FRATERNIZAR – Oficina Palavra, Pão e Vinho, no BC – por Mário de Oliveira

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Um dia inesquecível para quem fez a opção de viver o domingo, 1 de Junho 2014, no Barracão de Cultura, e deu corpo com o seu próprio corpo à 2.ª Sessão da Oficina Palavra Pão e Vinho, uma iniciativa da Associação Cultural e Recreativa AS FORMIGAS DE MACIEIRA /BC, dinamizada pelo Pe. Mário de Oliveira. A acção decorreu entre as 11h e as 18 horas e contou com o almoço compartilhado, conseguido a partir dos farnéis previamente preparados pelas pessoas e transportados por elas para a Mesa Comum do BC. E encerrou com o lanche, conseguido a partir das muitas sobras do almoço. No apoio ao almoço e ao lanche, esteve o Bar Cultural do BC, à responsabilidade do associado Alberto Carvalho. “Trabalho”, foi a palavra forte desta 2.ª Sessão da Oficina e, só muito secundariamente, também a palavra “Fátima”, uma vez que esta Sessão, embora decorresse no 1.º de Junho, era relativa ao último domingo de Maio, adiada uma semana, devido às eleições europeias.

A grande questão de fundo que animou as intervenções de cada pessoa, e que prosseguirá, vida fora, é tentarmos passar da actual condição de trabalho por conta de outrem, nomeadamente, por conta das grandes multinacionais sem rosto que devoram a alma de quem as serve e fazem do trabalho um “tripallium”, uma tortura, porventura pior que a que no passado era aplicada aos escravos pelos respectivos donos. E foi bonito ouvir e ver experiências alternativas ao trabalho por conta de outrem que algumas pessoas já estão a dar corpo, com destaque, nesta sessão, para a experiência de Luísa Arroja, uma professora de Macieira da Lixa, no desemprego e que está avançar com a produção artesanal de sabonetes alternativos aos do grande Mercado, confeccionados a partir de produtos naturais do pequeno quintal da sua casa – alfazema, tangerina, mel, alecrim, azeite virgem português. Os novos sabonetes andaram em pequenos cestos, de mão e mão e quem quis, no final, adquiriu as diversas unidades que quis, a preços justos, sem nenhuma exploração.

Esta sessão da Oficina foi muito animada do princípio ao fim e muito enriquecida pela variedade de pessoas, provenientes de diferentes partes do País, com destaque para algumas de Macieira da Lixa e de outras freguesias de Felgueiras, Amarante, Vizela, Guimarães, Porto. O casal Rosa e Homero, viajou propositadamente de Lisboa para participar e foi uma exuberância de vida, de ternura, de abraços e de beijos, de arte, nomeadamente, pela parte de Homero. No dia mundial da criança, Homero, nos seus juvenis 50 anos de idade, carteiro de profissão em Lisboa, foi o menino adulto que mais marcou esta Sessão. Mas o momento de maior ternura foi protagonizado pelos dois filhinhos do jovem casal Luísa e Carlos, de seus nomes, Alice e o Eduardo, com idades inferiores a cinco anos, que, na sua simplicidade, nos cantaram e dançaram 3 músicas infantis deste seu tempo. Já a criança que todos os adultos fomos outrora e que tem sido reprimida à medida que crescemos em anos voltou a vir ao de cima, nesta Oficina e soltou-se, quando improvisamos, na hora, no espaço da plateia do BC, onde a sessão decorre, a música e a dança do “Bom barqueiro”. Até Alice, que, por motivos de um acidente, veio apoiada numa canadiana, e Rui que desde os 13 anos, se desloca numa cadeira de rodas, entraram na dança. E todas, todos dançamos, em dança livre, ao início da tarde, já depois do almoço partilhada, uma música do folclore minhoto, amplificada pelo serviço de som gravado que o BC acaba de adquirir e de instalar.

