HÁ DOIS CAMPEONATOS DO MUNDO EM CURSO, AFINAL, por JÚLIO MARQUES MOTA

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Depois do texto sobre o campeonato do Mundo com o título Brasileiros, abaixo o Campeonato do Mundo da FIFA  enviado para o blog interessou-me ver a ligação se existe entre o que se passa no Brasil  e o que se passa  na Europa.

O texto é  em si-mesmo bem claro quando afirma:

Não se poderia aconselhar muita coisa aos Brasileiros sobretudo para se acalmarem, e mesmo de não aproveitarem a excepcional visibilidade mundial que lhes oferece o campeonato do mundo. Não há estritamente nenhuma razão para que uma competição de futebol passe à frente sobre todas  as urgências sociais e políticas de um país, por maioria de razão se a sua organização puser em relevo injustificáveis prioridades dos poderes públicos, a permanência da corrupção, a indecência das despesas consentidas ou a voracidade da FIFA. (…)

Que o façam  por si mesmos, primeiramente. Também o farão para nós, por todos nós: nós, por exemplo, os europeus que capitulamos face ao dogma  da austeridade, da predação das riquezas e dos interesses dos lobis financeiros, nós que nos abandonamos ao  fatalismo ou ao cinismo ao mesmo tempo que à  impotência política. Que eles sobretudo não se abstenham. .

Que eles o façam,  de um  ponto de vista mais egoísta,  para que nós, amantes do futebol, que  nos deveríamos  interrogar que fatalidade  nos obriga a submetermo-nos  a um campeonato do mundo  que se tornou num enorme circo, impondo a exclusividade dos seus patrocinadores no espaço público e em que necessitam de  uma implantação da polícia e do exército como se trate de um pais em guerra.  Para nós que  tolerámos que a FIFA obrigue a construir desmedidas infra-estruturas financiadas pelos  recursos públicos para, logo a seguir,  vir a  capturar a maior parte dos lucros, vendendo o “seu” show a canais de televisão a pagar e que nós  mesmos devemos pagar  para ter acesso ao espectáculo, que atribua  a competição em  circunstâncias duvidosas para os satisfazer seus próprios interesses, se governa com a transparência de uma máfia, nós toleramos tudo isto.

Tudo bem claro. Percebemos bem a reacção do povo brasileiro face aos gastos monstruosos que serão forçados a pagar. Temos exemplos disso em Portugal, ou será que se esquecem os estádios de Leiria, de Aveiro, de Faro-Olhão? E os senhores do futebol, os seus donos, os seus gestores, pensam na sua organização apenas como um meio para desse espectáculo de multidões sacarem mais lucros e quanto ao resto nada mais lhes interessa. Lembram-se das primeiras reacções do povo brasileiro à realidade dos muitos milhões gastos em seu nome? Lembram-se das declarações dos responsáveis pela organização, para quem o que o povo brasileiro merecia era um pontapé bem dado no traseiro, lembram-se?  Ao contrário, lembram-se das reacções dignas de uma Presidente enfiada ela nesta dinâmica do campeonato do mundo que ela não criou mas onde por destino se instalou, lembram-se?  Ninguém no mundo do futebol foi demitido face às diversas tomadas de posição então assumidas e a Presidente assume agora as contradições que a tudo isto estão subjacentes.

Mas é aqui que me surgem as interrogações e que de resto o texto  citado levanta: a luta é a mesma, aqui, na Europa, e lá fora, no Brasil,  onde a bola rebola no país de cores mil. Qual o elo então, quando nos era mostrado que a opção Brasil para a realização do campeonato do Mundo, assim como os Jogos Olímpicos, tinha a ver com a força dos países emergentes, força essa que o tornava menos vítima do rebentar da crise dita de créditos subprime, dita depois de  crise dos défices,  dita depois de crise da dívida soberana acumulada, dita depois crise das balanças correntes, crise esta cujo estalar se iniciou nos Estados Unidos  e para a Europa se veio rapidamente a espalhar?

Se a nossa posição está certa de que a crise não é puramente financeira, ou se o é, é somente na aparência e por ser apenas  por essa via que a crise rebentou, se a nossa posição está certa de que a crise é uma crise da economia como um todo, da economia global e com predominância para a economia real, então os efeitos do sucesso do Presidente Lula e que justificaram a realização do Campeonato do Mundo do Brasil estar-se-iam a esfumar e os sinais da crise começariam a aparecer violentamente no Brasil e não apenas de forma larvar, por uma forma ou por outra, como um reflexo da crise global  e das suas especificidades no Brasil.

A globalização não perdoa é isso mesmo, é a violência instalada pela lógica absoluta do poder dado aos mercados, e são agora os mecanismos económicos  desta violência instalada no Brasil que nos passaram a interessar. Sugiro pois aos leitores que leiam  o nosso segundo texto ligado especificamente a esta problemática,  um texto longo de Pierre Salama mas didacticamente espantoso, que tem por título Financeirização no Brasil : « um tigre de papel, com dentes atómicos?  .

Outros textos se lhe seguirão e poderão assim acompanhar dois campeonatos mundiais, primeiro, o campeonato do mundo de futebol realizado em campos enquadrados, policiados, fotografados ao milímetro, com uns penalties pelo meio arranjados, com polícia montada por tudo o que é sitio passível de local de distúrbio poder ser qualificado, e em segundo, podem acompanhar um outro campeonato, o da globalização, mundial também ele, mas analisado aqui, nos nossos textos seleccionados, por aquilo que se desenrola no Brasil à medida que a outra bola rebola nesse país de cores mil que é o Brasil. E boa leitura.

 

Coimbra, 14 de Junho de 2014

Júlio Marques Mota

 

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