Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Thomas Piketty e os jovens marxistas sobre o disparar da desigualdade
Timothy Shenk | The Nation | 5 de Maio de 2014
Thomas Piketty and Millennial Marxists on the Scourge of Inequality
Parte II
(continuação)
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Muitos, especialmente na direita, não aceitavam o termo. Eles alegaram que “capitalismo” era um termo ou demasiado preciso ou não suficientemente preciso ou ainda que lhe estava posta uma ênfase exagerada sobre o papel dos capitalistas num sistema que era maior do que qualquer grupo, não importando qual o seu poder . Outros aceitavam a palavra capitalismo mas deram-lhe um novo significado. Por volta de 1918, uma estimativa alemã registou mais de 100 maneiras de definir o capitalismo. Mesmo assim, ainda era uma raridade em comparação com a década de 1930, quando a grande depressão trouxe o capitalismo — frequentemente assumiu-se que este estava a entrar nos seus dias finais — para a ribalta.
No século XX, o capitalismo muitas vezes parecia menos o nome para um modo específico de produção do que de uma forma mais geral de descrever um mundo moderno perpetuamente a girar em torno de si-mesmo. Com a sociedade dominada por mudanças que eram rotineiramente caracterizadas como sem precedentes na história, o capitalismo apareceu enquanto tal como uma muito feliz designação para caracterizar uma nova ordem. Ainda aqui os marxistas nunca abandonaram a sua reivindicação de que eram eles o responsáveis do termo . Como um dos tradutores de Marx observou em 1898, “foram os marxistas que forçaram a discussão da questão, e são eles que são os mais activos em mantê-la.” O economista alemão Werner Sombart reiterou este ponto de vista alguns anos mais tarde, quando sublinhou: “o conceito de capitalismo e ainda mais claramente o próprio termo pode ser atribuído principalmente aos escritos dos teóricos socialistas. Na verdade permaneceu um dos conceitos chaves do socialismo até ao presente momento.”
Dúvidas sobre a utilidade analítica do termo capitalismo, no entanto, não estavam confinadas à direita. Como o historiador Howard Brick tem demonstrado, ao longo de grande parte do século XX um contingente substancial de pensadores da esquerda acreditava que o capitalismo era um processo da condução para um modo mais avançado de organização económica e social, ou que a conversão a uma ordem pós capitalista já tinha ocorrido
Esta perspectiva gozou de grande notoriedade no rescaldo da segunda guerra mundial, um período visto hoje como a era de ouro do capitalismo, mas que na época também foi retratada como o nascimento do pós-capitalismo. Os Estados dotados de novos poderes como vencedores da guerra pareciam estar a comportar-se como se estivessem à beira de desvendar uma via para além do capitalismo e do socialismo, onde o bem da sociedade predominaria sobre as exigências da economia. Os marxistas simpatizaram e intelectualmente também especularem ao longo destas linhas de análise antes do início da guerra fria em que endureceram as suas posições anteriormente fluidas. Os universitários continuaram o debate na década de 1960 quando os proponentes da teoria da convergência argumentaram que ambos os lados da cortina de ferro se estavam a mover em direcção a um modelo comum onde a eficiência burocrática superou o confronto das ideologias. .
Com o enigma da prosperidade resolvido, muitos na esquerda assumiram que tinha chegado o momento de abordar questões mais importantes: eliminar a pobreza, ampliar os direitos civis, proteger o ambiente e uma maior preocupação existencial de como consolidar a individualidade numa sociedade burocratizada. Não admira que os radicais na década de 1960 podiam insistir que o “capitalismo” não era suficientemente grande para poder assimilar a sua crítica. Paul Potter, ex-presidente de Students for a Democratic Society, queixou-se de que a palavra capitalismo fazia lembrar imagens de uma velha esquerda atolada nas batalhas arcaicas da Grande Depressão. Para Potter, “o sistema” era mais vasto do que o capitalismo, e a “rejeição da antiga terminologia” era “parte da nova esperança para uma mudança radical”.
