A revolução chegou aos 40 anos num abrir e fechar de olhos. Na verdade parece que foi ontem que Otelo Saraiva de Carvalho ocupou o seu posto no quartel da Pontinha, que Salgueiro Maia marchou sobre Lisboa e que todos os militares envolvidos na revolta dos capitães responderam ao som da canção de José Afonso.
Passadas quatro décadas da liberdade de abril, como é viver em Portugal! Decorrido todo esse tempo sobre o processo de transformação social que visou melhorar as condições de vida dos mais desfavorecidos, a pobreza persiste em todas as regiões de Portugal. Vivemos tempos em que as pessoas perdem autoestima, adquirindo comportamentos de relaxo para consigo próprias. Este quotidiano não só espelha o abismo que existe entre ricos e pobres, mas também demonstra a erosão da classe média e do papel que detinha ainda há poucos anos.
Se já choca que haja tantos portugueses mal alimentados, mal alojados, mal instruídos, mal preparados profissionalmente e sem condições de vida decente, mais choca que o número desses portugueses não esteja a diminuir e que, pelo contrário, esteja a aumentar. Os meios de comunicação social têm informado, repetidamente, que os automóveis de maior valor se têm estado a vender como nunca, que as habitações de grande luxo se vendem muito mais facilmente do que os alojamentos de baixo preço, que as joias caras estão a ter uma procura muito ativa e que o exibicionismo dos ricos voltou a estar na moda. É um rosário de perversidades que ofendem a dignidade de um povo e maculam o passado de uma pátria que deveria ser o orgulho português.
Vivemos num país de desfaçatez sem pudor, em que a pessoa vale mais por aquilo que diz ser do que por aquilo que é. Um país do faz de conta, ideal para quem não tem um pingo de vergonha, onde cada indivíduo procura diferenciar-se pelo título académico ou pelos rendimentos e propriedades. Um país de subornos, de parcialidades, de ausência de ética, que encara com indiferença o desprezo de direitos essenciais, a perda da dignidade, a indigência humana. Um país de egoísmo reinante, de esbanjamento desregrado, conduzido por uma classe política assanhada de freio nos dentes num cavalgar de salteadores…
Ao longo da história, Portugal demonstrou as suas potencialidades, e se está hoje na cauda da Europa e a mendigar intervenções exteriores para sair do buraco onde se meteu, foi, e continua a ser, devido às sucessivas políticas fracassadas e à inépcia dos seus governantes. Vivendo de um passado que não volta e de um futuro que não chega, Portugal é hoje um país transformado num medonho covil de nulidades políticas.
A nossa história mostra que continuamos sempre à espera de alguém que apareça do nevoeiro e nos venha resolver aquilo que somos incapazes de solucionar. Imaginamos Aljubarrota quando pensamos com o coração, matutamos Alcácer Quibir quando pensamos com a cabeça.
Somos um povo a viver longe dos ideais que conduziram os militares aos caminhos da revolta e nem eles, nem nós, podemos assistir satisfeitos ao que se está a passar a este Portugal nascido em abril.
40 anos passaram e se são muitas as queixas e desilusões que nos ensombram a vida, uma razão existe para nos deixar com alento: a possibilidade de escrever livremente, como acabou de acontecer.