Em memória de Vasco Graça Moura (1942-2014) – 5 – por Álvaro José Ferreira

Nota prévia:

Para ouvir os poemas (cantados) de Vasco Graça Moura, há que aceder à páginaImagem2

http://nossaradio.blogspot.com/2014/05/em-memoria-de-vasco-graca-moura.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

Ficção e Realidade

Poema: Vasco Graça Moura (in “Letras do Fado Vulgar”, Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – pág. 55; “Poesia 1997/2000”, Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 228)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD “Letras do Fado Vulgar”, Zona Música, 2003)

Ela cantava o fado e de repente
fez-se na tasca enorme zaragata:
chegara o seu amante da fragata
e não gostou de ouvi-la tão ardente

e ao ver que os olhos dela se cravavam
nos olhos de um rufia devagar
a cena foi de faca e alguidar
como depois os outros relatavam

calaram-se o guitarra e o viola
e os mais à meia-luz emudeciam
pois só passos felinos se mediam
no lampejar riscado a ponta e mola

é quando um deles cambaleia e vence-o
a golfada fatal de sangue e vinho
tingindo peito, mangas, colarinho,
e a quebrar num soluço esse silêncio

já não há casos destes na cidade
e eu já não sei quem estendeu a mão
mas num golpe certeiro ao coração
tornou-se esta ficção realidade

[instrumental]

já não há casos destes na cidade
e eu já não sei quem estendeu a mão
mas num golpe certeiro ao coração
tornou-se esta ficção realidade

* José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa;  Francisco Gonçalves – viola;  Armando Figueiredo – viola baixo

Sinais de Cinza

Poema: Vasco Graça Moura (in “Letras do Fado Vulgar”, Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – págs. 22-23; “Poesia 1997/2000”, Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – págs. 199-200)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD “Letras do Fado Vulgar”, Zona Música, 2003)

No beco abandonado
sem horas que distinga
com letra que se vinga
do sangue atormentado
vai inscrevendo o fado
na trémula restinga
do corpo macerado
e a pena é uma seringa

quase em andrajos nua
no olhar parado voga
torpor de asas de droga
na palidez da sua
face de quem se afoga
chupou-lhe o rosto a lua
sonâmbula flutua
e nada aos deuses roga

tão longe a juventude
em cinzas deslembrada,
e tão desfigurada
ajude ou desajude
já não lhe vale de nada:
mesmo que a sombra mude
na sombra se degrada
sem que anjo algum a escude

menina e moça assim
em casa de seus pais
criada entre alecrim
e rosas no jardim
levaram-na os sinais
das luzes irreais
agora é quase o fim
que a vida estava a mais

[instrumental]

menina e moça assim
em casa de seus pais
criada entre alecrim
e rosas no jardim
levaram-na os sinais
das luzes irreais
agora é quase o fim
que a vida estava a mais

* José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa;  Bernardo Couto – guitarra portuguesa;  Francisco Gonçalves – viola; Armando Figueiredo – viola baixo

Casario

Poema: Vasco Graça Moura (in “Letras do Fado Vulgar”, Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – pág. 19; “Poesia 1997/2000”, Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 197)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD “Letras do Fado Vulgar”, Zona Música, 2003)

Em Lisboa eu prefiro o casario
que se narcisa visto da outra banda
no espelho às vezes turvo deste rio
na limpidez do rio às vezes branda

é entre o Mar da Palha e o Bugio
que o renque das fachadas se desmanda
em tons de porcelana ao desafio
em cada patamar, cada varanda

e a luz de água e azul a derramar-se
vem envolver-lhe o vulto reflectido,
dar-lhe o contraste de uns ciprestes, dar-se
como um banho lustral e desmedido

é véu de gaze leve o seu disfarce
mas é tão ténue e frágil o tecido
que pode acontecer que ainda o esgarce
um voo de gaivotas esquecido

então seu corpo sob o céu rasgado
terá uma outra luz densa e leitosa
translúcida nudez do compassado
coração da cidade branca e rosa

