Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Thomas Piketty e os jovens marxistas sobre o disparar da desigualdade
Timothy Shenk | The Nation | 5 de Maio de 2014
Thomas Piketty and Millennial Marxists on the Scourge of Inequality
Parte III
(CONTINUAÇÃO)
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As mudanças na política americana também provocaram uma guinada para a esquerda. Barack Obama deve a sua eleição ao apoio da camada dos abaixo dos 30 anos mas as visões de seus apoiantes jovens — qualquer coisa equivalente a um segundo Camelot, mas com mais Beyoncé — foram consumadas. Uma vez que Timothy Geithner, Rahm Emanuel e Hillary Clinton se mostraram decepcionantes substitutos, novos pontos de apoio apareceram pelas expectativas que Obama tinha despertado. O itinerário político do arquétipo dos jovens marxistas pode ter começado com o voluntariado para a campanha de 2008 de Obama e juntando-se a uma dos enormes multidões que se aglomeravam nos seus enormes comícios de fim de campanha pelos Estados e no período que antecedeu as eleições; em seguida, saltando dois anos para a frente, assistindo ao programa de Jon Stewart e Stephen Colbert “Rally to Restore Sanity and/or Fear,” uma versão satírica de “Esperança e mudança” feita para as mesmas faixas etárias ; e, finalmente, no Outono de 2011, uma viagem ao parque Zuccotti ou em algum outro reduto desalinhado de Occupy Wall Street.
O núcleo anarquista de Occupy não aderiu à onda de apoio a Obama, mas o que queriam os conservadores era que estes fossem menos importantes do que os Occupy acabaram por representar para um enormíssimo número de pessoas que foram atraídos para o movimento mas que nunca puseram os pés num dos seus lugares de contestação. As discussões sobre a desigualdade económica tinham estado relativamente apagadas durante décadas até que, de repente, “Somos os 99 por cento!” tornou-se o grito de guerra mais popular desde a expressão “Yes we can”. Que alguns milhares de pessoas espalhadas por todo o país se pudessem transformar no receptáculo das esperanças depositadas desde há três anos antes num recém-eleito presidente dos Estados Unidos foi surpreendente. E isto também foi, talvez inevitavelmente, uma situação efémera.
A desigualdade desceu na atenção dos media , quando os manifestantes foram expulsos do Zuccotti Park. Um inabitual reconhecimento tinha estimulado os seus activistas e as tácticas associadas com os Occupy e espalhou-se muito para além dos acampamentos dos Occupy , mas tudo isto expressava que se tratava apenas de pedaços de uma bem maior transformação que brevemente parecia estar ao seu alcance. . Contudo os protestos tiveram uma grande resistência, e surpreendente, deixaram um grande legado. As multidões que se reuniram no Zuccotti Park não se estavam em marcha para fazer avançar as carreiras de escritores jovens, ambiciosos, radicais, mas havia aí mais do que alguns que cabem nesta descrição. Camuflados pela autoridade moral dos Occupy e ligados por redes construídas em conjunto durante esses dias agitados em 2011, um contingente de jovens jornalistas falou através de vias de divulgação quer novas quer já há muito estabelecidas, todas elas com base na cidade de Nova York — Jacobin, n+1, Dissent e, ocasionalmente, esta revista, The Nation, entre outros — começaram a fazer carreira como intelectuais marxistas. Desde 2008, as revistas mainstream desde a Time à Foreign Affairs tinham estado a especular se Marx poderia ter aqui a sua vingança (esta última revista com um artigo de divulgação de Fukuyama publicitando a mais recente revelação concedida por ele depois de uma consulta aos oráculos da história de Fukuyama). Agora, parecia, tinham chegado os herdeiros de Marx e estes comportavam-se naturalmente com os media.
Há aqui uma forte dose de ironia, porque os marxistas eram inicialmente alguns dos maiores cépticos sobre os Occupy. Mas os mais sagazes entre eles rapidamente vislumbraram uma oportunidade e fizeram-se como que porta-vozes do movimento. Não o movimento como ele era, mas como eles pensaram que deveria ser: uma expressão de ressentimento da classe trabalhadora contra o capitalismo e a classe dominante. As posições eram radicais, mas a linguagem era mais compreensível para os observadores da ideologia dominante do que muito do que estava a ser transmitido e que se passava no parque Zuccotti.
