campanha, porem a claro, de várias maneiras, as insuficiências dos vários programas eleitorais e a impreparação dos candidatos. Já não será a primeira vez que sentimentos como a xenofobia fazem estragos em organizações classificadas como de esquerda, tal como em organizações classificadas como de direita.

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