CARTA DE LISBOA – Vale mais um cu sentado que dois votos na urna – por Pedro Godinho

lisboa

 

Anunciaram-nos, com pompa e circunstância, o 17 de Maio como o dia da expulsão do trio maléfico e da nova libertação nacional, mas, passado o foguetório paulista, no dia seguinte, Lisboa acordou, com as canas por apanhar, cinzenta e triste como antes. E, pior, eles continuam por aí.

E nem uma semana foi preciso para assistir à incursão das alegres hordas castelhanas, que aqui vieram decidir qual das duas famílias era campeã da bola europeia. Enquanto os portugueses os serviam ou, de longe, assistiam aos acontecimentos numa cidade que, como o país, deixou de ser sua e ficou entregue ao invasor.

A 25 tivemos eleições, aquelas para enviar 21 delegados ao denominado parlamento europeu que, saltitando entre Bruxelas e Estrasburgo, quase nada decide e de nós pouco quer saber, tão preocupado está consigo mesmo e com o que o directório lhe permite.

Como não sou menos que tantos que por aí palpitam, deixo umas notas soltas sobre as ditas e seus resultados:

  • Cavaco Silva perdeu o pio, nem sequer facebooka, mas entrevê nos fracos resultados a possibilidade de voltar a tentar amancebar laranjetas e rosinhas em governo da união nacional, sob a sua inspiração e tutoria.
  • o PSD e CDS perdem mais de meio milhão de votos mas vêm tentar vender como falsa narrativa que, desta vez, foram os seus que ficaram em casa (quando a abstenção subiu apenas 280 mil).
  • o PS procura segurar-se cantando como grande vitória a subida duns míseros 86 mil votos, menos quase meio milhão que aquando das vitórias de 2004 e 1999 (onde havia cerca de menos um milhão de eleitores e abstenção também esteve na casa dos 60%).
  • o PCP satisfaz-se com mais 35 mil votos e voltar a passar à frente do BE que essa luta continua. Parece que lhes chega poder dizer que são a terceira força (Que força é essa…)
  • o BE perde 230 mil votos, mais de metade da últimas europeias, as eleições que lhe são mais favoráveis, sem perceber porque não consegue que o povo o ame tanto quanto ele o ama e olhando para o umbigo das facções (reeleger um militante foi mais importante que tudo o resto, a sigla fica acima de qualquer tentativa ou vontade de pensar numa alternativa que não seja a sua frente – o udpismo espreita).
  • o MPT chega em quarto, entre os partidos, alcança 230 mil votos, multiplicando por 10 os 23 mil de 2009. São os votos higiénicos, dos que acolhem qualquer discurso contra os políticos e partidos que se servem do Estado e seus benefícios, contra a corrupção e por uma limpeza geral, com mão férrea se preciso for. A recompensa são dois assentos, a ver o que fazem com eles.
  • A abstenção chegou aos 66%, acima dos ditos 6 milhões de benfiquistas que existiram mundo fora, mas desde há 20 anos que ficou sempre acima dos 60% – o que omitem os acólitos partidários que fingem vir lamentar a altura da dita.
  • os Brancos e Nulos, juntos, somam mais que o BE quinto, mais que o MPT quarto. Mais 10 mil brancos e nulos, menos 20 mil brancos e mais 30 mil nulos – da recusa “civilizada” para a recusa da “caralhada”.
  • os votos em Branco são quase tantos como os do BE e davam um lugar “em branco” (o 18º) – se existisse, como deveria, essa disposição legal – e, juntos, brancos e nulos dariam dois lugares vazios (o 9º e o 21º).
  • As percentagens apregoadas pelos partidos (curioso como aqui são de facto mesmo todos iguais) são-o apenas sobre os votos expressos neles próprios, mas como minguam se tomarmos antes por referência o universo dos eleitores registados:
    • Os famosos 31,5% (dos votantes) do PS afinal são apenas 10,7% (dos eleitores).  Mas dá-lhes 38% dos mandatos.
    • Os 27,7% do PSD+CDS correspondem a 9,4%. Mas obtém 33% dos mandatos.
    • Os 12,7% do PCP seriam afinal 4,3%. Mas conseguem 14% dos mandatos.
    • Os 7,1% do MPT seriam 2,4%. Mas têm 9,5% dos mandatos.
    • Os 4,6% do BE seriam 1,5% (dos eleitores). Mas ficam com 4,8% dos mandatos.
  • Mas para não se dizer que não é bem assim porque muita da abstenção é “técnica”, devida à não actualização dos cadernos eleitorais aqui ficam os mesmos cálculos retirando um milhão (estimativa que tenho visto repetida para o número de “eleitores fantasma”):
    • PS – 12%
    • PSD+CDS – 10,5%
    • PCP – 4,8%
    • MPT – 2,7%
    • BE – 1,7%
  • Afinal o que representam os nossos representantes? Que legitimidade têm os governantes? Ainda acham que não é urgente discutir o sistema político e eleitoral e como tornar democrática a democracia?

