CONTOS & CRÓNICAS – “Torres Vedras- 1888” – por António sales

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            «Luz! Luz!, – assim bradava um pobre homem pelas 11 horas da noite (…)pelarua da Corredora».[1] Andava aos tropeções perdido entre obstáculos comuns, lixo e raros candeeiros a petróleo. Espécie de explorador da noite torriense que poucos se atreviam a desafiar salvo, talvez, pela lua cheia. Contudo, ó almas do progresso, quando aquela aparecia, ainda que as nuvens a escondessem, os candeeiros ficavam apagados por razões de poupança.[2]

            Luz! Enfim luz! Terá gritado de alegria o mesmo cidadão em Janeiro de 1888 quando a iluminação a petróleo foi substituída pelo gás de nafta refinada. Ficava menos misteriosa a solidão das ruas e o silêncio das noites cortado pelos passos isolados dos transeuntes ou o movimento de pessoas no interior dos estabelecimentos, sombras chinesas recortadas pelos bicos do acetileno. Luz, indispensável luz!, pedia-se três anos depois quando a administração pública decidia encerrar a Escola Secundária porque tinha poucos alunos e muita despesa. Opõe-se o presidente da Câmara à vereação e vinte outros cidadãos, opõe-se o governo que não atende a pretensão. Mas os administradores locais são categóricos pois ao acabarem com as dotações ditam-lhe o encerramento. Faltava-lhes a luz da instrução, sobrava-lhes a da mediocridade. Eram uns toscos que noutro contexto e noutra época tiveram antecessores nos “homens-bons”, também eles por razões económicas pediram a D. João III que mandasse a Universidade para qualquer outra localidade mas deixasse Torres Vedras na paz dos sonâmbulos.

            Luz, desejava um grupo de torrienses apaixonado pelo teatro e pela sua terra ao assumir a iniciativa e a responsabilidade de pôr a concurso a «arrematação por carta fechada da primeira tarefa para a construcção» de um teatro segundo anunciava o jornal A Semana. Era a luz do progresso e da modernidade que procuravam Justino da Silva Freire, Francisco Nunes de Carvalho e João Ferreira Guimarães, eleitos directores da empresa em assembleia-geral.Imaginavam uma sala de espectáculos que honrasse a vila: ampla, moderna, acolhedora, com condições para receber grandes companhias. Luz invisível pois não iluminando as escuras ruas iluminava os corações dos mentores que no «logar de Runa, no meu escriptorio, perante mim, Izidro Barata dos Santos Martins, tabellião publico de notas» realizavam a escritura da sociedade anónima «Empresa do Theatro de Torres Vedras» aos «3 dias do mês de Outubro do anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1890».

            A sociedade foi constituída com um capital de dois milhões e quinhentos mil réis e a primeira tarefa arrematada absorveu praticamente a sua totalidade. Segundo os estatutos o objectivo era «construir e explorar um theatro chalet, n’esta villa». O capital social encontrava-se dividido em acções de cinco mil réis cada, todas nominativas, podendo ser pagas em prestações o que dá uma ideia da vontade em facilitar e integrar o máximo de pessoas. Não se tratava certamente de uma empresa que visasse o lucro pois todos os cargos, mesmo dos três directores executivos, eram exercidos gratuitamente e os lucros líquidos iam em primeiro lugar para o «fundo de reserva, deterioração da mobília, cenário, guarda-roupa, etc.» e só depois para dividendos aos accionistas. O grupo de fundadores anexo à escritura incluía 159 indivíduos entre os quais duas senhoras, Adelaide Borja e Maria da Natividade. Os três maiores subscritores foram Manuel F. Marques (90$000), José G. Dias Neiva(85$000), Francisco dos Santos Bernardes (75$000). Quarenta e sete subscreveram a importância mínima de cinco mil réis.

