Entretanto, durante o ano de 1886 tinha surgido a Federação Americana do Trabalho (American Federation of Labor — AFL), que rapidamente alcançou lugar avançado no panorama sindical americano.
Os primeiros sinais desta poderosa organização sindical remontam a 1881, quando, em Pittsburgh, por iniciativa da União dos Tipógrafos, é criada uma denominada American Federation of Organized Trades and Labor Union, que, mais tarde, em 1886, se transforma na AFL.
De conceções muito diferentes das dos Cavaleiros do Trabalho, a AFL tem, contudo, as suas origens mais remotas nas iniciativas dessa associação secreta.
Somente em dez anos, de 1880 a 1890, chegaram mais de cinco milhões de novos emigrantes aos Estados Unidos: quase todos aumentavam as fileiras miseráveis de mão-de-obra não qualificada em que os negros já mourejavam. Nenhum sindicato se preocupava com a sua sorte, e sobretudo a AFL dedicada apenas à defesa dos operários qualificados, divididos em corporações rivais.
Continuaram as greves e os morticínios sangrentos. Mandaram para a prisão milhares de militantes. No Sul, os brancos vencidos por ocasião da guerra civil, levantavam a cabeça e entregavam-se, com similares da Ku-Klux-Klan, a linchar negros. A maioria dos índios dizimados apodreciam já nas suas reservas, onde o álcool os ajudava a morrer.
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Os primeiros grandes capitalistas após a guerra da Secessão, os Carnegie, os Morgan, os Rockefeller, os Mellon, os Frick, os Hill, os Villard e outros Harriman eram animados pela mesma brutalidade, nas lutas de uma violência incrível que travaram com os trabalhadores. Os Estados Unidos eram uma terra prometida para os oprimidos da Europa – com destaque para polacos, irlandeses, gregos, italianos e alemães. Aqui esperavam encontrar, senão a fortuna, pelo menos a dignidade e a independência graças a um trabalho, duro talvez, mas não humilhante. Na imensa maioria dos casos esperava-os uma deceção. Os grandes patrões, em vias de construir impérios no caminho-de-ferro, carvão e petróleo, apenas tinham a preocupação de os esmagar mais e mais para aumentar os lucros. Os emigrantes mais antigos, anglo-saxónios e protestantes, consideravam com desconfiança os recém-vindos. Todos os novos eram suspeitos de serem «comunistas». E um «comunista» só era bom enforcado.
Para defender a ordem os privilegiados dispunham de diversas guardas nacionais, milícias do Estado, tropas variadas – como também de empresas privadas especializadas no fornecimento de fura-greves, espiões, provocadores, e mesmo assassinos. A mais célebre destas agências – ainda as há hoje – foi a agência Pinkerton, do nome do seu fundador, um escocês outrora apaixonado pelo socialismo e que morreu milionário. Em 1930, a Comissão La Follette, encarregada de um inquérito sobre as liberdades civis, revelou que os dois filhos Pinkerton recebiam ainda centenas de milhares de dólares por ano por empregarem informadores entre os trabalhadores e que os seus rendimentos eram superiores aos do Presidente dos Estados Unidos.
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Esta sociedade vista por um cidadão proveniente da velha Europa era alucinante. Misturavam-se arranha-céus, proibições, bandidos de Chicago, puritanismos e corrupção, ingenuidade e má-fé. Era tudo desproporcionado.
O senhor Taylor inventava a fragmentação dos gestos profissionais e o trabalho em cadeia. O senhor Ford, quanto a ele, dado que não conseguia tantos compradores quantos queria para os seus automóveis, baixava os preços e aumentava os salários dos seus operários para que pudessem comprar-lhos, pondo na ordem do dia uma sociedade pouco vulgar, em mutação perpétua, que escolhera a motivação do lucro, e não tinha vergonha disso, antes pelo contrário, reivindicava-o com um cinismo cândido e tencionava continuar neste caminho, o que se resumia de modo revelador no slogan:
«Não queremos Marx: queremos Ford!»
Com o sistema Ford, acabavam-se os perigos revolucionários e a luta de classes! Até mesmo Al Capone, o inimigo público número um, era anticomunista. E tinha muita razão, pois o seu império estava construído segundo o modelo capitalista.
Durante um certo tempo pôde acreditar-se que o sonho de um país em que cada qual seria rico graças à circulação acelerada do dinheiro ia tornar-se uma realidade eterna. Wall Street conheceu horas de uma agitação febril. O que era bom para a General Motors era bom para a América. Muitos pensavam sinceramente que os banqueiros, graças às suas virtudes, inteligência e clarividência, iam salvar o mundo. Miragem de uma idade de ouro em que sessenta por cento da população ainda não partilhava, pois não possuía o mínimo indispensável à sobrevivência. Havia quatro milhões de desempregados, e para muitos dos que trabalhavam nas fábricas, as maravilhas do sistema Taylor tinham um grande defeito: as candências infernais. As greves do têxtil na Carolina do Norte e em todas as minas de carvão do território; greve dos alfaiates e dos trabalhadores de peles em Nova Iorque, batalhas nas ruas, espancamentos, espionagem, provocações: tais eram os bastidores do Big Business mas só estava a par quem tomava parte.