AS ELEIÇÕES EUROPEIAS, A POLÍTICA E A DESIGUALDADE, de ZYGMUNT BAUMAN

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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As eleições europeias, a política e a desigualdade

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Zygmunt Bauman, Social Europe Journal

30 de Maio de 2014

Parte II

(continuação)

A desigualdade e a classe média

Deixem-nos ser claros sobre esta questão: a ideia de auto-produção era uma invenção, o grito de guerra e a prática das classes médias e isto é o que era difundido entre as classes altas, que nada precisam de fazer a fim de manterem a sua posição garantida por nascimento e entre as classes mais baixas que poderão fazer muito pouco para poderem mudar a sua posição – igualmente imposta pelo nascimento. “As classes médias” pertenceram ao único sector da sociedade – mas cresceram e esperavam crescer ainda mais- para quem o postulado da “meritocracia” (as recompensas sociais a reflectirem fielmente o valor das contribuições individuais) foi assumido e testado na prática. Esperou-se extensamente que devido ao aprofundamento da democracia e da consciência humana daí resultante “a classe média” iria progredir à custa dos outros dois segmentos, da parte dos grupos de mais elevadas remunerações e do grupo de menores rendimentos, portanto, à custa dos dois extremos da pirâmide social e, assim o postulado da meritocracia, que levaria à difusão da igualdade de oportunidades para toda a sociedade deitaria por terra as divisões de classes e daria um bom e eficaz remédio para os conflitos de interesses de classes (recordemos a visão do “embourgeoisement em curso” da classe trabalhadora, um elemento central do senso comum social e científico dos anos 60)

Agora, contudo, as classes médias são agora uma referência notável primeiramente pelo facto de que em vez de serem classes em expansão como se previa, são classes sociais em contracção, em perda de confiança nas promessas cada vez mais vagas e etéreas do credo meritocrático e das suas esperanças, igualmente. Estas classes olham agora, sem recursos e por desgraça delas, para as capacidades de auto-criação e de auto-afirmação a serem niveladas por baixo e não para cima, degradando-as e atirando-as para um destino fixo anteriormente reservado para os mais baixos estratos da hierarquia social. Guy Standing [4] criou o termo “precariato” para referenciar a nova situação e o emergente modo de vida e de pensamento das categorias de pessoas que ainda não há muito tempo atrás eram consideradas como pessoas da “classe média “ e agora já o não são. Esse termo refere a precariedade endémica (instabilidade, aleatoriedade, crises de ansiedade e, em resumo de tudo isto, uma brutal vulnerabilidade) da sua existência: uma situação que há varias dezenas de anos atrás era julgada ser um especial flagelo que caracterizava a classe definida como “proletariado”.

Agora, as classes médias, em massa, são forçadas e levadas a saborear o gosto amargo da condição de que Lyndon Johnson, quando lançava o seu projecto da “Grande Sociedade” expressou numa frase que ficou famosa: que um homem moldado na precariedade não é – e nem pode ser – livre. E considerar “não ser livre” significa, acima de tudo, que se está despojado da capacidade de se auto-criar, de poder escolher, de se moldar e de poder controlar o seu modo de vida. Estamos todos, ou quase todos, na situação de pertencermos agora à classe média: mas não é o tipo de classe média que o Abbé Sieyès tinha em mente quando há quase dois séculos e meio de forma impetuosa e orgulhosamente declarou que o “Terceiro Estado” é “para todos”.

“As perspectivas de uma boa educação para as crianças de famílias pobres e de rendimentos médios ” (Stiglitz) são “muito mais sombrias do que as dos filhos dos ricos”. ” O rendimento dos pais está-se a tornar cada vez mais importante, enquanto que os custos mensais de se estar na faculdade sobem muito mais rapidamente do que os rendimentos…” (ibid). “Como aqueles que estão no meio e no fundo da hierarquia de rendimentos lutam para ganhar a vida… as famílias tem que fazer cedências e entre elas é a de fazer menos investimento nos seus filhos . Por outras palavras, apenas como no caso dos escravos judaicos no Egipto, a quem foi dito para continuarem a produzir tantos tijolos como antes, mas agora sem a palha para os cozer que até aí era fornecida pelos agentes do Faraó, a prole das famílias de rendimentos médios e baixos é-lhes dito também para produzirem por eles mesmos tanto quanto o faziam antes mas desta vez sem as ferramentas que tal produção exige.

E assim: adeus aos sonhos da meritocracia; Lasciate ogni speranza, a quem entrar num mundo no qual, de acordo com o resumo de Stiglitz, “não estamos a utilizar um dos nossos activos mais valiosos – o nosso povo – da forma mais produtiva possível” . Por outras palavras, quando a maior parte dos que entram são considerados, são registados, estes são-no a débito, não a crédito do mundo. E quando até mais de metade dos novos que entram no mercado de trabalho são forçados a aceitar empregos (isto é, se tiverem sorte em encontrar um qualquer emprego) muito abaixo das suas ambições, talentos e competências e oferecendo pouca ou nenhuma segurança, perdem mais uma possibilidade de se auto-exprimirem. E quando olham firmemente para o número crescente das pessoas mais velhas que até aqui conseguiram assumir-se como pessoas respeitáveis e gratificantes mas que agora já na casa dos seus 50 anos começam a considerar que as suas imagens laboriosamente compostas e duramente conseguidas começam a ser negadas, que a sua tão estimada posição na sociedade conseguida com tanta dificuldade lhes começa a não ser reconhecida, enquanto isso, eles vêem-se eles próprios relegados para a categoria de pessoas redundantes e de passivos sociais. E recordemos que a selecção de uma inscrição como “lasciate ogni speranza, voi ch’entrate” deveria ser gravada na porta de entrada que Dante escolheu para a marca do inferno.

(continua)

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[4] Ver o seu Precariat: The New Dangerous Class, Bloomsbury 2014.

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Ver:

http://www.social-europe.eu/2014/05/european-elections-2/

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Para ler a Parte I deste texto de Zygmunt Baumann, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

AS ELEIÇÕES EUROPEIAS, A POLÍTICA E A DESIGUALDADE, de ZYGMUNT BAUMAN

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