            No semanário que ao tempo existia não consta qualquer comemoração gastronómica do acto nem outra que dele dê memória, mas também é verdade que os jornais locais passavam ao lado da continuidade de notícias importantes. Fica-se, assim, desconhecendo quando e como começou a obra, com que materiais e ritmo, embora possamos imaginar o Largo D. Carlos I na azáfama de cargas e descargas, homens lançados ao trabalho assistido pelos habituais mirones cujos comentários denegriam ou louvavam. Por ali encontramos o burguês e o saloio irmanados no papel de basbaques de entusiasmo céptico até porque um teatro, mesmo de capacidade reduzida, era negócio mais arriscado que uma praça de touros. Atribulado negócio! De facto, logo em Novembro de 1891 lançava-se mão a uma nova emissão de acções «indispensável para o acabamento das obras no edifício, pequena mobília, de modo a que possa ter uma aplicação imediata». Passado o entusiasmo inicial a obra começou a murchar por falta de financiamento. Provavelmente o que faltava para conclusão era um sopro, um empurrão final, motivo de desespero patente no apelo aos accionistas que poderiam recolher dali «uma utilidade recreativa quando o edifício possa tornar-se um ponto de reunião, em vez de uma paródia às obras de Santa Engrácia». A Semana, de 26 de Novembro de 1891, dá um retrato das carências da vila em matéria de cultura e lazer e do alheamento a que as coisas haviam chegado: «Torres Vedras precisa de uma sala de recepção, leitura, jogos, musica, espectáculos, (…) todos os commerciantes d’esta villa são interessados em que os forasteiros encontrem aqui, na época balnear, uns certos attractivos que sirvam de passatempo. (…) esperamos que as pessoas remediadas d’esta villa, e muito especialmente os srs. commerciantes, subscrevam com algum, embora diminuto capital, para o remate do edifício cuja falta ainda no ano passado se tornaria bem notada por quem reparasse que os banhistas passavam as longas horas do dia sentados nos bancos do largo da Graça, ou nos degraus das escadas do Hotel». Ao chamamento a vila disse nada e a Empresa do Theatro de Torres Vedras foi adiando a sua agonia à luz de uma esperança que, exangue, apenas correspondia a uma vela em extinção.

            Assim continuaram solitárias as gambiarras a gás acetileno destacando maquilhagens que nos palcos do Casino e do Grémio fluíam no rio da imaginação. O tempo renascia configurando saraus musicais com orquestra de amadores de catorze figuras sob a regência do maestro Lagrange. Todos detinham a luz da paixão que a imprensa dá conta ao registar nas suas páginas cerca de trinta e seis elementos em quase permanente actividade. O que pediam estes fazedores de sonhos era uma luz que permitisse iluminar os espíritos para além da realidade.

            Essa luz foi projectada pelo aparecimento do Grémio Artístico Torreense com um perfil de espectáculos onde tinham triunfado Leopoldina Ferreira, Henriqueta Lopes e António Trindade em tempos anteriores. Abre-se a cena sobre Clotilde Guimarães uma das amadoras de maior brilhantismo nos anos oitenta do século XIX. Descem-se gambiarras para destacar a memória de José Joaquim Miranda, amador de todos os recintos onde cheirasse a teatro e um espírito de infatigável iniciativa, entusiasta da «Empresa de Theatro» e homem chave do Grémio Artístico que passou por sua proposta de “Torreense” a “Comercial”em homenagem aos comerciantes da vila. Outro Miranda, o Francisco, um caso especial de «talento que por este meio acanhado se vai consumindo», no dizer da Folha de Torres Vedras, era espírito multifacetado de amador, cenógrafo e artista plástico que decorou o novo salão do Grémio (1895) criando o pano de boca num tempo em que os panos de boca eram o luxo figurativo de qualquer teatro que se prezasse. Luz de petróleo, de gás, de velas, de um qualquer elemento que destaque as múltiplas personagens interpretadas por António Augusto Cabral, Júlia Paulo, António Barata, Beatriz de Sousa, Francisco Cabral, João Ferreira Guimarães Júnior que dirigiu estes homens e mulheres. Geração dos derradeiros anos do século XIX que deu ao teatro amador o melhor de si demarcando-se de um tempo pequenino para glória da vontade e da juventude.

[1] A Voz de Torres Vedras – 9 de Abril de 1897.

[2] Sobre a iluminação pública em Torres Vedras leia-se o excelente suplemento que a ADDPCTV publicou em 4 de Dezembro de 1987 no jornal “Badaladas”, sob o título Há 75 Anos a Inauguração da Luz Eléctrica, em particular o artigo de Venerando António, Para a História da Iluminação Pública em Torres Vedras, no qual me inspirei para abordar este tema.

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