CRÓNICA DO MUNDIAL – “Será ainda o futebol uma religião em busca de um deus?” – por António Gomes Marques

Cabe-me abrir as crónicas no blogue sobre o Campeonato do Mundo de Futebol, hoje iniciado no Brasil. Só o Carlos Loures me faria dedicar uma crónica a este dito desporto com mais audiência a nível mundial.

Imagem3 Para o meu pontapé de saída não tive naturalmente o auxílio de um «robot» como o jovem paraplégico que, utilizando um exoesqueleto, deu o pontapé na bola que constituiu o momento de abertura na festa que antecedeu o primeiro jogo do Mundial. Este é, para mim, o momento da esperança para os paraplégicos poderem vir a dispensar as cadeiras de rodas, o momento deste Mundial que mostra como o Mundo pode ser belo se nos dedicarmos ao desenvolvimento científico e tecnológico para bem da Humanidade. Mas, se não me servi do exoesqueleto, não deixei de me servir, para dar nome a esta crónica, do título de uma das obras de um dos maiores escritores do século passado, Manuel Vásquez Montalbán, «Fútbol – Una religión en busca de un Dios», que alterei ligeiramente por razões que se perceberão no final.

 Voltemos ao acontecimento, inaugurado com uma festa cheia de cor e ritmo, numa mostra sem ostentação, que por isso muito me agradou, de um Brasil que todos conhecem, aquela imagem que a propaganda turística vai espalhando pelo Mundo. Reconheço, no entanto, que foi um espectáculo leve e com bastante beleza mas que pouco tem a ver com o Brasil real, aquele país das populações que conheço do Amazonas ou do Pantanal, das favelas do Rio de Janeiro ou dos sem-abrigo —também chamados no Brasil de «sem-teto»— debaixo dos viadutos de S. Paulo ou nas ruas de Belo Horizonte, para dar alguns exemplos de muitos que pudemos ver. Para estes, que vantagens trouxe a organização do Mundial de Futebol pelo Brasil? Evidentemente, esta parte da população não é um exclusivo do Brasil, deserdados estes que em Portugal e em Espanha têm aumentado, sobretudo nos últimos três anos. Pelo menos, ainda nenhuma autoridade brasileira ou portuguesa ou espanhola colocou espigões nos locais onde eles fazem os seus leitos para passar a noite.

 Em Portugal, o dinheiro gasto na construção de estádios que hoje quase não são utilizados teria produzido o suficiente para impedir este aumento dos sem-abrigo se investido na criação de riqueza, na produção de bens transacionáveis e nos três itens fundamentais para o desenvolvimento de um país: educação, ciência/tecnologia e cultura. No Brasil como é que vai ser? Que riqueza vão estes novos estádios produzir? Que benefício para os milhões de deserdados que podemos encontrar de Norte a Sul do país?

 Não percebi,nesta festa de arranque do Mundial, a necessidade de contratar Jennifer Lopez, actriz e cantora de que muito gosto, note-se, sobretudo naquela festa de abertura tão brasileira, quando o Brasil está cheio de grandes cantores.

 Terminada a festa, passados cerca de 75 minuto tivemos o jogo inaugural Brasil-Croácia.

 Não quero ser comentador desportivo, até para não tirar o lugar ao Rui Santos na SIC Notícias, mas não posso deixar de tecer algumas considerações ao que vi, lembrando mais uma vez o que recordo ter lidona citada obra de M. VásquezMontalbán, quando nos fala dos treinadores a constituírem as suas equipas de harmonia com o seu sistema de jogo, matando assim a possibilidade de os espectadores poderem assistir à imprevisível magia de um Garrincha, de um Pelé ou de um Eusébio, a qual não cabe dentro dos esquemas apertados dos treinadores de futebol. No entanto, no jogo a que hoje assisti sentado comodamente no sofá, foi necessário que o mais talentoso dos jogadores da selecção brasileira, Neymar, saísse desse esquema inicial para que o Brasil conseguisse empatar a partida; até essa alteração, era a Croácia que dava cartas e que justificava a vantagem do 0-1. Depois surgiu a duvidosa grande penalidade que possibilitou ao Brasil adiantar-se no marcador e, quando a Croácia estava mais próxima de novo empate, surge o terceiro golo do Brasil. Claro que a vitória do Brasil foi merecida, embora seja meu convencimento que, se não fosse o inexistente penálti, o Brasil teria sérias dificuldades para bater a belíssima selecção da Croácia.

