(Continuação)
A Frente Nacional não surgiu agora. Não se recordam? Em 2002 o seu líder, Jean-Marie Le Pen, chegou à segunda volta para a presidência da república – à frente do candidato socialista. Houve em Paris um protesto que reuniu meio milhão de pessoas e todos os outros partidos incitaram a votar em Jacques Chirac; que só a imunidade presidencial protegia do julgamento por corrupção na câmara de Paris. Eu própria participei na manifestação contra Le Pen. Eu própria votei em Jacques Chirac. Foi – espero – a minha última ingenuidade política; não voltarei a preferir um corrupto a um populista (nem vice-versa). Creio não ser a única eleitora que se sentiu ludibriada…
De então para cá houve o presidente Sarkozy. Há o presidente Hollande. E o que a maioria dos eleitores tem concluído tanto do PS (Hollande) como da UMP (Sarkozy) basta para a dissuadir de votar neles. Não vale a pena pormenorizar o tango das reformas, os escândalos de corrupção, as lutas para a liderança, as guerrilhas partidárias, as polémicas grotescas, uma das quais lançou para o olho do ciclone a Leonarda, uma adolescente expulsa de França com a família (uma família que beneficiava de ajudas e alojamento enquanto ia cometendo delitos), a propósito da qual se chegou ao cúmulo de reclamar a demissão do governo, enfim, do espetáculo de circo que partidos e “mass media” oferecem à perplexidade dos cidadãos… Nem a língua de pau e o politicamente correto que dominam na rádio, nos jornais, nos ecrãs, sendo sempre arriscado que uma parte da população – em particular quem vota – se sinta excluída do discurso autorizado.
É neste contexto que a FN consegue, através de hábeis deslizes e linguagem simplista, cobrir a pele de lobo com a rebeldia popular… Nicolas Sarkozy tentou combatê-la, mas quase sempre da pior maneira. A Frente de Esquerda (FE) não desdenha os simplismos, mas desencontrados do desassossego popular. Por outro lado, quando algum partido ecologista obteve funções no governo, nada defendeu do que levara os eleitores a escolhê-lo, isto é, os problemas ambientais: consequente desilusão dos votantes. Muitos franceses inquirem… Quantos políticos lutam por causas públicas? Para quê votar em partidos que querem em primeiro lugar distribuir o poder pelos compadres, não sendo as responsabilidades entregues aos mais empenhados e competentes? Haverá democracia se tantos cidadãos não votam? Com efeito em março abstiveram-se das eleições autárquicas 36% (mais de um terço) dos inscritos, em abril abstiveram-se da eleição para o parlamento europeu 56,5% (mais de metade) dos inscritos. Por conseguinte quem recuperasse os desiludidos poderia formar o primeiro partido de França… Ou poderá.
Cai tudo a jeito para a Frente Nacional que, por nunca se haver confrontado com o governo, continua a fazer análises simplificadoras – portanto erradas. Mas quem desmonta as suas falácias? O PS e a UMP não lhe ligam: entretêm-se um com o outro. Entretanto a FN lança bocas e soma os votos.
(Conclui amanhã)