Do início ao fim, esta 2.ª Sessão da Oficina foi movimento, muitos abraços e beijos entre todos os participantes, muitas intervenções, muitos afectos, uma experiência nunca antes protagonizada e que deixou completamente fascinadas e transformadas de dentro para fora, as pessoas, mulheres e homens, de diferentes idades, convicções, credos, níveis escolares e profissões. O remate da Sessão, uma surpresa bem guardada, foi a apresentação da Estória a duas vozes, Caim-e-Abel, da autoria do Pe. Mário e que ele próprio leu-declamou-representou, no centro da plateia, com a vivacidade e a alegria que lhe são conhecidas. Coube a Maria Laura, ser a outra Voz que, inopinadamente, se intromete na Estória, mas sempre com invulgar oportunidade. Nesta Estória, o grande Poder financeiro (Caim) apresenta-se em toda a crueza de Mentira, Idolatria e assassínio que o caracteriza. Por fim, e porque ninguém falava sobre Fátima, dado o manifesto desinteresse por tudo aquilo sem pés nem cabeça, cantou-se, a exigências de um dos participantes, um canto intitulado, IGUAIS SEMPRE, do Livro CANTO(S) NAS MARGENS, escrito para ser cantado com a conhecida música fatimista “Sobre os braços da azinheira”, e que constitui, pela positiva, a destruição simbólica de toda aquela mentira-e-crime que Fátima é, por mais que a hierarquia católica, para sua vergonha, continue a dar-lhe cobertura, contra a Humanidade e contra o Evangelho de Deus, revelado em Jesus.

A concluir, aqui ficam a letra de um e outro Cantos. O 1.º, “Adeus mundo financeiro”, em estreia absoluta, nesta Oficina, escrito propositadamente para ela sobre o tema em debate. Eis:

 

ADEUS, MUNDO FINANCEIRO

 

1 Adeus, mundo financeiro

Adeus que te vou deixar

Prefiro ser um canteiro

Do que p’ra ti trabalhar

 

2 Neste mundo do dinheiro

Trabalhar é uma tortura

Não tens ninguém companheiro

Nem tens o Pão da Cultura

 

3 Até o acto de criar

Fica refém do Mercado

Pois só consegue vingar

Se for por ele marcado

 

4 Se filhas, filhos gerares

São-te depressa tirados

Pagarás para os criares

Mas sairão formatados

 

5 Quem quer ser homem, mulher

Neste mundo do dinheiro

Cultive a arte de ser

Clandestino e companheiro

 

6 Se quisermos ser humanos

Não podemos ser cristãos

Quem abençoa os tiranos

Não vê nos outros irmãos

7 Tudo que eu faça e que diga

Tem de gerar liberdade

Nem que o Poder me maldiga

E trate com crueldade

 

8 Como as aves e os lírios

Não sei de teres, poderes

Conheço muitos martírios

Fecundo muitos viveres

 

9 Canto, danço o ser humano

Todo paz, fragilidade

Não sei de senhor nem amo

Sou Ruah, sou liberdade

 

10 A beleza das belezas

É sermos outros Jesus

Sofremos muitas baixezas

Mas somos no mundo Luz

https://www.youtube.com/watch?v=m7kqxSSIjkM

 

 

Iguais sempre

 

Refrão

           

De mãos dadas bem iguais

            formamos comunidade

            nossa vida consagrada

            transforma a sociedade

 

1 Somos homens e mulheres

chamados à liberdade

rumo à nova sociedade

onde todos são irmãos

entre nós cresce a alegria

pois sabemos dar as mãos

 

2 Somos homens e mulheres

amigos e companheiros

no serviço os primeiros

cada qual com o seu jeito

entre nós cresce a alegria

a ternura e o respeito

 

3 Somos homens e mulheres

ao serviço dos mais pobres

pois são eles os mais nobres

no dizer do Evangelho

entre nós cresce a alegria

que põe fim ao mundo velho

 

4 Somos homens e mulheres

prontos para dar a vida

até a morte ser vencida

pela prática do amor

entre nós cresce a alegria

pois ninguém faz de senhor

 

5 Somos homens e mulheres

muito ao jeito de Maria

sempre prontos cada dia

à solidariedade

entre nós cresce a alegria

como cresce a liberdade

 

6 Somos homens e mulheres

muito firmes no amor

no combate a toda a dor

e na luta contra a guerra

entre nós cresce a alegria

como paz canção da terra

 

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