BISCATES – “Os outros”- por Carlos de Matos Gomes

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O nosso problema são os outros. Um cidadão( ou uma cidadã), apertado pela vida, dirige-se a uma repartição da Autoridade Tributária, vulgo finanças. Encontra outro do lado de lá do balcão, entrincheirado como um sentinela à espera do inimigo. O problema é o outro. O contribuinte perturba a rotina funcional do outro. O funcionário vinga-se e manda o outro preencher um requerimento e aguardar melhores dias até decisão de quem de direito. Outro outro.

Se o funcionário adoecer, passa a ser um problema para outro. Para vários outros, o outro que o devia atender e não atende, o outro que o devia tratar e não trata. Doentes e médicos têm problemas uns com os outros. Assim como os peões e os automobilistas, estudantes e professores. O sacrossanto mercado é o grande problema de outros: todos somos vendedores e compradores, credores e devedores, como bem nos lembra a troika. Todos temos problemas com os outros. A comunidade internacional é – não há outra definição – o outro problema. Dos EUA à Rússia, dos palestinianos aos israelitas todos têm problemas com os outros, incluindo os bósniosherzegovinos, os casaques e os afegões, como lhes chamava o Luiz Pacheco. Os ditados populares transmitem este insanável problema com o outro em vários tons e nem a família escapa: Quem tem filhos tem cadilhos. Isto é, tem problemas com os outros. Neste caso com os descendentes.

Às vezes o outro não é uma pessoa, mas um atributo. Por exemplo, quer Jorge de Jesus, quer Vítor Gaspar, têm um problema com a língua portuguesa. Já Mota Soares têm um problema com a pressão do ar nos pulmões. Portas, por seu lado, tem problemas que são outros. O outro é um problema teologicamente insolúvel: entre um e outro venha o diabo e escolha. Que é o que podemos dizer entre os padrinhos de Passos Coelho, o padrinho Catroga e o padrinho Ângelo Correia. Também existe uma versão feminina: entre a canção portuguesa ao festival de Eurovisão e o hino da selecção venha o diabo e escolha. E outra financeira: entre o BPN, o BPP e agora o BES, venha a polícia e escolha.

O outro é, repito, a origem dos nossos problemas, para o Seguro, o outro é o Costa. E vice-versa. Embora haja outros que se esfumaram. Cavaco Silva é um outro desde que caiu no buraco negro de Belém. Passou à categoria de antepassado: umaqueloutro. O aqueloutro de Belém, que oferece café e pastéis às visitas. Para os portugueses comuns o outro é colectivo: é o governo, é o eles, é quem de direito.

A linguagem vernácula é uma outra cheia de outros: filho de uma grande outra. Outro do C…. Vai pró outro. Há uma versão restauracionista do outro: o outro é que era bom! Ou saudosista: outros tempos!

Depois há outros que são responsáveis por todos os males: o outro Sócrates, não o grego. E também os outros dos sucessos: a outra troika que não a russa de três cavalos, mas de três carroceiros.

Sucessos. Era aqui que queria chegar: o outro de maior sucesso é actualmente o Tribunal Constitucional. É um outro do tipo bode expiatório. Vem o governo e diz: o outro é responsável por mais impostos e maldades que eu vou cometer. Vem a troika e diz de Bruxelas: o outro está a tramar o nosso programa!

O Tribunal Constitucional é o outro que impede o governo de nos entregar a felicidade! Até o emplastro de Gaia, um tal Marco António Costa, percebeu. O emplastro estava muito bem acompanhado, quase tão bem como na selfie o aqueloutro de Belém com os outros da selecção de futebol. Medina Careira, o outro que pisca, mandou extinguir o TC por estar a prejudicar o outro programa. O Vital Moreira, o outrozinho cantigas, também declamou contra o TC.

A Constituição da República tornou-se o mal de todos os outros. Por isso, o grito de salvação de nosotrostanto pode ser, como o de Seguro, o de Passos Coelho, o de Portas, o de Jerónimo de Sousa: Ou nós ou os outros!

Como o de outros, o par do Bloco de Esquerda e o Costa: antes nós que os outros.

Terminamos com oaqueloutro de Belém, que filosofa: o outro sou eu e a minha Maria, que é a minha circunstância.

Carlos de Matos Gomes

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