2 Comments

  1. “To be or not to be is the question”assim acontece nesta república das bananas . Este País foi e sempre será de famílias de longas tradicões feudalistas .Como será possível domesticar estas famílias democraticamente ?Maria

  2. São evidentes as responsabilidades de vários partidos, sobretudo dos que têm passado pelo poder, porque deles depende a organização e conteúdos do ensino (fundamentais para a formação da cidadania), a assumpção de discursos que afastam os cidadãos da política, a submissão aos interesses de uma oligarquia internacional de contornos indetermináveis e obscuros, mas da qual emanam variadíssimas “gratificações” pelos serviços prestados.
    Também não são descartáveis as responsabilidades dos “media”, sobretudo da TV (ainda e por muito tempo, apesar dos esvoaçantes disparates sobre a “influência” das novas tecnologias e seus blogues, redes sociais, etc. – com base num grau zero de análise científica da questão – que umas quantas criaturas vão insistentemente debitando): na informação, com os seus cortejos de comentadeiros saídos, preferencialmente, dos órgãos dirigentes dos principais partidos e de profissionais maioritariamente incultos, desconhecedores da História passada e da complexidade do presente, que aquela ajuda a enquadrar, manipuláveis (com os “independentes e objectivos” JRS deste mundo e suas crenças pueris, que a sua própria actuação invalida, à cabeça…), incapazes do difícil exercício de pensar, o que os leva a engolir sem mastigar todas as pseudo-evidências que a ideologia dominante lhes serve na ração informante que lhes vai dispensando; na programação, em que os horários de maior audiência são ocupados por “formatos” imbecilizantes, que muito contribuem para a “distracção” do povo; sem esquecer quem são os donos dos “media” e as suas ligações à mesmíssima oligarquia, nem a destruição deliberada, por PSD e CDS, com prestimosas ajudas do PS, do serviço público de rádio e televisão – único possível garante da liberdade de expressão de correntes de opinião minoritárias -, hoje a caminho da ineficácia total.
    No entanto, mesmo tendo em consideração os enormes recursos da ideologia dominante, hoje na sua fase mais agressiva e fascizante – a do neo-liberalismo e da chamada financeirização – para afastar os cidadãos de uma formação e informação adequadas a uma análise não superficial dos fenómenos políticos e sociais, se não se verificarem limitações à livre expressão dos eleitores, através do voto, a abstenção não retira legitimidade à representação democrática, pelo que os números apresentados por Pedro Godinho, sendo importantes em termos sociológicos, não autorizam que se questione a representatividade dos eleitos.
    Outros factores – como o ludíbrio dos votantes, através de campanhas eleitorais enganosas, a traição à sua confiança, pelo incumprimento de promessas eleitorais, ou a ilegalidade contumaz de medidas aprovadas pelos poderes legislativo e executivo, como acontece com o actual Governo e os deputados seus apoiantes, que repetida e conscientemente desrespeitam a Constituição – podem e devem ser motivo de tal interpelação. Uma quantidade muito elevada (que ainda não se atingiu…) de votos brancos, de cidadãos que decidem transmitir – inequivocamente – que nenhum dos programas políticos, dos partidos ou dos candidatos propostos os satisfaz, autorizaria dúvidas similares.
    Abra-se aqui um parêntesis, para clarificar que o mesmo significado não é atribuível aos votos nulos, pois essa nulidade decorre de razões muito diversas – do simples engano a manifestações de descontentamento, não raro ridículas e sempre ineficazes -, o que não permite que do seu número se retire qualquer ilação pertinente e muito menos que eles se acrescentem aos votos brancos.
    A abstenção de um eleitor que não esteja objectivamente impedido de exercer o seu direito/dever de voto significa que ele se demite de participar na eleição de quem o represente. Ao fazê-lo, entrega a capacidade de decisão àqueles que vão votar, muitos ou poucos. A compreensão das possíveis razões da sua atitude, que aflorei acima, não invalida nem altera esta realidade. Quem não vota, não expressa nada, não se preocupa em fazê-lo, não quer fazê-lo. Tem esse direito, entendo que deve mantê-lo, pois não concordo com a obrigatoriedade do voto, nem creio que resolva seja o que for, mas a única coisa que exprime é a sua indiferença perante a “res publica”.
    Mas o facto de eu perceber as razões, das quais sobressai a acção deletéria de diversas forças políticas, que criam na maioria da população ideias como “o que eles querem é poleiro”, “os políticos são todos iguais”, “tanto faz que lá estejam uns como outros”… não me leva a: a) ignorar o primarismo de tais generalizações, a sua falsidade e a conveniência da sua disseminação para os aldrabões e oportunistas que cumprem os mandatos oligárquicos (tão visíveis na UE), pois escondem que há quem esteja na política dignamente e impedem que o eleitorado faça outras escolhas, prejudiciais às tais oligarquias e seus servidores; b) desinteressar-me da intervenção cívica e política.
    Pelo que o outro lado da questão, o que verdadeiramente interessa, é trabalharmos para que essa indiferença seja substituída por uma plena consciência das responsabilidades de cada cidadão nos destinos do povo a que pertence e, por acréscimo, no destino de todos os povos, pois os problemas políticos, económicos e outros – que a todos afectam – são, como sabemos e é cada vez mais facilmente discernível, globais. E tal tarefa implica a intervenção política, em diversos níveis, incluindo o voto. Sabendo que, por enquanto – e sabe-se lá por quanto tempo e através de quanto sofrimento imposto aos povos – somos uma minoria. Como muitos outros, ao longo da História, foram minoria, mas conseguiram que o seu esforço conduzisse a avanços civilizacionais, cujo balanço ainda é, apesar de muitos recuos, essencialmente positivo.

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