PORQUE É QUE O MASSACRE DE ODESSA TEVE TÃO POUCO ECO NOS MEDIA OCIDENTAIS? Por JACK DION

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Porque é que o massacre de Odessa teve tão pouco eco nos media ocidentais?

JACK DION – MARIANNE

6 de Maio de 2014

Curiosamente, a carnificina que teve lugar em Odessa, onde quarenta separatistas foram mortos no incêndio na Casa dos Sindicatos, levanta poucas reacções. Porquê dois pesos, duas medidas na emoção e no protesto?

Odessa - I

Imagine que o que aconteceu em Odessa, no dia 2 de Maio, teve lugar em Maidan em Kiev. Imagine que revoltados  ucranianos identificados pelos partidários do antigo regime estão refugiados na Casa dos Sindicatos e que esta última foi queimada por forças hostis, sob os olhos de uma polícia impassível. Imagine que foram lá encontrados 40 cadáveres carbonizados.

O que teria acontecido? A emoção teria atingido o auge nas  capitais ocidentais. Os Governos poderiam  ter gritado em  termos de assassínios de massa  pelos esbirros  de Yanukovich. Eles veriam aí a prova clara dos costumes  bárbarosa serem praticados  numa cidade tão próxima  da UE, apenas a algumas horas de voo de Paris. Intelectuais de renome  iriam  imediatamente voar  para Kiev a fim de  gritar a  sua solidariedade com o povo de Kiev, da Ucrânia. Por exemplo, Bernard-Henri Lévy  teria já escolhido a sua especial camisa branca. As petições poderiam começar a circular  por essa Europa fora. O socialista Laurent Fabius invocaria os valores universais a serem completamente desrespeitados.

E no caso de agora? Nada, ou quase nada se ouviu. Nada de protestos, nada de denúncias, nada de admoestações, a não ser quando é contra … Moscovo – a acreditar que são os espiões russos disfarçados de ucranianos pró-ocidentais  que fizeram queimar aqueles que juram pela eterna Rússia. Alguns que não recuam perante nada , não estão longe de o sugerir.

Em nome da UE, Catherine Ashton só pediu uma Comissão de inquérito para descobrir o que se tinha passado naquele dia maldito, como se todos o ignorassem. Sabemos a engrenagem que levou a estarem frente a frente  os separatistas e os manifestantes pro-Kiev. Sabemos que entre estes últimos estavam activistas da extrema-direita do partido Pravý sektor. Foram eles que incendiaram a Casa dos Sindicatos antes de verem grelhar aqueles que lá foram apanhados na armadilha.

Testemunhos credíveis existem, as fotos circulam, nenhuma dúvida é possível. Mas a imprensa utiliza o apagador, como o faz o jornal  Le Monde, jornal para o qual passe-se o que se passar, a conclusão é sempre a mesma: “a responsabilidade russa é esmagadora”.

Que ela o seja em  grande parte, é verdade.  A questão da Crimeia é disso um testemunho.  Mas será Putin o único responsável  de uma situação que corre o risco de pode vir a transformar-se numa guerra civil? Como apagar a realidade do que aconteceu na praça  Maidan onde tudo não se  pode resumir  a uma luta entre os revoltados por serem os amantes da justiça contra os que seriam apelidados de agentes  contratados pelo ex-presidente? Porque não tem a  televisão francesa utilizado  o trabalho de investigação do canal de TV alemã ARD, segundo a qual muitos dos mortos de Maidan foram baleados por balas do  seu próprio campo político?

Sem cair no discurso de  Moscovo, que repete o combate antifascista da  guerra mundial, como não nos inquietarmos com a presença de representantes ao mais alto nível de uma extrema direita que faria passar Jean-Marie Le Pen, para um animador  de um  clube de férias? Como não nos interrogarmos sobre  um governo cuja primeira decisão foi a de atacar a situação da língua russa como a segunda língua do país? Quando fez marcha atrás, o mal já estava feito. Era tarde demais.

Desde então, a situação vai de mal a pior. Na parte oriental, a Rússia alimenta claramente  elementos separatistas com os quais  pode jogar. Em Kiev, eles são tratados de  “terroristas”, como se a revolta da porção ocidental fosse respeitável e a do seu homólogo no leste fosse  desprezível. Demagogia contra demagogia. Simplismo contra simplismo. Todas os golpes  são permitidos. Até onde ?

No entanto, em França, os meios de comunicação apresentam esta situação de forma tão caricatural como o fizeram  durante a dissolução da antiga Iugoslávia. Do mesmo modo que na época, havia a boa Bósnia  e os bandidos sérvios,  desta vez, há os bons ucranianos (pró-europeus mesmo quando eles são ultranacionalistas) e há os ímpios ucranianos (pró-russos e, portanto, também detestáveis como o são os soviéticos).

É o grande retorno do maniqueísmo e do raciocínio binário. A realidade nunca é discutida nas  suas contradições. Ninguém quer ver que a UE e a OTAN estão a jogar um jogo tão  perigoso como o faz a Rússia. Na  rádio como na  televisão, a história é resumida a um muito simples raciocínio: o inimigo público n º 1 é  Putin.

Moral da história: aqueles que gozam com a doutrinação dos media de  Moscovo  fariam bem  melhor porem ordem na sua própria casa.

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http://www.marianne.net/Pourquoi-le-massacre-d-Odessa-a-t-il-si-peu-d-echo-dans-les-medias_a238616.html

 

 

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