Em entrevista, conduzida por Sérgio Almeida e dada ao Jornal de Notícias e hoje publicada, Lúcia Vaz Pedro, professora e formadora (além de colaboradora daquele jornal diário), diz que “o Acordo Ortográfico permitiu unificar a língua portuguesa”. Publicou recentemente o livro Português Atual um livro que, segundo a autora, “explica, de forma simplificada, alguns conceitos necessários a uma escrita eficiente, atual e correta”.
No balanço à implementação do AO entre nós, opina que “o balanço tem sido bastante positivo […] a implementação tem sido feita de forma gradual nas escolas e os alunos aplicam-no com naturalidade assim como os professores. Ao nível da comunicação social e na generalidade das empresas o AO é seguido e aplicado sem dramatismo”. E aponta as vantagens – “Tal como era previsível, o AO permitiu unificar a língua portuguesa. Essa unificação tem conduzido a uma política de língua que desperta interesse mundial. O Português transformou-se numa língua mais consistente, com regras bem definidas, nomeadamente no que diz respeito à hifenização”.
Referindo a circunstância de o Acordo Ortográfico não estar a ser aplicado em todos os países da CPLP, justifica-o assim:”Todos sabemos que o problema de alguns países da CPLP se prende com a educação e não com o Acordo Ortográfico em si. Antes de se falar de AO, urge ter uma educação eficiente e que a escolaridade seja uma realidade acessível a todas as crianças. Saber ler e escrever são instrumentos essenciais para o crescimento de qualquer ser humano. Assim, penso que, neste momento, esses países estão a preparar-se para criar as condições para uma educação funcional onde a Língua Portuguesa seja a mesma que é utilizada por milhões de pessoas”. E afirma – “a maioria da sociedade portuguesa e da sociedade brasileira utilizam o Acordo Ortográfico: os manuais escolares, as revistas, os jornais, as legendas dos filmes, os anúncios publicitários. O adiamento permitiu uma harmonização entre Portugal e o Brasil, quanto à data de entrada em vigor obrigatória em ambos os países. Esta sintonia fortaleceu ainda mais este tratado”.
Quanto a imperfeições a ser corrigidas numa futura revisáo do Acordo Ortográfico, expende a seguinte opinião: “Há algumas situações que poderiam ser revistas, nomeadamente a questão do acento facultativo da 1ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo dos verbos da 1ª conjugação, como, por exemplo, estudamos / estudámos; ou então a da 1ª pessoa do plural do presente do conjuntivo do verbo dar ( dêmos ou demos). Isto porque o acento é obrigatório noutras situações, como é o caso da 3ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo poder (pôde) para se distinguir da 3ª pessoa do singular do presente do indicativo (pode). Na verdade, a questão das facultatividades, em vez que facilitar confunde. Existe ainda uma situação que deve ser revista e que se prende com o prefixo co-. Ora este prefixo, segundo as regras do AO prescinde do hífen em qualquer tipo de situação, mas a palavra co-herdeiro surge com a dupla grafia co-herdeiro e coerdeiro. Trata-se de pequenos pormenores que, a seu tempo, serão limados”.
No que se refere à relutância que os meios intelectuais manifestam em adoptar o AO., explica assim essa resistência: “Por um lado, compreendo essa postura. Trata-se de uma tradição. Fernando Pessoa e Teixeira de Pascoaes também rejeitaram a substituição do y grego pelo i latino, aquando do acordo ortográfico de 1911. Julgo que há sempre pessoas que resistem à mudança, seja por receio de não saberem escrever pelas novas regras, seja por elo emocional ou intelectual à memória gráfica da escrita. Porém, não nos podemos esquecer de que a nossa língua está tão viva que saltita pelo mundo. Parece uma criança feliz e não há quem não a queira aprender.”
Para leitura integral da entrevista, clicar


Manuel Simões
Confesso o meu espanto perante a falta de rigor científico de tantas afirmações desta professora e formadora. Como é que se pode falar de unificação linguística (nem sequer de unificação ortográfica), esquecendo a questão lexical e sintáctica? Pode ser que o acordo estabeleça “regras bem definidas, nomeadamente no que respeita à hifenização” mas são regras arbitrárias, como já referiu o lexicógrafo Sergio Pachá, porque não consideram o valor metafórico das expressões. Mas acho comovente a imaginação infantil que concebe a língua “tão viva que saltita pelo mundo”.
Ia perguntar se a expressão “unificar a língua portuguesa” faz algum sentido ou tem, sequer, algum conteúdo… Mas o comentador anterior antecipou-se e já colocou as questões todas. De facto, a “imaginação infantil” não só é comovente, como explica tudo o resto… Como é que gente com ideias tão flácidas e baralhadas atinge certos cargos e funções, eis o grande mistério!