CARTA DE LISBOA – Não há lacaios grátis – por Pedro Godinho

lisboa

Não, não e não.

Não há paciência para tanta canalhice. Para a acusação pretensamente moralista de que os males do país foram originados por gastarmos mais do que temos, por vivermos acima das nossas possibilidades (nós, claro, eles foram sempre espartanos).

Não tenho dívidas nem empréstimos (e quando tive o crédito de habitação paguei-o sempre a tempo e horas, a juros exorbitantes e nas condições impostas). Não fui atrás dos cânticos de sereia dos bancos que me assediavam com propostas de crédito pessoal, em que bastava um telefonema ou assinar um cheque e tudo estaria ali ao meu dispor, sem burocracias.

Não elaborei, não propus, não votei os orçamentos do Estado, nem decidi – ou sequer fui consultado – sobre onde e quais deviam ser os investimentos e gastos do Estado.

Não aprovei concessões, PPP, swaps ou contratos depois censurados pelo Tribunal de Contas ou qualquer outro.

Não assinei tratados de Maastricht ou de Lisboa ou memorandos de entendimento. Nem fui consultado sobre os mesmos (nem exibi fotos de blackberry ou relógios de countdown).

Não elegi este governo, nem o outro, ou sequer os seus aménes em são bento (se os gauleses de Astérix só temiam que o céu lhes caísse sobre a cabeça, os bentinhos só temem que lhes tirem o assento debaixo).

Não andei a dizer uma coisa antes para fazer depois o seu contrário (a legitimidade alicerçada na mentira é ilegítima).

Não aceito que fique impune a cobardia dos que não aceitam, sequer, a responsabilidade dos seus actos.

Não me conformo, não aceito o terrorismo do discurso da inevitabilidade submissa, que diz não haver alternativa – há sempre alternativas, mas é preciso querer e ser livre e independente.

Não quero que o meu país seja praia e coroa dos outros e o seu povo criados de servir, de libré, luva branca e tudo.

Não, não e não. Precisamos, até por razões de higiene, dum governo de mulheres e homens bons, não corrompidos nem corruptores dum sistema que, de tão aprisionado por forças ilegítimas, de democracia vai guardando apenas o nome.

É urgente saber dizer não, para poder criar espaço para o sim.

 


Dizer Não

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.

Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.

Diz NÃO à cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da polícia. Porque a cultura não tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, não é um modo de se descer mas de se subir, não é um luxo de «elitismo», mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.

Diz NÃO até ao pão com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pagá-lo com a renúncia de ti mesmo. Porque não há uma só forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como preço a tua humilhação.

Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código, antes de passar pela certeza do que tu sabes ser justo.

Diz NÃO à verdade que te pregam, se ela é a mentira com que te ilude o pregador. Porque a verdade tem a face do Sol e não há noite nenhuma que prevaleça enfim contra ela.

Diz NÃO à unidade que te impõem, se ela é apenas essa imposição. Porque a unidade é apenas a necessidade irreprimível de nos reconhecermos irmãos.

Diz NÃO a todo o partido que te queiram pregar, se ele é apenas a promoção de uma ordem de rebanho. Porque sermos todos irmãos não é ordenarmo-nos em gado sob o comando de um pastor.

Diz NÃO ao ódio e à violência com que te queiram legitimar uma luta fratricida. Porque a justiça há-de nascer de uma consciência iluminada para a verdade e o amor, e o que se semeia no ódio é ódio até ao fim e só dá frutos de sangue.

Diz NÃO mesmo à igualdade, se ela é apenas um modo de te nivelarem pelo mais baixo e não pelo mais alto que existe também em ti. Porque ser igual na miséria e em toda a espécie de degradação não é ser promovido a homem mas despromovido a animal.

E é do NÃO ao que te limita e degrada que tu hás-de construir o SIM da tua dignidade.

Vergílio Ferreira, in ‘Conta-Corrente 1’

 

 

 

2 Comments

  1. Escrevendo naquele tempo Vergílio Ferreira escrevia para o dia de hoje. Grandes escritores escrevem para o futuro, não consigo evitar sentir amargura que assim seja, quando é desta forma o tal futuro.

  2. Mais uma vez vejo confirmado o talento esclarecido do Pedro Godinho. Textos com a natureza interpretativa que o Pedro usa é que fazem falta e, de facto, são o caminho certo para conseguir definir-se uma alternativa válida à decadência inequívoca e irreversível do “statu quo” político deste nosso (sê-lo-á?) Portugal. CLV

Leave a Reply