Na década de 1970, a visão duma sociedade para além do capitalismo ou do socialismo desapareceu conjuntamente com as taxas de forte crescimento que faziam dela uma hipótese plausível. As questões económicas regressaram com uma ferocidade tal que fizeram com que os profetas de pós-capitalismo se sentissem enganados sobre os obstáculos que se enfrentavam e uma vez imposto o imponente e detalhado esquema pelos teóricos sociais como Talcott Parsons acabou por parecer pouco motivador quando em contraste com a clareza sem remorsos, oferecida por uma ascendente profissão de economia e do seu corpo de matemáticos. O capitalismo, agora despojado da sua conotação explicitamente socialista, tornou-se um produto básico da retórica de esquerda e de direita. No final da década, era mais fácil negar a existência da sociedade — como Margaret Thatcher o fez com a sua declaração famosa TINA — do que contestar a proeminência do termo capitalismo como uma categoria analítica.
Os socialistas podem ter desfrutado a visão do triunfo de uma ideia que eles tinham inventado se não tivessem estado ocupados no combate contra a dissidência crescente dentro das suas próprias fileiras. Estas dificuldades pareciam controláveis na década de 1970, quando os governos ocidentais tinham muitos incêndios na própria casa para apagar com os seus próprios meios. Dez anos mais tarde, os capitalistas tinham retomado as suas bases enquanto o projecto socialista continuou a deteriorar-se. A ideia de Francis Fukuyama para o desfecho da história estava ainda no horizonte, mas os hábitos de pensamento que iriam reforçar a sua tese já tinham criado raízes profundas. O marxismo foi construído sobre a fé na revolução, mas a fé na revolução a Ocidente parecia mais improvável do que nunca e na Europa Oriental a única revolução relativamente generalizada do continente tinha o marxismo na sua mira. O colapso dos governos comunistas que começou em 1989 revelou que a história tinha preparado uma última torsão com a faca : não houve nada que fizesse mais para reforçar a aceitação do capitalismo que a cessação do movimento que tinha inventado o próprio conceito.
Até muito recentemente, era como se a história tivesse acabado . Não que a oposição ao capitalismo tenha cessado depois da queda da República Democrática da Alemanha e da URSS. Havia ainda os governos nominalmente empenhados no comunismo e os partidos de esquerda não-marxista continuaram a ganhar eleições. Nos Estados Unidos, a campanha contra a globalização ganhou a atenção nacional em 1999, quando os activistas entraram em confronto com a polícia de Seattle durante uma reunião da Organização Mundial do Comércio. Mas para grandes áreas de esquerda e direita, estes confrontos eram vistos como remoinhos pouco profundos a correrem contra a maré irresistível do que cada vez mais era referido como sendo o “capitalismo global”.
Os marxistas tinham pintado um retrato intimidante do inimigo: um sistema totalizante regido pela disciplina de ferro dos mercados livres, a assimilar tudo o podia, destruindo tudo o resto. Quando a derrocada do capitalismo foi extirpada da sua narrativa principal, o único conselho que os marxistas poderiam oferecer era uma estóica resistência contra o desespero e ao mesmo tempo a esperança de que as contradições do capital tornariam eventualmente a ideia da catástrofe de há muito aguardada numa realidade . Nas palavras de Perry Anderson, um estadista veterano do marxismo anglo-americano, a esquerda necessitava de um “realismo intransigente” que nunca iria “dar crédito às ilusões de que o sistema se está a mover numa direcção constantemente progressista .” Isso significava, acima de tudo, manter uma atenção crítica inabalável no capitalismo. “Somente na evolução desta ordem,” argumentava Perry Anderson , ” poderiam estar os segredos de uma outra ordem .”
