O seu uso da mentira como instrumento de trabalho e de sobrevivência, configurando um quadro clínico incomum, teria de ser procurado por alguém cientificamente preparado para essa investigação. Por certo, qualquer trauma de infância – alguma vez em que o uso da verdade o tenha prejudicado. Nunca consegui apurar. Já o seu encontro com Omar Khayyam fora puramente casual, segundo me contou numa das nossas conversas. As coisas ter-se-ão passado assim:
O Verão africano, fora encontrá-lo naquele Novembro de 1971 na charmosa Lourenço Marques, vestindo a pele de um engenheiro civil, credenciado pela École Nationale des Ponts et Chaussées e com o reforço de um doutoramento em Hidráulica pelo famoso MIT – Massachussets Institute of Tecnology – os diplomas eram óptimos, ele próprio os fizera com o esmero e rigor com que sempre preparava as suas missões. Levava também uma carta, esta genuína, da EDF – Électricité de France, a eléctrica do estado francês, participante no consórcio internacional – o ZAMCO – constituído para a construção da barragem de Cahora Bassa.
Apresentara-se nos escritórios do consórcio, na Avenida António Enes, actual Julius Nyerere, onde sabiam que os inspectores do consórcio iam em breve chegar. Foi instalado no Hotel Polana enquanto não chegavam os restantes, altura em que seguiriam para Tete. O hotel era soberbo e ele sentia-se feliz como há muito tempo não lhe acontecia. Era a sua primeira aventura desde que casara e estava com algum receio de ter perdido o treino. Mas não – tudo fora programado até ao mais ínfimo pormenor. Apenas sentia uma ponta de remorso, pois, excluindo a legítima e completa falsidade dos diplomas, a sua posição era legal o que o incomodava. Mas já lá iremos. Primeiro explique-se o seu encontro com o grande poeta persa.
*
Uma edição francesa de Rubayat, datada de 1924, chamara-lhe a atenção na montra de um alfarrabista indiano, uma loja estreita da então Avenida Pinheiro Chagas, que depois veio a chamar-se Avenida Eduardo Mondlane. Estava num canto da pequena montra. Diga-se que ao olhar distraidamente os livros, as gravações da encadernação, com ornatos que lhe pareceram ser art déco. tinham chamado a sua curiosidade. Entrou e o alfarrabista indiano veio detrás do balcão, bem vestido e sorridente. Aquele tuga de aspecto aristocrático e próspero era um dos raros ou prováveis clientes naquela tarde em que o calor arrastara os laurentinos para as praias. Ficou junto do europeu que avaliava o pequeno volume. O pigmento dourado estava gasto e por debaixo surgia a tela azul – esfiapada nas dobras da fina lombada.
– É um livro muito valioso, senhor – espiou as feições do europeu, mas este não pareceu tê-lo ouvido continuando a folhear lentamente as páginas do volumezinho – a encadernação está um pouco cansada, lá isso é verdade, mas o miolo está como novo e, veja, foi impresso há quase cinquenta anos… – O indiano, que utilizara a palavra técnica dos alfarrabistas – cansada – para designar encadernações em mau estado e miolo em vez de páginas interiores, como os profissionais gráficos, queria impressionar usando o jargão do metiê. E insistiu, agora em francês, pois o tipo ainda não falara. Apontara-lhe o livro e agora folheava-o como se ele ali não estivesse. Reparou no cabelo claro, nos olhos azuis. Talvez não fosse tuga, talvez fosse francês. Pelo menos estava a ler avidamente:
– La couverture est légèrement passée, monsieur, mais les pages intérieures sont très acceptables, à mon avis, bien sûr.
Mas não pareceu impressionar o tuga (ou o franciú) que folheava lentamente as páginas impressas em papel encorpado – um couché mate de 120 gramas – e se detinha agora na análise das ilustrações. Depois começou a ler os poemas agrupados em estrofes ou quatrains numeradas. O monhé captou, na penumbra reinante no interior da loja, o brilho crescente que a leitura ia acendendo nos olhos do cliente, e logo decidiu duplicar o preço que tinha pensado cobrar pelo pequeno volume encadernado no qual ninguém reparara durante meses e meses a fio:
Finalmente falou, passou o polegar direito sobre as gravações:
– Art déco, não é?
