TRÊS CONTOS BRASILEIROS – RACHEL GUTIÉRREZ NA SPA V

Cabe hoje a vez do texto de Clarice Lispector, também dividido em duas partes.

clarice lispector

“O conto Amor é de Clarice Lispector, (1920- 1977) a brasileira nascida por acaso na Ucrânia, em Chechelnik , que se naturalizou aos 19 anos e que além disso,  graças a uma iniciativa da nossa  ALACL, tornou-se  cidadã carioca post mortem.

O conflito dramático do conto Amor é desencadeado também por um acaso, um fato aparentemente banal. A protagonista chama-se Ana, é uma mulher de classe média, que leva uma vida simples e comum.

Começa assim: Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.

Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais complexos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara, lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. (Vemos logo um quadro famoso). E a metáfora seguinte é: Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas.

Mas, de repente, a primeira frase do terceiro parágrafo nos dá um sinal, como os três toques solenes no teatro:

Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto, sentia-se mais sólida do que nunca (…). Pouco adiante diz: Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado.

A descrição da vida de Ana continua até que perto do Jardim Botânico, numa parada do bonde, ela olha para um homem parado no ponto (na paragem!). Era um cego, por isso talvez mais parado do que as outras pessoas, mas havia algo diferente, o cego estava mastigando chicles. E aquilo a perturbou de tal maneira que ela não pôde parar de olhar para o cego, mesmo quando o bonde arrancou, jogando-a para trás, o que a fez deixar cair o saco com as compras, que continham ovos. Ela deu um grito, houve um reboliço no bonde, o bonde parou, mas depois deu uma arrancada e o cego que ela ainda viu atravessando a rua ficou para trás. Mas Clarice diz: O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava. E adiante: Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego. (…) Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.

Distraída, salta do bonde fora do seu ponto e tem a sensação de estar perdida. Entra, então,  no Jardim Botânico e faz aí uma experiência muito semelhante à do personagem de Sartre, no livro A Náusea. Só que o que desencadeia a náusea de Ana não é a contingência das coisas, mas a injustiça. Tudo provocado pela visão do cego mastigando chicles.  Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas.

O delírio continua, dura ainda algum tempo, mas ela consegue voltar para casa… e sua alma batia-lhe no peito – o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. (…)

Apesar de ter chegado em casa, no seu porto seguro, sentia a vida periclitante: E por um instante, a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver.  E essa Ana,  que nem sequer é propriamente  privilegiada, pensou horrorizada  que pertencia à parte forte do mundo e se perguntou sobre que nome deveria dar à sua misericórdia violenta.

Pouco a pouco, porém, a presença dos filhos, dos parentes convidados para jantar, suas obrigações de mãe e dona-de-casa vão afastando o que o cego desencadeara; pouco a pouco, afasta-se e vai se apagando a vertigem da bondade.

E depois de ter lido esse conto muitas vezes, durante uma palestra do meu amigo José Miguel Wisnik, tive um in-sight  que nem mesmo ele, que é professor de Literatura Brasileira, tinha tido. Foi quando Clarice descreve o gesto carinhoso do marido, chegada a hora de dormir:

Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.

Posso estar enganada, mas o pormenor do sem olhar para trás me fez pensar em Orfeu! “

Para visualizar as partes anteriores da palestra ver:

http://aviagemdosargonautas.net/2014/06/02/tres-contos-brasileiros-rachel-gutierrez-na-spa/

http://aviagemdosargonautas.net/2014/06/03/tres-contos-brasileiros-rachel-gutierrez-na-spa-ii/

http://aviagemdosargonautas.net/2014/06/04/tres-contos-brasileiros-rachel-gutierrez-na-spa-iii/

http://aviagemdosargonautas.net/2014/06/05/tres-contos-brasileiros-rachel-gutierrez-na-spa-iv/

 

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