Em memória de Vasco Graça Moura (1942-2014) – 1 – por Álvaro José Ferreira

Nota prévia:

Para ouvir os poemas (cantados) de Vasco Graça Moura, há que aceder à páginaImagem2

http://nossaradio.blogspot.com/2014/05/em-memoria-de-vasco-graca-moura.html

 e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

 
Fiz uma longa aprendizagem,
muitas rasuras e rascunhos,
muitos registos de passagem,
muitos borrões e gatafunhos
são outros tantos testemunhos
do meu mester, das minhas lavras,
uso a cabeça e às vezes punhos
de renda ou não. Ah, as palavras!

O Óscar Lopes e o David
deram-me as regras do jardim:
vinho fazer da minha vide,
nunca ficar assim-assim,
montar em pêlo e em selim.
Das teorias me dispenso:
pensaram tudo antes de mim
o E.P.C. e o E. Lourenço.

Vasco Graça Moura (in “Testamento de VGM”, Porto: Edições Asa, 2001 – pág. 20)

Um intelectual com espírito renascentista

O que mais impressionava em Vasco Graça Moura era essa espécie de energia intelectual renascentista, que o levava a ter uma intervenção cívica constante, uma actividade política e uma vida profissional intensas, e ainda assim arranjar tempo para criar uma obra literária (traduções incluídas) de uma extensão, diversidade e qualidade francamente invulgares.

Poeta e tradutor de grandes poetas, romancista, ensaísta, dramaturgo, cronista, antologiador, historiador honoris causa, advogado, político, gestor cultural – e podia acrescentar-se várias outras actividades –, Graça Moura foi um improvável espírito renascentista encarnado neste presente um pouco caótico de mais para o seu assumido gosto pela ordem e pela disciplina. Mesmo que nos fiquemos pela sua obra literária em sentido lato, seria talvez preciso recuarmos a um Jorge de Sena para encontrarmos um antecessor convincente do seu labor criativo e intelectual.

Autor de quase trinta livros de poemas, de Modo Mudando (1963) a O Caderno da Casa das Nuvens (2010), foi ainda um tradutor épico, que parecia ter particular prazer em impor-se desafios colossais, como o de verter em português a Divina Comédia e a Vita Nuova de Dante, ou as Rimas e Triunfos de Petrarca, ou os Testamentos de François Villon, ou ainda a integral dos Sonetos de Shakespeare.

Escolhas que certamente coincidem com as suas paixões pessoais de leitor, mas às quais também não terá sido alheio um forte sentido de missão: Graça Moura empenhou-se, como tradutor, em enriquecer o património literário disponível em língua portuguesa, como se esforçou, enquanto responsável da Imprensa Nacional/Casa da Moeda (IN/CM), que dirigiu ao longo da década de 1980, por combater o progressivo esquecimento dos grandes autores portugueses do passado.

Traduzindo directamente do espanhol, do francês, do italiano, do inglês e do alemão, traduziu, além dos autores já referidos, extensas escolhas de poetas como Pierre Ronsard, Rainer Maria Rilke, Gottfried Benn, Walter Benjamin, Federico García Lorca, Jaime Sabines, H. M. Enzensberger ou Seamus Heaney, e ofereceu-nos ainda versões portuguesas de algumas das peças mais importantes dos três grandes dramaturgos franceses do século XVII: Corneille, Molière e Racine.

É por estas duas dimensões, a de poeta e a de tradutor, que é mais reconhecido, e foram elas que lhe valeram as principais distinções atribuídas à sua obra, a começar pelo Prémio Pessoa, em 1995, e incluindo a criteriosa Coroa de Ouro do Festival de Struga, na Macedónia, que recebeu em 2004 – entre os vencedores das três edições anteriores contam-se dois prémios Nobel: Tomas Tranströmer e Seamus Heaney – e o Prémio Nacional de Tradução atribuído em 2007 pelo Ministério da Cultura italiano.Mas outras dimensões da obra de Graça Moura, como a ficção ou o ensaísmo, estão longe de ser negligenciáveis.

Se títulos como Luís de Camões, Alguns Desafios (1980), Camões e a Divina Proporção (1985) ou Os Penhascos e a Serpente (1987) lhe dão um lugar de indiscutível relevo entre os camonistas contemporâneos, os seus ensaios abarcam temas tão variados como os Descobrimentos, a pintura portuguesa da Renascença, a construção da identidade cultural europeia, o fado, a pintura de José Rodrigues ou Graça Morais, a literatura de David Mourão-Ferreira ou Vitorino Nemésio, para citar apenas uma breve amostra. À qual não se pode deixar de somar o tópico do Acordo Ortográfico, que considerava um crime de lesa-língua, e ao qual dedicou, em 2008, o ensaio Acordo Ortográfico: a Perspectiva do Desastre.