Os desastres de 2008 não foram completamente o que os marxistas esperavam que a lógica interna do capitalismo viesse a oferecer — a forma particular que a crise financeira assumiu apanhou quase toda a gente de surpresa — mas eles andaram muito por perto. Na corrida às explicações que se lhe seguiu, o punhado de marxistas que tinham escrito cuidadosamente sobre economia durante décadas (David Harvey, Robert Brenner e Giovanni Arrighi em particular) ganharam credibilidade por terem, pelo menos, declarado que se estava a germinar uma crise. Na verdade, eles tinham escrito estas previsões desde há já algum tempo, e muitos marxistas tinham anunciando a morte iminente do capitalismo há mais tempo ainda. Deste modo, quando em contraste com o consenso de pré-crise emitido pelos peritos que deveriam saber sobre o que estavam a falar — economistas, políticos e outras importantes pessoas—o pessimismo teimoso aparecia como um apoio correctivo. Um pequeno mas sério renascimento do marxismo foi o que se verificou a seguir. O capitalismo estava posto em questão, de novo, e o choque da emergência tinha abanado fortemente o seu antagonista previamente moribundo e trouxe-o de volta à vida, se não como um movimento político, então pelo menos como um movimento intelectual.
Os ícones do ressurgir do marxismo tinham mais do que gente de barba cor de cinza mas nos Estados Unidos os seguidores mais entusiastas surgiram a partir das fileiras dos jovens e dos intelectuais. Assim nasceu uma das características mais curiosas da cena intelectual contemporânea: o marxismo dos jovens no pós crise de 2008. Mesmo entre aqueles que permaneceram cépticos sobre o marxismo, ou apenas apáticos (certamente a maioria), 2008 assumiu o status que 1989 teve para os mais velhos. Embora a crise financeira e as suas consequências não tenham as mesmas ramificações globais como o colapso do comunismo, eles tiveram um impacto muito maior nos Estados Unidos —cujos danos incidiram desproporcionalmente sobre os jovens. A desintegração do bloco soviético afectou outras pessoas de bem longe; a Grande Recessão aconteceu aqui. As crianças dos anos de Clinton, que poderiam lembrar-se dos seus pais a extasiarem-se ao falar sobre os booms tecnológicos, estão a entrar agora numa nova economia com o mercado de trabalho a ser o mais fraco desde a década de 1930, depois de se terem eles mesmos sobrecarregado invulgarmente com altos níveis de dívida enquanto estudantes. Esta era uma audiência prontinha para leituras sobre as contradições do capitalismo.
Houve outras, menos óbvias faíscas para reacender o interesse pelo marxismo. Entre dezenas delas , a União Soviética era uma memória distante, se é que era sequer lembrada, libertando os socialistas do fardo de terem de explicar as realidades monótonos da vida sob o comunismo. Muitos deles tinham acabado de deixar a faculdade, carregando com eles memórias recentes de um mundo académico que se torna um reduto caloroso e sincero do marxismo. Alguns destes intelectuais tinham crescido nas disputas sobre o pós-modernismo e sobre o fim da história e tinham-se delas cansado quando foram estas disputas e estes temas que eles tinham absorvido durante a maior parte das suas vidas. O marxismo, que não caiu em nenhum destes campos, por comparação até parecia jovem. Aqueles que menos se tinham disposto a meditar sobre o mundo histórico –congratularam-se com a oportunidade de se enaltecer o trabalho e o trabalhador, temas que antes pareciam estar fora de moda. Os sindicatos tinham sido um dos pilares da ordem do NEW DEAL tornando-se em alvos convidativos para os baby boomers os olharem e se revoltarem. Um meio-século de regressão política transformou-os em equipas fracas com necessidade de aliados e teria sido mais fácil considerar o trabalho não como a província dos homens brancos de meia idade que assistem a reuniões de AFL-CIO mas como uma questão de significado universal. O empenhamento era mais ligeiro mas seria mais fácil de partilhar, talvez com um post no Facebook.
(continua)
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Texto disponível em The Nation, cujo endereço electrónico é o seguinte:
http://www.thenation.com/article/179337/thomas-piketty-and-millennial-marxists-scourge-inequality
Timothy Shenk, a doctoral student in history at Columbia University, is the author of Maurice Dobb: Political Economist.
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