POESIA AO AMANHECER – 465 – por Manuel Simões

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RUY ESPINHEIRA FILHO

                                                  ( 1942 )

 

            ELEGIA

 

            Não abram esta janela.

            Não afastem estas cortinas.

            Nesta sala os amigos mortos

            estão bebendo a sua cerveja.

 

            Uma voz há muito perdida

            (só os meus ouvidos a ouvem)

            chama do fundo da infância

            e eu me sinto a sangrar.

 

            Pousa uma garoa antiga

            nos meus cabelos, e brilha.

            A criança brinca com um martelo

            que cai sobre o meu coração.

 

            Tanta coisa silenciada!

            O olhar, turvo, passeia

            pelo quintal, onde só há

            a infância alheia

            e o vento.

            (de “Poesia Reunida e Inéditos”)

Poeta, romancista e jornalista. Da sua obra poética: “Heléboro” (1974), “Julgado do Vento” (1979), “As sombras luminosas” (1981), “A canção de Beatriz e outros poemas” (1990), “Memória da Chuva” (1996).

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