CARTA DE LISBOA – Praxemos, até que o corpo lhes doa – por Pedro Godinho

lisboa

 

 

Passada a espuma dos títulos de ocasião, mais interessados no pregão que na questão, seria mais que tempo de falar sobre o assunto, em lugar de o esquecer até ao próximo drama.

A praxe tem tudo de errado:

– Não é integração

– Não é tradição

– Não é legítima

– Não é livre

– Não é inocente

  • Não é integração

Porque não integra o que seria para integrar. Não há nada nas actividades da praxe que ajude os estudantes a conhecer o seu curso, o seu instituto ou faculdade, nos seus estudos ou percurso académico. Tão pouco os seus colegas, porque, todos, sem nome são simples parte do rebanho. E para integrar não é preciso atormentar.

Mesmo a afirmação como corpo social distinto é feita pela negativa e mais vociferada que realizada (os trajes e a gritaria de rua para que os outros saibam que eles chegaram à universidade e, superiores, vão ser doutores não tem por base nenhuma realização, nenhum feito ou qualidade, apenas estar lá). E esconde a ausência de unidade ou fraternidade, mínima que seja, substituídas pelo vale tudo e o salve-se quem puder. Paradoxalmente, a par com a submissão.

  • Não é tradição

Por mais voltas que lhe queiram dar, não faz nem fez parte da história e vida dos estudantes – sobretudo fora de Coimbra que se queria única e, por isso, se arrogava um estatuto à parte – ao longo dos tempos, nunca teve unidade e continuidade.

É uma criação recente, travestida de tradicional, com origens suspeitas em jotas partidárias e lutas de poder e em comissões de festas e lutas de pote.

De qualquer modo, a tradição não é razão, há-as boas e más. Tradições há que são a continuação do inaceitável e merecem ser extintas.

  • Não é legítima

Ninguém votou ou aprovou as pretensas regras – escondidas, reservadas, alteráveis a bel-prazer – porque se rege; nem tão pouco escolheu ou elegeu organizadores e praxantes, que se auto-designam e auto-atribuem poderes ilegítimos, sem controlo e sem limites, e não respondem por nada nem perante ninguém.

Resulta da apropriação por alguns sem que haja mecanismos ou espaço para a oposição ou alternativa. Rejeita mecanismos de responsabilidade ou responsabilização.

  • Não é livre

Não deixa à livre escolha de cada um ver-se envolvido, ser ou não praxado. Bem podem vir dizer que existe a opção de se declarar fora da praxe quando a realidade, por mais conhecida, é que vai tudo a eito e quem resiste é coagido quando não mesmo forçado, quantas vezes com violência.

Também não há qualquer liberdade quanto ao tipo de actividades que se aceitam ou para interromper ou desistir das mesmas. E que curiosa é a atracção pela subjugação e humilhação dos praxados, pela afirmação do poder e da força sobre os outros, pela bestialização.

  • Não é inocente

Não se trata duma brincadeira inocente e sem consequências. É contabilizar as agressões e os actos violentos – físicos ou psicológicos – e os seus efeitos – físicos ou psicológicos – os traumas, as lesões, os feridos e, até, os mortos.

Àqueles que dizem que a praxe não é isto mas outra coisa pergunta-se então porque não o é de facto, porque não a fazem diferente?

E as associações de estudantes e as comissões de praxe onde estão e o que dizem quando as coisas correm mal. Passaram todas à clandestinidade?

E os reitores, directores e professores como se alheiam e não assumem a responsabilidade por garantir uma vivência universitária sã, livre e democrática?

E os poderes públicos que fecham os olhos e se fazem desinteressados e impotentes?

A coberto da praxe é aceite o que, noutra circunstância, é crime.

 

E Lisboa tão melhor sem a praxe nas ruas.

 

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