Imagem1Para que não surjam dúvidas, sobretudo às dezenas dos meus familiares brasileiros, eu estava a torcer pelo Brasil e, já agora, adianto que, não vendo que a selecção de Portugal possa sair vencedora deste campeonato mundial, torcerei pela selecção brasileira. No entanto, para que o Brasil venha a ser o campeão, torna-se necessário que jogue bem mais do que mostrou neste jogo inaugural, que o esquema do sofrível Scolari não mate a magia e a imprevisibilidade de alguns dos talentos que esta selecção tem, embora não tão mágicos que nos façam esquecer os Garrinchas de outros tempos.

Ma não são apenas os esquemas dos treinadores actuais que matam a magia do futebol, a magia daquele desporto que, para ser jogado, basta uma bola, onze jogadores de cada lado e um espaço suficientemente grande para que os jogadores não se atropelem. Hoje o futebol está nas mãos dos mercados financeiros, mercados estes abastecidos por dinheiro de origem duvidosa ou por receitas fáceis do petróleo, possibilitando que os detentores de tais capitais possam andar nas parangonas dos noticiários satisfazendo assim as suas vaidades. Para isto, naturalmente, necessitam que os meios de comunicação ajudem a construir a imagem de alguns talentos futebolísticos, como Ronaldo, Messi, Neymar e muitos outros, possibilitando-lhes uma vida de luxo nunca antes sonhada, deles se servindo para atrair multidões aos estádios, onde estas multidões poderão fazer explodir as suas frustrações e consequentes raivas, esquecendo que a origem das suas dificuldades é bem outra. Até quando?

A interrogação com que termino o período anterior leva-me às manifestações a acontecer em várias cidades brasileiras que a imprensa, apesar de nas mãos dos senhores do dinheiro, não pode deixar de noticiar. A Presidente Dilma Rousseff discursou à Nação, afirmando mesmo: «Esta será, também, a Copa pela paz e contra o racismo; pela inclusão e contra todas as formas de violência e preconceito; a Copa da tolerância, da diversidade, do diálogo e do entendimento.». Acrescentou mesmo que, entre 2010 e 2013, houve um investimento em educação, por parte do governo federal, dos estados e dos municípios, 212 vezes maior do que o gasto com os estádios para o Mundial.

Não quero pôr em dúvida as afirmações da Presidente da República do Brasil, mas há sempre uma pergunta a fazer e a que estas afirmações não respondem: Que criação de riqueza podem estes estádios proporcionar que venha a beneficiar a larga maioria do povo brasileiro a viver em grandes dificuldades? Lembremos que os estádios não estão pagos, foram financiados por bancos públicos federais e por empresas privadas, cuja taxa de juro desconheço. Outra pergunta: serão os impostos cobrados aos brasileiros a pagar esta dívida colossal? Faço votos para que nenhum daqueles bancos se transforme em BPN à brasileira, o que seria mais uma vez os brasileiros a copiarem o que os portugueses têm de pior. Foi nos estádios de futebol e poderá ser amanhã nos bancos federais brasileiros, para já não falar do crédito imobiliário, que já deve estar a causar algumas insónias a muita gente no Brasil.

Para a FIFA, um poder acima do poder das Nações, é que o negócio é sempre de grandíssima rendibilidade.

Termino apelando de novo para a citada obra de Manuel Vásquez Montalbán, obra essa póstuma mas deixada já preparada pelo autor, a qual foi editada sob a responsabilidadedo seu filho, Daniel VásquezSallés, também escritor, que termina assim a sua “Nota a esta edición”:

 «Dos seus primeiros escritos publicados na revista Triunfo aos últimos passaram trinta e cinco anos, mais de três decénios nos quais o futebol vagueou ou andou sem rumo certo por múltiplos caminhos até se converter no que parece que é e será no decurso deste milénio: uma religião nas mãos de grandes multinacionais.»

Portela (de Sacavém), 2014-06-12

Leave a Reply