Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
6 de Junho: quem tem medo do Exército Vermelho?
Atenção à perda de memória
Régis de Castelnau, Le Causeur, 13 de Maio de 2014
O espectáculo dado pelos grandes meios de comunicação social franceses desde o início da crise ucraniana é uma questão que causa enorme consternação. Tanta má-fé, tanta xenofobia, ignorância e estupidez acabam mesmo por nos fazer sentir mal. O nível de desinformação atingido é mesmo assim muito inquietante. E a russofobia compulsiva das nossas elites, abandonando toda a ideia de bom senso e de inteligência, diz muitíssimo sobre o seu estado. No entanto, os homens políticos, historiadores, intelectuais de autoridade e de competência incontestáveis esforçam-se por introduzir um pouco de razão neste debate. Pregam no deserto. Sob vários aspectos, a França oficial está a ficar sem vergonha, sem honra. Basta ouvir os meios de comunicação social europeus para constatar que somos os únicos a descer à este nível de infâmia. Os editorialistas dos meios de comunicação, sobretudo dos mais importantes, consideram-se profissionalmente dispensados de qualquer respeito moral e assumiram estar na frente desta cruzada. Seguidos de muito perto pelos líderes socialistas.
Incrédulo, ouve-se na televisão Henri Weber, senador socialista, assumir a defesa dos partidos ucranianos Svoboda e Pravy Sector, que se afirmam explicitamente como os herdeiros dos auxiliares do Shoah pelas balas. “São democratas! ” Ter-se-ia podido esperar, após o fim da guerra fria que o partido socialista se desembaraçasse do seu atlantismo. Pois bem, não se desembaraçou, isto deve ser genético. O servilismo como prática face às acções da política dos americanos faz-me recordar os meus tempos de juventude e o que nesses tempos se passou. Em 1966, quando Charles De Gaulle tinha querido deixar o comando integrado da OTAN, a SFIO lançou gritos de revolta e apresentou na altura uma moção de censura na Assembleia Nacional.
Não pretendo tomar aqui nenhuma posição sobre a crise ucraniana, sobre a sua origem nem sobre as suas s responsabilidades respectivas. Nem tomar partido entre Putin e Obama. Há em tudo isto questões geoestratégicas, geopolíticas e económicas complexas. Simplesmente dizer que o debate não se pode alimentar unicamente de ignorância e de má-fé. Como é que se pode qualificar de democrático um governo composto para um terço de anti-semitas mais que provados?
Quanto à histeria e à ignorância temos uma bonita ilustração com os uivos indignados dos cães de guarda face ao convite do Presidente Russo para as cerimónias do 70e aniversário do desembarque na Normandia. Alguns não hesitaram, como o fez Hillary Clinton, a comparar Putin a Hitler! Todos consideram normal, e é o meu caso, que se convide a chanceler alemã. Eram-mos inimigos e reconciliámo-nos. Em contrapartida a presença do Presidente democraticamente eleito de um dos nossos aliados neste terrível combate e que perdeu, entre civis e soldados, a metade do terrível balanço global deste conflito (50 milhões de mortes), seria indecente? A ignorância da realidade da guerra a Leste permanece sempre um tema de espantar e de admiração. O fim da des-nazificação da Alemanha em 1947 devido à guerra fria, pode-se compreender. A escandaloso reabilitação do Wehrmacht, visando fazer incidir somente sobre os SS a responsabilidade dos crimes do nazismo já me parece uma atitude muito ligeira. Mas hoje? Em todas as escolas da Rússia é contada a história do esquadrão Normandia-Niemen como símbolo da amizade Franco-Rússia forjada no combate. Os alunos conhecem a história de Maurice de Seynes e do seu mecano Biezolub enterrado no mesmo túmulo.
Em França, além dos leitores assíduos de Jean Lopez e dos soldados que sabem do que falam, quem se interessa sobre o que representa para os povos soviéticos um evento tão terrível?
E esta ignorância alimenta uma ideia falsa. O povo russo, não foi especialmente mimado pela história do século XX . Primeira guerra mundial, guerra civil, domínio abominável de Estaline, Grande Guerra Patriótica e após, nova glaciação… Dissemos nestes colunas a particularidade do traumatismo da primeira guerra mundial sobre o povo francês. E da sua importância, ainda hoje.
Então, que dizer de tudo o que foi sofrido pelos Russos? 25 milhões de mortes, um país destruído de alto a baixo, sacrifícios propriamente inauditos para suportar e vencer a crueldade que lhes foi imposta pelos alemães. Sim, imposta. Pude constatar pessoalmente, quarenta anos depois, a existência deste síndroma. A lembrança do pavoroso banho-de-sangue de 1941 que viu morrer 5 milhões de homens no espaço de poucas semanas, essencialmente por causa da cegueira de Estaline e da sua impreparação. O sofrimento que resultou do preço a pagar para conter, enfrentar e ,por fim, ganhar . Sabe-se que a taxa de mortalidade nos milhões de prisioneiros de guerra soviéticos foi de 60%? Era de 20% nos campos soviéticos, de 3% nos campos anglo-saxónicos…
Então, pensar que os Russos desenvolveram desde a segunda guerra mundial uma estratégia imperialista e agressiva, é estar a criar um contra-senso. Certamente, existe, desde há muito tempo, um chauvinismo grande-russo, correntes belicosas, mas a marca de Junho de 41 é de tal modo forte que a estratégia deste país é essencialmente defensiva. Não os apanharão mais assim.
Os países de Leste após a segunda guerra mundial? Era um glacis, um tampão entre eles e o Ocidente. Todos os diplomatas que trabalharam durante o período da guerra fria sabem-no e dizem-no claramente, hoje . Era igualmente a posição de Gaulle. Desde a Segunda Guerra Mundial, no Exército Vermelho, uma das afectações mais prestigiadas é o de guarda de fronteira nas tropas russas.
A crise ucraniana? Como é que se pôde imaginar que Putin podia aceitar a instalação de uma base da NATO em Sebastopol? Que tenham integrado “todos os países socialistas” na UE e na Nato e que se tenha a intenção de pôr a mão sobre um território que ainda há vinte anos pertencia ao império soviético, o sucessor imediato do império czarista? Recordemos a reacção (justificada) de Kennedy quando soube da instalação de mísseis nucleares soviéticos em Cuba.
Uma imagem bastante engraçada circula sobre as redes sociais. Nela se vê um mapa da Europa onde figuram cerca de trinta bases da NATO que cercam literalmente a Rússia. O comentário é: “A Rússia quer a guerra! Veja-se como colocaram o seu país tão juntinho das bases americanas…”.
Ei-la:
La Russie veut la guerre! Voyez comme ils ont placés leur pays près des bases #US. #UPRhttp://www.upr.fr pic.twitter.com/fKVYHz30zt
Une image assez drôle circule sur les réseaux sociaux. On y voit une carte de l’Europe où figure la trentaine de bases de l’OTAN qui encerclent littéralement la Russie. Le commentaire en est : «La Russie veut la guerre ! Voyez comme ils ont placé leur pays tout près des bases américaines…».
*Photo: MARY EVANS/SIPA . 51004909_000001.
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