[instrumental]

e a luz de água e azul a derramar-se
vem envolver-lhe o vulto reflectido,
dar-lhe o contraste de uns ciprestes, dar-se
como um banho lustral e desmedido

então seu corpo sob o céu rasgado
terá uma outra luz densa e leitosa
translúcida nudez do compassado
coração da cidade branca e rosa

[instrumental]

* Bernardo Couto – guitarra portuguesa e viola;  Armando Figueiredo – viola baixo

Fado da Sereia

Poema: Vasco Graça Moura (in “Letras do Fado Vulgar”, Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – págs. 68-69; “Poesia 1997/2000”, Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – págs. 239-240)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD “Letras do Fado Vulgar”, Zona Música, 2003)

Ela era cantadeira e um caso sério
rainha sem rival no seu ofício
e já tinha levado só por vício
três faias e um banqueiro ao cemitério

a voz despia-a toda se cantava
no arfar do xaile preto e do decote
tinha a força nocturna de um archote
e a raiva e a revolta de uma escrava

na boca o seu vermelho era sangrento
nas mãos curvava as unhas como garras
nas ancas tinha a curva das guitarras
as fúrias no cabelo eram do vento

os olhos eram de aço se os abria
cravando-os em incautos corações
e ao serem mais funestas as paixões
todo o seu corpo branco estremecia

cantava como o fogo que devasta
as almas e as cidades de repente
chamavam-lhe “a sereia” toda a gente
e era como a maré quando ela arrasta

morreu de um desespero de facadas
no peito, nas carótidas, na cara,
deu-lhas alguém que um dia atraiçoara
e preferiu as mãos ensanguentadas

não vi mulher mais bela em toda a vida
e em forma de mulher mais tempestade
nem voz ouvi que fosse mais verdade
nem verdade a cantar mais incontida

baixou por sua vez ao cemitério
rainha sem rival no seu ofício
o que era de contar agora disse-o
fica por desvendar o seu mistério

[instrumental]

baixou por sua vez ao cemitério
rainha sem rival no seu ofício
o que era de contar agora disse-o | bis
fica por desvendar o seu mistério |

* José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa;  Bernardo Couto – guitarra portuguesa; Francisco Gonçalves – viola;  Armando Figueiredo – viola baixo

Fado do Conhecimento

Poema: Vasco Graça Moura (in “Letras do Fado Vulgar”, Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – pág. 42; “Poesia 1997/2000”, Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 217)


Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD “Letras do Fado Vulgar”, Zona Música, 2003); «Que afagos tão suaves, que ira honesta»
LUÍS DE CAMÕES
(estrofe 83 do Canto IX
d’ “Os Lusíadas”, Lisboa, 1572)

Fiz no teu corpo à noite a travessia
de mares e céus e terras e vulcões
e em breve rodopio as estações
detinham-se esquecidas e foi dia
fiz no teu corpo à noite a travessia

a memória das praias e florestas
perpassou-me na pele e entranhou-se
como um suave afago que assim fosse
espuma que ficou de iras honestas
a memória das praias e florestas

e ao despertar de tanta sonolência
formou-se devagar esta canção
para entreter de novo o coração
tão paciente em sua impaciência

até que sendo noite eu atravesso
uma outra vez o mundo, o mar, o vento,
amar é sempre mais conhecimento
e conhecer é tudo o que eu te peço.

[instrumental]

E ao despertar de tanta sonolência
formou-se devagar esta canção
para entreter de novo o coração
tão paciente em sua impaciência

até que sendo noite eu atravesso
uma outra vez o mundo, o mar, o vento,
amar é sempre mais conhecimento | 3x
e conhecer é tudo o que eu te peço. |

* José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa
Bernardo Couto – guitarra portuguesa
Francisco Gonçalves – viola
Armando Figueiredo – viola baixo

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