FINANCEIRIZAÇÃO NO BRASIL: “UM TIGRE DE PAPEL, COM DENTES ATÓMICOS”? – por PIERRE SALAMA

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Commons Wikipedia

Financeirização no Brasil: «um tigre de papel, com dentes atómicos»?

Pierre Salama, Attac, 23 de Maio de 2014

Financiarisation au Brésil : « un tigre en papier, avec des dents atomiques » ?

Parte VI

(CONTINUAÇÃO)

B. Os limites da financeirização “feliz”: salários e empregos, os  amanhãs que desencantam

Como explicar a originalidade brasileira? Porque é que se observa um aumento dos salários e do emprego, enquanto que nos países avançados acontece o inverso? A financeirização “feliz” pode ela durar?

1. A desindustrialização afecta igualmente a composição da indústria e, assim sendo, afecta igualmente a procura de trabalho .

Os ramos de elevada e média intensidade tecnológica são os que, em geral, resistem menos à concorrência internacional (ver o conjunto dos gráficos abaixo, fonte Carta IEDI). Os ramos de baixa tecnologia resistem melhor. Os produtos fabricados nestes ramos são porém pouco portadores de futuro: de um lado, as exportações são pouco dinâmicas pelas razões que evocamos, por outro lado, os países onde os salários são mais fracos constituem eles verdadeiras “ameaças” à continuação da produção local, como se pode observar para o sector do vestuário.

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Como explicar então o aumento dos salários e do emprego no conjunto da economia?

Vários factores explicam o aumento dos salários e do emprego.

1 os mecanismos de indexação do salário mínimo à inflação passada e as taxas de crescimento do PIB conduzem a aumentos sensíveis e rápidos dos salários. Vimo-lo.

a) a oferta e a procura de trabalho conhecem uma evolução em tesoura. A oferta de trabalho é cada vez qualificada graças a um prolongamento da duração dos estudos, mesmo quando a qualidade do ensino deveria ser melhorada. Pelo contrário, a procura de trabalho é-o menos por duas razões: a indústria de transformação perde importância em termos relativos. O peso dos ramos caracterizados por um nível tecnológico baixo está relativamente em crescimento enquanto que os de elevada e de média-elevada tecnologia declinam relativamente. As empresas que utilizam técnicas pouco sofisticadas tendem a privilegiar os empregos que não são nada qualificados ou se o são, são pouco qualificados, ao inverso dos outros sectores .

b) o sector dos serviços e o comércio, sectores naturalmente protegidos da concorrência internacional, absorvem cada vez mais empregos e estes últimos, com exclusão de alguns ramos,, utilizam igualmente mais empregos pouco qualificados.

Resulta desta situação em “ tesoura” existente entre oferta e procura de empregos um processo de des-sindincalização e de desqualificação [21] cada vez mais marcada, os jovens ao sair da escola a não encontrarem suficientemente contratações à altura das suas supostas qualificações. Os empregos de acordo com o nível de escolaridade aumentam rapidamente para os que beneficiaram de 11 anos e mais de escolaridade, um pouco menos rapidamente para os que permaneceram na escola de 8 a 10 anos e sofrem uma regressão para os outros, como se pode ver no gráfico abaixo.

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Um assalariado qualificado que tem um emprego mas não corresponde à sua qualificação recebe um salário superior ao que teria tido se tivesse estado na escola menos anos, como se confirma no quadro seguinte, elaborado por Sonia Rocha a partir dos dados oficiais. As pessoas que têm tido mais anos de estudos em relação às que seguiram menos, ganham mais certamente, mas o rácio entre o rendimento dos primeiros e o dos segundos tende a diminuir entre 1997 e 2009, com excepção das mais elevadas fracções. O rácio: rendimentos das pessoas que seguiram 15 anos de estudos e mais sobre o rendimento das pessoas que andaram na escola 12 a 14 anos tende a aumentar em favor dos primeiros. A evolução é a mesma para a fracção 12 anos e mais em relação à fracção 8 anos a 11 anos (ver quadro abaixo).

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O aumento do salário mínimo, o funcionamento do mercado do trabalho caracterizado por esta situação de tesoura,  explicam então a redução das desigualdades de rendimentos (ver gráfico abaixo).

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(continua)

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[21] À saída da escola, os cada vez mais jovens encontram apenas empregos precários, a tempo parcial, nos  sectores afastados da sua especialização, ou ainda  empregos que não correspondem ao seu nível de qualificação, empregos estes que se situam  a um nível ligeiramente inferior ao correspondente  ao número de anos de estudos que fizeram. Contudo, a partir de certo limiar, quanto mais o número de anos de estudos é importante, menos forte é a probabilidade de não ser sindicalizado , ou ainda de ser desclassificado,,.

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Para ler a Parte V deste trabalho de Pierre Salama, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

FINANCEIRIZAÇÃO NO BRASIL: “UM TIGRE DE PAPEL, COM DENTES ATÓMICOS”? – por PIERRE SALAMA

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Para ler o original vá a:

https://france.attac.org/nos-publications/les-possibles/numero-3-printemps-2014/debats/article/financiarisation-au-bresil-un

 

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