Tentar travar a sua aplicação tornou-se o grande combate cívico dos seus últimos anos.Como ficcionista estreou-se relativamente tarde, em 1987, com Quatro Últimas Canções, um romance no qual a música erudita, uma das suas paixões – a par da pintura, que chegou a praticar –, ocupa um lugar fundamental, contaminando a própria estrutura narrativa. Talvez por ter surgido tardiamente, a ficção de Graça Moura foi sempre vista como um corpo secundário na sua obra, juízo não isento de alguma injustiça, quer pela qualidade de algumas obras, quer pela extensão que acabou por atingir, com mais de uma dúzia de livros, incluindo romances, novelas e volumes de contos.

Para se dar uma ideia mais completa da bibliografia de Graça Moura, que ultrapassa bem uma centena de títulos, seria ainda necessário falar do dramaturgo ocasional – autor de Ronda dos Meninos Expostos (1987) e da sátira Auto de Mofino Mendes (1994) –, do truculento cronista cujos textos estão reunidos em volumes como Papéis de Jornal e Outros Materiais (1997) ou Contra Bernardo Soares e Outras Observações (1999), ou ainda do diarista de Circunstâncias Vividas (1995).Uma produção que se torna ainda mais espantosa se tivermos em conta que Graça Moura começou cedo a assumir cargos públicos de elevada responsabilidade, tendo-os desempenhado com reconhecidos zelo e competência. A seguir ao 25 de Abril de 1974, foi duas vezes secretário de Estado: da Segurança Social (no IV Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves) e dos Retornados (no VI Governo Provisório, chefiado por Pinheiro de Azevedo). Militante do então PPD, desfiliou-se logo em 1975, mas manteve uma fidelidade ao partido que só em circunstâncias excepcionais quebrou, como sucederia nas eleições presidenciais de 1980, quando apoiou Ramalho Eanes contra Soares Carneiro.

Nunca escondeu a sua particular admiração por Cavaco Silva, quer como primeiro-ministro, quer como presidente da República, a ponto de ter incluído uma balada do bom cavaquista nessa espécie de auto-retrato poético a que chamou, na linha de Villon, Testamento de VGM (2001).Vasco Graça Moura nasceu no Porto, a 3 de Janeiro de 1942, em casa dos seus avós maternos, na Foz do Douro. Fez os dois primeiros anos da primária em casa, estudando com uma professora inglesa, e frequentou depois o Colégio Brotero, onde se manteve até ao final do secundário.Matriculou-se depois em Direito, na Universidade de Lisboa, e é ainda estudante quando publica, em 1963, numa edição de autor, o seu livro de estreia, Modo Mudando.

Nos últimos anos da licenciatura, usufruiu do estatuto de aluno voluntário porque arranjara emprego numa conserveira de Matosinhos. Era correspondente de línguas estrangeiras, e não deixa de ter graça essa afinidade biográfica com Fernando Pessoa, que nunca será capaz de admirar e a quem, por (significativa) piada, chamará um dia “o poeta Aleixo da razão”.Concluída a licenciatura em 1966, dedicou-se à advocacia, que teve de interromper para cumprir o serviço militar obrigatório. Passou trinta e nove meses na tropa, numa altura em que era já casado e pai de dois filhos. Divorciou-se da sua primeira mulher, Maria Fernanda Sá Dantas, no início dos anos 80, e voltou a casar-se mais duas vezes, primeiro com a ensaísta Clara Crabbé Rocha [filha de Miguel Torga e de Andrée Crabbé Rocha], em 1985, e depois com Maria do Rosário Sousa Machado, em 1987, com quem teve mais duas filhas, enternecidamente referidas em vários poemas dos seus últimos livros.Embora tenha editado a expensas próprias três livros de poemas ainda antes do 25 de Abril de 1974, é O Mês de Dezembro e Outros Poemas, publicado em 1976 pela Inova, que leva a sua poesia a um público mais vasto.

