CRÓNICAS E CONTOS – IMPRESSÕES DE UMA VIAGEM AOS ESTADOS UNIDOS EM 1986 – 6 – por José Brandão

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Abundantes recursos naturais, acompanhados de monumen­tais fluxos emigratórios provenientes do excesso de população do Velho Mundo, iam transformando toda a sociedade americana.

As grandes migrações internas de leste para oeste e de sul para norte não impediam as cidades de crescer. A esmagadora maioria dos emigrantes preferia instalar-se nos grandes centros urbanos, abalando a consciência americana com a passagem da visão agrá­ria para a visão citadina.

A Guerra Civil de 1861-1865, na qual onze Estados sulistas tentam separar-se da União e formar uma confederação indepen­dente, seria em boa parte um reflexo do conflito entre uma socie­dade agrária tradicional e uma sociedade industrial dinâmica e prometedora.

Quando, em 9 de Abril de 1865, o general confederado Robert Lee se rende ao general Grant, era o Norte industrializado que der­rotava o Sul agrícola.

Com mais de 600 000 mortos, esta guerra viria a ser a mais onerosa da história americana. Custara 359 000 ao Norte e 258 000 à Confederação.

A guerra pela independência sulista inclui combates tão gran­des e devastadores como os de Napoleão. O Sul fora quase todo devastado: plantações destruídas, linhas férreas arrancadas, cida­des em ruínas. Pela primeira vez, utilizam-se o caminho-de-ferro e as trincheiras como meio de combate. Aeróstatos servem para efetuar reconhecimentos. Modernos canhões raiados de aço subs­tituem os obsoletos canhões lisos de bronze. Já não eram carrega­dos pela boca, mas pela culatra, situada na parte posterior da pe­ça. As espingardas de pederneira deram lugar às de culatra móvel, onde podia introduzir-se uma bala. Todas estas inovações ajuda­vam a aumentar o alcance e a eficácia das armas utilizadas.

Durante esta guerra, verificaram-se 2000 choques armados, dos quais 150 foram verdadeiras batalhas, houve vários combates navais e tomaram parte mais de dois milhões e meio de soldados. (1 556 687 da União e 1 082 119 confederados).

A Guerra Civil americana é considerada a primeira das guer­ras totais. Há mesmo quem veja nela a prefiguração da primeira guerra mundial.

O presidente Abraham Lincoln acabaria por vir a ser assassinado no rescaldo desta tremenda confrontação interna. Contudo, a nação encontraria não apenas a sua unidade, como determinaria a direção do desenvolvimento social e económico do povo ameri­cano. A guerra destruirá o poder de «Sua Majestade, o Algodão». Como é referenciado, «o colapso do capitalismo de latifúndio assi­nalou a ascensão do capitalismo industrial». Assente numa força migratória que não parava de fluir e na audácia de um povo prodi­gioso, a industrialização americana iria revelar-se, a todos os títu­los, imbatível.

Paralelamente ao aparecimento das primeiras relações de po­der assentes nos princípios que norteiam a lógica do capitalismo industrial, surgem os esboços da contestação operária organizada conforme era possível.

Pode fazer-se remontar a aparição de grupos operários ameri­canos a 1830, em Nova Iorque e Filadélfia. Todavia, já nos finais do século XVIII pode localizar-se nos Estados Unidos algumas greves entre os tipógrafos e carpinteiros de Filadélfia.

Parte, porém, dos impressores de Nova Iorque e dos alfaiates de Baltimore a primeira iniciativa de formar uma organização sin­dical em terras da América do Norte.

Será também um alfaiate de Filadélfia quem, por volta de 1860, funda a sociedade secreta denominada Cavaleiros do Traba­lho, destinada a melhorar a situação dos assalariados.

É notável o esforço desta espécie de franco-maçonaria na sua tentativa de construir uma organização trabalhista, a nível nacio­nal, que englobe todo o género de trabalhadores.

Depois de um período em que o movimento vegeta nas suas contradições, em 1878, o mecânico Powder, eleito grão-mestre, faz abolir o carácter secreto da organização e alarga o programa para o âmbito das lutas grevistas pela conquista do dia de oito horas de trabalho.

Faltando-lhes a disciplina indispensável para conseguirem ven­cer pela astúcia os patrões que utilizavam toda a espécie de expe­dientes, atingindo proporções demasiado grandes e de difícil con­trolo, incapazes de ultrapassar o «complexo» do drama do 1º de Maio de Chicago, os Knights of Labour acabariam por ser, em 1892, uma organização de influência reduzida.

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