SOBRE O TEXTO DE RICARDO A MARX, DE MARX A RICARDO, SOBRE O LIVRO DE PIKETTY, SOBRE A DINÂMICA DAS DESIGUALDADES: ALGUMAS REFLEXÕES – por JÚLIO MARQUES MOTA

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Sobre o texto de Ricardo a Marxde Marx a Ricardo, sobre o livro de Piketty, sobre a dinâmica das desigualdades: algumas reflexões

21 de Maio de 2014

Parte II

(continuação)

II. A crítica à teoria dominante ou um mundo capitalista sem capital

Pois bem, uma vez que o modelo neoclássico é central no texto de Piketty e uma vez que a repartição de rendimento é central nos modelos de análise económica da nossa preferência, como o mais simples dos modelos neo-ricardianos, façamos a crítica ao modelo neoclássico e às suas teses e ilustremos de forma ainda mais evidente o papel central que assume a repartição do rendimento, como expressão, como ayant-droits, como sinónimo de luta de classes na apropriação da produção. Uma questão de poder, relembra-nos Adam Smith.

Para isso, tomemos uma pequeníssima síntese dos trabalhos de Sraffa, de Garegnani, de Arun Bose, de Ronald Meek, de Harcourt, de Ian Steedman, de Metcalfe, de Domenico Mário Nuti, de Luigi Pasinetti e de tantos outros, apresentando um modelo simplificado da teoria neo-ricardiana.

Admita-se então uma versão simples do modelo de Ricardo-Sraffa que muitas vezes utilizámos para fins de ordem pedagógica e prática. Com eles obtínhamos alguns dos resultados críticos mais relevantes explicitados no texto de referência de Sraffa e sem a exigência formal que Production of commodities by means of commodities exigia. Vejamos deles uma pequena síntese.

Considere-se então um país e dois produtos, que podem ser simultaneamente bens de consumo e bens de capital, e o sistema de preços respectivo:

(xaapa+xbapb)(1+r)+law = pa

(xabpa+xbbpb)(1+r)+lbw = pb

onde os parâmetros xij são as quantidades do bem i necessários à produção de uma unidade do bem j — por exemplo, xaa representa a quantidade do bem a que é necessária à produção de uma unidade do próprio bem a —, r é a taxa de lucro, la e lb são a quantidade de trabalho directo por unidade do bem a e do bem b respectivamente, enquanto a variável w representa o salário. Produto a produto a combinação destes valores, a combinação destes coeficientes, dos parâmetros xij e de lj, expressa a técnica com que se produz cada um dos bens. Precisamos de uma unidade de medida. Façamos como Bortkewicz, tomando um dos bens como numerário. Seja pa = 1. Temos agora três equações e quatro incógnitas, pa, pb, r e w. Impossível, o que remete para o problema da variável independente e escolhamos então w como variável independente, tomemo-la como um dado e não como uma solução dada pelo modelo. Resolvendo este modelo bem simples, obtemos uma relação entre w e r, w = w(r) e uma outra relação entre pb e r, ou seja, pb[w(r)] e as soluções são encontradas à boa maneira dos clássicos, sem qualquer referência à procura e à oferta. Matematicamente, obtemos quanto à relação entre salários e lucros:

igualdade IRepare-se que quando r = 0, temos:

igualdade II

Esta expressão dá o valor de w quando r é igual a zero e representa a situação de salário máximo e simultaneamente o produto líquido por trabalhador expresso em unidades do bem a, como veremos mais à frente.

Quanto à relação pb(r), do sistema de duas equações de preços acima indicado, que matematicamente não desenvolvemos, obtemos:

igualdade III

De igual modo quando r = 0, temos então:

igualdade IV

Esta rácio expressa a relação de troca entre os dois bens como sendo igual à relação das quantidades de trabalho necessárias à sua produção, ou seja, a relação de troca entre dois bens que só se pode verificar num mundo não capitalista, num estádio rude e primitivo da sociedade, como o exprimiu claramente Adam Smith.

Num sistema com diversos bens de capital, com salários e lucros, graficamente temos, por exemplo, a função pb(r) com a seguinte configuração:

igualdade V

Em paralelo com o sistema de preços, há um sistema de volumes ou de quantidades:

laXa+lbXb = L

Xa = xaaXa+xabXb+Ca

Xb = xbaXa+xbbXb

em que a primeira equação é a equação do pleno emprego e as outras duas expressam respectivamente a produção e as utilizações da produção do bem a e do bem b, considerando neste caso que este último bem é apenas bem de capital.

(continua)

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Para ler a Parte I deste trabalho de Júlio Marques Mota,  publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

SOBRE O TEXTO DE RICARDO A MARX, DE MARX A RICARDO, SOBRE O LIVRO DE PIKETTY, SOBRE A DINÂMICA DAS DESIGUALDADES: ALGUMAS REFLEXÕES [1] – por JÚLIO MARQUES MOTA

 

 

 

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