Ao mesmo tempo que ia exercendo intermitentemente a advocacia, foi director de programas da RTP-2 [1978], director da IN/CM de 1979 a 1989, comissário de Portugal para a Exposição Universal de Sevilha [1988-1992] e comissário-geral da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, funções que exerceu de 1988 até ao final de 1995, quando pôs o lugar à disposição do recém-empossado primeiro-ministro António Guterres, que o substituiu por António Hespanha. Integrou ainda o conselho de opinião da RTP, o conselho directivo da Fundação Luso-Americana, o conselho-geral do Instituto Camões e dirigiu o Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura da Fundação Gulbenkian [sucedendo a Vergílio Ferreira, entre 1996 e 1999].Eleito para o Parlamento Europeu nas listas do PSD em 1999, cumpriu dois mandatos como eurodeputado.

Em Janeiro de 2012 foi nomeado presidente do Centro Cultural de Belém, uma decisão polémica e que levou à demissão do conselho directivo, em protesto contra as razões invocadas para a não recondução de António Mega Ferreira. Mas entre os que defenderam a escolha, elogiando as qualidades de Graça Moura para o cargo, contou-se a ex-ministra da Cultura Isabel Pires de Lima, que nomeara o seu antecessor.Na homenagem de Janeiro [2014] na Fundação Gulbenkian, Artur Santos Silva, presidente da instituição, salientou o papel central do poeta na vida cultural portuguesa dos últimos quarenta anos e acrescentou que Graça Moura “é digno de partilhar a galeria dos grandes vultos da Renascença”.

E o ensaísta Eduardo Lourenço, organizador do colóquio, falou do “homem de acção” e do “humanista” que sempre se quis ver implicado na vida do seu país. “O mundo de Vasco é o mundo todo com o seu mistério e o seu enigma insondáveis”, disse Lourenço. “É um teatro-mundo de configuração barroca e iluminista” em que o autor, “consciente de que vivemos no Ocidente uma espécie de noite de Deus”, continua a ser um europeísta convicto, e que nunca lê Portugal numa perspectiva complexada em relação à Europa. (artigo de Luís Miguel Queirós, in jornal “Público”, 28-Abr-2014)

Contam-se em mais de quarenta os poemas de Vasco Graça Moura que, até à data da morte, foram transpostos para canção e gravados em disco, alguns por mais do que um intérprete. Pois, por incrível que pareça, nem um – um sequer – desses espécimes figura na ‘playlist’ da Antena 1! O falecimento do insigne poeta e tradutor bem podia ter sido o pretexto para se colmatar a lacuna, mas decorrido um mês sobre a triste notícia, constata-se que está «tudo como dantes, quartel-general em Abrantes». Os ouvintes/pagantes da contribuição do audiovisual perguntam: é desta forma negligente, desleixada e preguiçosa que a rádio pública cumpre a sua obrigação de divulgar os autores que mais validamente contribuíram para o nosso património poético-musical?Não podendo contemporizar com tão condenável atitude, o blogue “A Nossa Rádio” apresenta uma mão-cheia de poemas cantados que têm a assinatura de Vasco Graça Moura, ora como autor (a maioria), ora como adaptador e tradutor.

Antes, e em complemento ao artigo acima transcrito, faculta-se a audição de duas edições do programa “Agora… Acontece!” em que Carlos Pinto Coelho esteve à conversa com Vasco Graça Moura e ainda o documentário radiofónico sobre o autor e cidadão realizado por Ana Aranha para a série “Vidas Que Contam”.

Agora… Acontece!” N.º 262,

de 16-Abr-2004Vasco Graça Moura entrevistado por Carlos Pinto Coelho, a respeito da sua actividade de deputado no Parlamento Europeu [a partir de 27′:58″]

Agora… Acontece!” N.º 286,

de 02-Ago-2004Vasco Graça Moura entrevistado por Carlos Pinto Coelho, a propósito da sua tradução d’ “As Rimas”, de Francesco Petrarca (Bertrand Editora, 2003) [a partir de 05′:58″]

Vidas Que Contam“, de 25-Jun-2013

http://www.rtp.pt/play/p328/e121512/vidas-que-contam

Documentário radiofónico sobre Vasco Graça Moura; autoria e realização de Ana Aranha

1 Comment

  1. * Partiu…Deixou um património cultural digno de ser inesquecível -Maria *

    No dia 9 de Junho de 2014 às 14:00, A Viagem dos Argonautas escreveu:

    > carlosloures posted: “Nota prévia: Para ouvir os poemas (cantados) de > Vasco Graça Moura, há que aceder à página > http://nossaradio.blogspot.com/2014/05/em-memoria-de-vasco-graca-moura.html > e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”. Fiz uma longa aprendizagem, > muita”

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