Poema: Vasco Graça Moura (in “Letras do Fado Vulgar”, Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – pág. 55; “Poesia 1997/2000”, Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 228)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD “Letras do Fado Vulgar”, Zona Música, 2003)
Ela cantava o fado e de repente fez-se na tasca enorme zaragata: chegara o seu amante da fragata e não gostou de ouvi-la tão ardente
e ao ver que os olhos dela se cravavam nos olhos de um rufia devagar a cena foi de faca e alguidar como depois os outros relatavam
calaram-se o guitarra e o viola e os mais à meia-luz emudeciam pois só passos felinos se mediam no lampejar riscado a ponta e mola
é quando um deles cambaleia e vence-o a golfada fatal de sangue e vinho tingindo peito, mangas, colarinho, e a quebrar num soluço esse silêncio
já não há casos destes na cidade e eu já não sei quem estendeu a mão mas num golpe certeiro ao coração tornou-se esta ficção realidade
[instrumental]
já não há casos destes na cidade e eu já não sei quem estendeu a mão mas num golpe certeiro ao coração tornou-se esta ficção realidade
* José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa; Francisco Gonçalves – viola; Armando Figueiredo – viola baixo
Sinais de Cinza
Poema: Vasco Graça Moura (in “Letras do Fado Vulgar”, Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – págs. 22-23; “Poesia 1997/2000”, Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – págs. 199-200)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD “Letras do Fado Vulgar”, Zona Música, 2003)
No beco abandonado sem horas que distinga com letra que se vinga do sangue atormentado vai inscrevendo o fado na trémula restinga do corpo macerado e a pena é uma seringa
quase em andrajos nua no olhar parado voga torpor de asas de droga na palidez da sua face de quem se afoga chupou-lhe o rosto a lua sonâmbula flutua e nada aos deuses roga
tão longe a juventude em cinzas deslembrada, e tão desfigurada ajude ou desajude já não lhe vale de nada: mesmo que a sombra mude na sombra se degrada sem que anjo algum a escude
menina e moça assim em casa de seus pais criada entre alecrim e rosas no jardim levaram-na os sinais das luzes irreais agora é quase o fim que a vida estava a mais
[instrumental]
menina e moça assim em casa de seus pais criada entre alecrim e rosas no jardim levaram-na os sinais das luzes irreais agora é quase o fim que a vida estava a mais
* José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa; Bernardo Couto – guitarra portuguesa; Francisco Gonçalves – viola; Armando Figueiredo – viola baixo
Casario
Poema: Vasco Graça Moura (in “Letras do Fado Vulgar”, Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – pág. 19; “Poesia 1997/2000”, Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 197)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD “Letras do Fado Vulgar”, Zona Música, 2003)
Em Lisboa eu prefiro o casario que se narcisa visto da outra banda no espelho às vezes turvo deste rio na limpidez do rio às vezes branda
é entre o Mar da Palha e o Bugio que o renque das fachadas se desmanda em tons de porcelana ao desafio em cada patamar, cada varanda
e a luz de água e azul a derramar-se vem envolver-lhe o vulto reflectido, dar-lhe o contraste de uns ciprestes, dar-se como um banho lustral e desmedido
é véu de gaze leve o seu disfarce mas é tão ténue e frágil o tecido que pode acontecer que ainda o esgarce um voo de gaivotas esquecido
então seu corpo sob o céu rasgado terá uma outra luz densa e leitosa translúcida nudez do compassado coração da cidade branca e rosa
[instrumental]
e a luz de água e azul a derramar-se vem envolver-lhe o vulto reflectido, dar-lhe o contraste de uns ciprestes, dar-se como um banho lustral e desmedido
então seu corpo sob o céu rasgado terá uma outra luz densa e leitosa translúcida nudez do compassado coração da cidade branca e rosa
[instrumental]
* Bernardo Couto – guitarra portuguesa e viola; Armando Figueiredo – viola baixo
Fado da Sereia
Poema: Vasco Graça Moura (in “Letras do Fado Vulgar”, Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – págs. 68-69; “Poesia 1997/2000”, Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – págs. 239-240)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD “Letras do Fado Vulgar”, Zona Música, 2003)
Ela era cantadeira e um caso sério rainha sem rival no seu ofício e já tinha levado só por vício três faias e um banqueiro ao cemitério
a voz despia-a toda se cantava no arfar do xaile preto e do decote tinha a força nocturna de um archote e a raiva e a revolta de uma escrava
na boca o seu vermelho era sangrento nas mãos curvava as unhas como garras nas ancas tinha a curva das guitarras as fúrias no cabelo eram do vento
os olhos eram de aço se os abria cravando-os em incautos corações e ao serem mais funestas as paixões todo o seu corpo branco estremecia
cantava como o fogo que devasta as almas e as cidades de repente chamavam-lhe “a sereia” toda a gente e era como a maré quando ela arrasta
morreu de um desespero de facadas no peito, nas carótidas, na cara, deu-lhas alguém que um dia atraiçoara e preferiu as mãos ensanguentadas
não vi mulher mais bela em toda a vida e em forma de mulher mais tempestade nem voz ouvi que fosse mais verdade nem verdade a cantar mais incontida
baixou por sua vez ao cemitério rainha sem rival no seu ofício o que era de contar agora disse-o fica por desvendar o seu mistério
[instrumental]
baixou por sua vez ao cemitério rainha sem rival no seu ofício o que era de contar agora disse-o | bis fica por desvendar o seu mistério |
* José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa; Bernardo Couto – guitarra portuguesa; Francisco Gonçalves – viola; Armando Figueiredo – viola baixo
…
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD “Letras do Fado Vulgar”, Zona Música, 2003); «Que afagos tão suaves, que ira honesta»
LUÍS DE CAMÕES
(estrofe 83 do Canto IX
d’ “Os Lusíadas”, Lisboa, 1572)
Fiz no teu corpo à noite a travessia de mares e céus e terras e vulcões e em breve rodopio as estações detinham-se esquecidas e foi dia fiz no teu corpo à noite a travessia
a memória das praias e florestas perpassou-me na pele e entranhou-se como um suave afago que assim fosse espuma que ficou de iras honestas a memória das praias e florestas
e ao despertar de tanta sonolência formou-se devagar esta canção para entreter de novo o coração tão paciente em sua impaciência
até que sendo noite eu atravesso uma outra vez o mundo, o mar, o vento, amar é sempre mais conhecimento e conhecer é tudo o que eu te peço.
[instrumental]
E ao despertar de tanta sonolência formou-se devagar esta canção para entreter de novo o coração tão paciente em sua impaciência
até que sendo noite eu atravesso uma outra vez o mundo, o mar, o vento, amar é sempre mais conhecimento | 3x e conhecer é tudo o que eu te peço. |
* José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa Bernardo Couto – guitarra portuguesa Francisco Gonçalves – viola Armando Figueiredo – viola baixo