– Art nouveau, senhor – e desenvolveu – A edição é de 1924. Mesmo que a encadernação não seja original, só a partir 1925 apareceu a art déco e só muito mais tarde se generalizou… Estava lançado, disposto a provar ao tuga – sempre era um tuga! – que não era nenhum ignorante. Mas o sujeito nem pareceu ouvi-lo:
– Quanto?
Começou a ficar irritado com aquele cliente que, apesar de exibir os seus dotes profissionais e intelectuais, procedia como se ele não existisse. «Por seres emproado, não levas o livro por menos de quatrocentos escudos», pensou, e quando, sempre com os olhos colados ao livro, o homem lhe perguntou segunda vez quanto custava, disse.
– Quinhentos, senhor… É caro, mas não posso fazer mais barato… a verdade é que… O português meteu o livro no bolso da balalaica e de uma carteira de cabedal tirou uma a uma as notas de cem – «devia ter pedido mil» – o indiano recriminava-se. «Sou um péssimo negociante. O meu pai tinha razão», pensou. O português saiu e o indiano foi ocupar o espaço da montra que Khayyam deixara vazio – Enciclopedia de la Mitologia, uma primeira edição da obra de Esteban Molist Pol – encadernação em bom estado. Papel couché calandrado e de elevada gramagem…
O europeu voltara atrás. Quereria outro livro? Mas depressa perdeu a esperança. A voz do tuga era profunda e ameaçadora, o indiano encolheu-se dentro do fato de linho. O tuga aproximou-se e curvou-se sobre ele, olhos franzidos e indicador direito batendo-lhe na testa, como se a quisesse perfurar, sublinhando cada palavra:
– Se da próxima vez me roubares como hoje, obrigo-te a comer aquela edição da Britannica, ladrãozeco. Cem escudos estava muito bem e foi o que aqui, no anterrosto, escreveste a lápis. Mas eu hoje estou bem disposto …
Quando o tuga saiu, nos minutos que se seguiram o alfarrabista foi sacudido por tremores de pânico. Olhou os 52 volumes da Encyclopædia Britannica, edição de 1950, encadernações em skivertex… O pai sempre lhe dissera – «És um cobarde». E tinha razão.
Cá fora, o homem acalmou. Não gostava de trafulhas, davam má reputação aos mentirosos. Respirou fundo. Sentiu o ar perfumado das acácias espalhadas pela cidade bater-lhe no rosto trazido por um vento que soprava vindo da baía.
Enfiou-se o resto da tarde na pastelaria Scala. Abriu a capa – Rubayat de Omar Khayyam, traduits du persan. Traduction de Franz Toussaint. Illustrée et décorée par Paul Zenker. Paris : L’édition d’art H. Piazza, 1924. Collection Ex Oriente lux…
Devorou as 170 rubai quase sem interrupção. Quem era aquele poeta, aquele fabuloso filósofo? Teve de se contentar com a informação que Franz Toussaint dava no seu prefácio. Estava maravilhado com esta voz que, há mais de oitocentos anos dizia:
Contente-toi de savoir que tout est mystère :la création du monde et la tienne,la destinée du monde et la tienne.Souris à ces mystères comme à un danger que tu mépriserais. »
Ne crois pas que tu sauras quelque chosequand tu auras franchi la porte de la Mort.Paix à l’homme dans le noir silence de l’Au-Delà ! »
Paz ao homem no negro silêncio do Além!.
Tudo o que era importante para a vida dos homens, estava contido naquelas 170 rubai. Sem as metáforas obscuras, por vezes sinistras, dos livros sagrados das três religiões de Abraão, quanta sabedoria se concentrava ali naquele vade-mécum para navegar a vida! Saiu para a frescura da tarde, quase noite. Meteu-se a caminho na direcção da Baixa. Desceu a Pinheiro Chagas e cortou na Augusto Castilho, actual Vladimir Lenine. Destino – Rua Araújo.
Samarcanda para quem tivesse imaginação e não se prendesse com pormenores.