Esta nova coorte de marxistas prosperou nas peculiaridades da ecologia contemporânea dos media . Apesar do cepticismo dos seus anciãos tecnologicamente menos inebriados, fizeram da web um mecanismo eficaz para a divulgação das suas ideias. Graças à Internet, pequenos magazines podem obter uma audiência global se eles souberam captá-las e mantê-las com textos fortemente apelativos. É uma tecnologia adequada para assuntos que apelam aos apaixonadamente seguidores dedicados que estão espalhados por grandes distâncias, quer se fale de marxismo ou de política nacional (daí, ou seja de Político) ou mesmo de desportos. (Grantland) ou de vídeos sobre gatos adoráveis (praticamente tudo o resto na Internet não porno ). E é perfeito para quem aspira a fazedores de instituições a procurarem criar os seus próprios fóruns, em vez de subir até ao topo de uma organização já existente; é bem melhor se houver uma ideologia radical que leve a distinguir o novo público relativamente a outros públicos homólogos já constituídos (e, implicitamente, com este último a ser indigesto/troglodita/a morrer). Depois de um longo exílio de debate público, mesmo os convencionais grupos de marxistas parecem originais e ousados, para aqueles que não têm nenhuma base de marxismo como apoio, o que parece estar a acontecer à esmagadora maioria dos jornalistas americanos.
Combine-se tudo isso com algum apreço por olharmos para o nosso umbigo e com os acasos da geografia — política de lado, escritores de Nova York são escritores de Nova York, e eles gostam de falar sobre os outros — e as peças estão no lugar para os artigos que irão reafirmar o renascimento do marxismo que se tinha transformado num género menor no ano passado. Como um peixe-voador montando temporariamente num balão e a voar distancias bem maiores o revivalismo marxista pode parecer mais imponente do que o é. Para um determinado tipo de leitor, no entanto, é fácil esquecer a ilusão, quando há tantos tweets excitantes para escolher
Mais importantes, porém, são os contornos da compreensão sobre o capitalismo que foram estabelecidos há já décadas. Aqueles que nasceram no Ocidente desde os anos 70 são a primeira geração a crescer e tendo o capitalismo como o centro natural de debate económico. A questão tem sido a de se saber qual a melhor forma de corrigir o que vai mal no capitalismo, não se deve abandoná-lo completamente. Esta ideia funcionou em favor do status quo antes de 2008. Os impulsos reformistas sobreviveram, mas com uma redução forte de horizontes. Mesmo as peças artisticamente mais admiráveis do saber tecnocrático, desde o apoiar a criação do crédito de imposto sobre o rendimento até à racionalização do governo, enquanto se elogiam os seus próprios méritos, eram dificilmente visionárias.
Após a crise financeira, no entanto, parecia que os capitalistas tinham sido reprovados num teste que eles próprios tinham estabelecido. O marxismo pode ter falhado como um projecto político, mas as condições estão definidas para a sua recuperação como crítica, quer pelo que diferem do consenso quer pelo que afirmam . É fácil trocar um tipo de economicismo por outro. Tal como um negativo fotográfico, a crítica marxista pegou no que era luz na visão de mundo capitalista e tornou-o escuridão. Os contornos da imagem são os mesmos , mas as sombras estão invertidas. A imagem daí resultante é espantosa — definitivamente vale a pena ser colocada no Instagram.
Quais são as ideias por detrás deste despertar intelectual? Em certa medida, é muito cedo para o poder dizer. Estimulantes empenhamentos críticos podem ser publicados no mesmo jornal juntamente com o marxismo de andar a pintar números, de trazer por casa.. Num antigo editorial de Jacobin escrevia-se , em 2011, que se tinha tornado “claro para todos que Obama e os democratas em geral, tinham-se feito eles próprios os instrumentos de uma enérgica e revanchista classe dominante que se aproveitou de um momento de transformações económicas e de mal-estar na classe trabalhadora para reverter as escassas mas desde há muito odiadas protecções sociais do New Deal e da Great Society — uma ideia que é agora, na verdade, bem clara para quase toda a gente e em qualquer lugar. Mas apenas algumas páginas depois, o economista australiano Mike Beggs tinha considerado a maior parte da ciência económica marxista como uma tentativa fútil de respirar a vida num “Marx zombi”
(continua)
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Texto disponível em The Nation, cujo endereço electrónico é o seguinte:
http://www.thenation.com/article/179337/thomas-piketty-and-millennial-marxists-scourge-inequality
Timothy Shenk, a doctoral student in history at Columbia University, is the author of Maurice Dobb: Political Economist.
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Para ler a Parte II deste texto de Timothy Shenk, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:


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