A tarde estava pardacenta, apesar de ser Abril. Uma névoa baça envolvia a cidade e penetrava húmida e fria nas gentes que atravessavam as ruas, agasalhando os corpos, segurando a mente cabisbaixa.
A consulta acabara cedo. Ela ajudara-o a atravessar a rua na passadeira. Os automobilistas pararam generosamente perante a bengala. Sempre assim é. Esperam tão calmamente que não se sabe se é por solidariedade se é por receio de lhe cair em cima tal sorte. Hoje sou eu, amanhã serás tu.
Ele comprou o jornal. Ambos se sentaram na confeitaria que lhes era tão familiar. Ali tomaram a meia de leite e a chávena de chá earl grey do costume. Enquanto ele ficou a ler, foi ela comprar o café, perto da Casa da Música.
Ao sair, logo vem ao seu encontro uma rapariga de tal modo suja e de cara tão enfarruscada que mais parecia uma máscara de Carnaval. Um zombie. Adivinhava-se por baixo da sujidade uma cara muito bonita de olhos pretos muito rasgados, cabelos negros e um corpo elegante.
-Oiça-me, eu durmo ali no chão.
-Deixa-me, não tenho nada para te dar.
-Não quero que me dê nada, só quero que me oiça.
De pé atrás, pela desconfiança, ela recuou e entrou numa loja. Comprou umas bananas maduras, meteu-as num saco e deu-as à rapariga que, a resmungar e sem agradecer, atravessou a rua e foi ter com um pequeno grupo com quem as repartiu. Ficou contente por saber que lhes deu algum prazer.
Mais à frente, no passeio, dois cães, de olhar muito triste, um pequenito, outro maior, metidos em cobertores imundos, presos por uma guita a um poste eléctrico. O dono estendia a mão, encostado à parede, meio atordoado da droga ou da fome. Havia um buraco no cobertor, uma lura, um pouco mais larga e comprida, reservada ao dono, que pela magreza ocupava pouco espaço.
Nos semáforos, quando passava a vermelho, uma velhota, tão curvada que quase dava com o nariz nos joelhos, abeirava-se dos carros que paravam, atravessando a rua na intermitência das luzes, na expectativa de uma pequena moeda que raramente caía.
Ao passar em frente à Casa da Música ouvia-se uns acordes melódicos. Àquela hora só poderia ser algum ensaio, mas eram notas de beleza no meio de tanta fealdade.
Ela comprou o café e regressou à confeitaria onde ele a esperava.
Pelo caminho encontrou de novo a rapariga. Andava com mais dois a procurar priscas de cigarros nos cestos do lixo.
Reconheceu-a.
-Oiça-me, só quero que me oiça.
Ela continuou a andar, ignorando-a.
Saltou-lhe da memória a atmosfera londrina do East End e White Chapel, vultos de Dickens mergulhados no nevoeiro ou nas sombras da noite, vultos da miséria de Victor Hugo. Famintos, prostitutas, na rotina das ruas do tempo. As “duas nações” distintas de Disraeli, de costas voltadas uma para a outra. Sempre a escuridão dos becos e a luz ofuscante dos boulevards.
Na cabeça, o resto do dia, um turbilhão de ideias e sentimentos de culpa, a consciência mais pesada ainda pelo alívio de meia dúzia de bananas.
Lentamente e a custo, o desejo de esquecer foi apagando as imagens a preto e branco.
Aquela tarde pardacenta de Abril deixou apenas no ar a cor da leveza das notas da Casa da Música.