GEORGE ORWELL – UM HOMEM DO SÉCULO XX – O INÍCIO – por João Machado

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George Orwell foi o pseudónimo literário escolhido por Eric Arthur Blair, nascido em Motihari, no estado do Bihar, na Índia, em 25 de Junho de 1903, fará portanto 111 anos na próxima quarta-feira. Era filho de Richard Walmesley Blair, e de Mabel Limouzin Blair. Pouco tempo depois, a mãe trouxe-o, com a irmã mais velha, para Inglaterra, onde Eric Blair ficou até 1921, a fazer os seus estudos, tendo chegado a frequentar Eton, uma das escolas mais famosas do país. Ao longo dos seus estudos pôde notar as diferenças entre os alunos provenientes de famílias mais abastadas, e os filhos de pais com menos recursos como era o seu caso. Só mais tarde na sua vida é que teve conhecimento de benefícios de que terá usufruído, no que respeita ao pagamento de propinas, para poder frequentar boas escolas. Terá sido um aluno modesto, conseguindo passar os exames com alguma dificuldade, mas com muita participação nas actividades nas actividades circum-escolares. Desde cedo que manifestou vontade em escrever. Na escola entretanto, participou na produção de várias revistas e jornais. Ainda frequentou aulas preparatórias para a admissão à Universidade, com êxito, mas teve de desistir, por a sua família não possuir os recursos necessários

Tendo o que alguns dos seus próximos qualificaram como uma ideia romântica do Oriente, alistou-se na polícia imperial, tendo sido colocado na Birmânia, onde ainda vivia uma avó materna. Embarcou em 1922, com a idade de 19 anos. Esteve naquele país cinco anos, vindo posteriormente a descrever a experiência que ali teve em obras como o romance Burmese Days, e os ensaios A Hanging e Shooting an Elephant. Em 1927, quase a acabar a sua comissão de serviço, contraiu a febre do dengue, tendo sido forçado a regressar a Inglaterra alguns meses mais cedo do que o previsto.

De Shooting an Elephant, ensaio publicado em 1936, traduzimos o passo seguinte (tradução nossa). Após descrever as tensões entre os europeus e os naturais birmaneses, escreve:

Tudo aquilo causava-me perplexidade e perturbação. Naquela altura já tinha aceitado a ideia de que o imperialismo era uma coisa má e que quanto mais cedo despachasse o trabalho e saísse tanto melhor. Teoricamente – e secretamente, claro – estava totalmente do lado dos birmaneses e contra os seus opressores, os Britânicos. Quanto ao meu trabalho, detestava-o de uma maneira que não consigo descrever. Num trabalho daqueles vê-se de perto o lado sujo do império. Os desventurados prisioneiros amontoados nas jaulas malcheirosas de segurança, os rostos cinzentos, bovinos dos condenados a longas penas, as nádegas cicatrizadas dos homens chicoteados com canas de bambu – tudo isto me oprimia com um sentimento intolerável de culpa. Mas não conseguia enquadrar as coisas numa perspectiva razoável. Eu era novo, com uma educação deficiente, e tinha de reflectir sobre os meus problemas no silêncio absoluto imposto a todos os ingleses no Oriente. Nem tinha percebido que o império britânico está a morrer, e ainda menos que ele é bastante melhor do que os impérios mais recentes que o vão suplantar.

Parece claro que a experiência na Birmânia marcou profundamente o jovem Eric Blair. Ao regressar a Inglaterra desistiu da carreira na polícia imperial e optou pela escrita. Notando que a opressão também existia em Inglaterra, contactou-a de perto, procurando um rumo para a sua vida como escritor. Mais tarde, em 1946, publicou outro escrito, Why I Write, no qual podemos ler (tradução nossa):

Primeiro passei cinco anos numa profissão inadequada (a polícia imperial indiana, na Birmânia), e a seguir suportei a pobreza e o sentimento de falhanço. Isto aumentou a minha aversão natural pela autoridade e, pela primeira vez, tornou-me plenamente consciente da existência das classes trabalhadoras. O trabalho na Birmânia já me tinha feito adquirir alguma compreensão sobre a natureza do imperialismo: mas estas experiências não tinham sido suficientes para me dotar com uma orientação política acurada. Então vieram Hitler, a Guerra Civil de Espanha, etc.

Durante alguns anos, Eric Blair, viveu em Paris e Londres, umas vezes com o apoio da família, outras ganhando a vida com trabalhos precários. Viveu muitas vezes em pensões baratas e terá chegado a dormir em dormitórios para vagabundos, e mesmo na rua. Familiarizou-se assim com a vida dos pobres.  Em 1928 publica vários artigos em jornais de ambas as cidades, como o Monde, um jornal político e literário, ou G. K. Weekly, um semanário dirigido por Chesterton. Em 1929, em Paris, caiu gravemente doente, e teve de ser hospitalizado. A experiência serviu de base ao ensaio How the Poor Die, só publicado em 1946.

Entretanto, prosseguiu com a redacção da sua obra de maior fôlego, Down and Out in Paris and London, contando a sua experiência de vida entre os pobres e desfavorecidos. Tanto a edição da primeira parte, só sobre Paris, como o livro completo, sobre as duas cidades, sofreram a rejeição de vários editores, apesar de reconhecerem os seus méritos. Só conseguiu a publicação em 1933, por Victor Gollancz, Ltd., uma editora especializada em obras de cariz socialista e radical. É então que Eric Arthur Blair adopta, pela primeira, o pseudónimo George Orwell, para não embaraçar a família com a sua experiência como vagabundo. E continuou com ele, em toda a sua vida literária.

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