SOBRE PIKETTY, SOBRE DESIGUALDADES NA REPARTIÇÃO DO RENDIMENTO, SOBRE NEOLIBERALISMO – NOVA SÉRIE – 5. THOMAS PIKETTY E OS JOVENS MARXISTAS SOBRE O DISPARAR DA DESIGUALDADE, por TIMOTHY SHENK

Falareconomia1

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Thomas Piketty e os jovens marxistas sobre o disparar da desigualdade

Timothy Shenk | The Nation | 5 de Maio de 2014

Thomas Piketty and Millennial Marxists on the Scourge of Inequality

Parte IV

(CONTINUAÇÃO)

A última edição de Jacobin  mostra uma partida ainda mais marcante relativamente à ortodoxia marxista, sob a forma de um editorial em que se defende  “o socialismo cyborg.” Escrito por Alyssa Battistoni, uma estudante de curso pós-graduação  em ciências políticas na Universidade de Yale, que se tem  posicionado  como a voz mais excitante  entre uma multidão,  a peça ( em conjunto com um ensaio escrito pelo  companheiro) expõe os começos de um socialismo que enfrenta até os desafios colocados pela crise ecológica e distancia-se do jornal a partir do que  do que Battistoni chama de  ” as críticas rápidas  do tipo  da versão  “é o capitalismo, oh, seu estúpido”. A sua  perspectiva pode ser reconciliada, após suficientes contorções, com os artigos  mais tradicionais dos marxistas  que formam o grosso do que a revista publica, em impressão  online. Mas não há nenhuma razão para que precise de o ser e é fácil imaginar o seu trabalho a deslocar-se  para  caminhos completamente diferentes.

Mais internamente consistentes são os livros que começaram agora a ser publicados.  O livro Cubed, de Zelinda Saval, um editor em n + 1 e uma activista do trabalho nos  seus 30 anos, é até agora o mais formidável do lote. Saval rotula-o como uma “história social” sobre o escritório, mas isso é um pouco de propaganda enganosa. Pelo menos para os estudiosos, a descrição sugere uma investigação estatística detalhada, com base na profunda análise feita na base dos  arquivos, caso contrário teriam ficado esquecidos para a história. As fontes primárias de Saval, pelo contrário, são muitas vezes culturais; escritores, arquitectos, cineastas, designers e teóricos sobre o trabalho em  escritório recebem tanta atenção como os próprios trabalhadores.

Cubed, no entanto, está  menos preocupado  com as pessoas do que  com uma promessa que lhes foi feita: que aqueles que passaram as suas vidas em secretárias e a disputarem-se o papel teriam tido uma vida de trabalho mais dignificada  do que a classe operária tradicional — que o escritório, em suma, não era apenas uma fábrica de colarinho branco. E outra vez, Saval mostra os empregadores a quebrar essa promessa. Por fim,  ele apresenta-nos  uma análise admiravelmente escrita  e feita  sobre  uma questão muito antiga: porque é que não há socialismo nos Estados Unidos? De acordo com Saval, parte da resposta tem a ver   com  o fascínio de um estilo de vida do colarinho branco que prende as suas vítimas em espaços de trabalho isolados e frustrou  a organização  dos  sindicatos. O livro Cubed  é direccionado  a um público  do tipo mainstream e Saval minimiza o radicalismo da sua tese, mas isto é para aqueles  que sabem para onde olhar poderem aqui   reconhecer uma referência ao “tempo homogéneo e vazio” como um piscar de olhos a Walter Benjamin, mesmo que ele não venha entre  aspas.

Como uma parte substancial dos escritos produzidos pelos jovens  marxistas saídos da crise , Cubed inova pouco intelectualmente. Nas mãos de Saval, o escritório torna-se um site onde se ilustra as mudanças no  capitalismo, o  que muitos outros já demonstraram, não para escrever uma história que reveja esta mais  larga imagem . Embora as secções do livro brilhem — especialmente quando ele discute o  género no local de trabalho — elas nunca são algo de muito grande . A influência de Wright Mills e do seu clássico White Collar  de 1951. é generalizada, mas nem sempre para melhor. Mesmo a dicotomia entre fábrica e escritório, tão fundamental para a análise do Saval, parece mais um produto do tempo do Mills do que nosso tempo, quando ambas as formas de emprego estão a dar lugar a um crescente sector de serviços. Saval escreve que “os Estados Unidos são uma nação de funcionários”, mas em breve será quase tão justo como dizer que somos uma nação de enfermeiras. Depois de todas as ressalvas  terem sido apontadas,  devemos, no entanto,  sublinhar que a elegância da sua prosa assim como  a intensidade do seu empenho  moral (apenas um pouco escondido) são qualidades que perduram.

Para uma celebração mais sonante do marxismo dos jovens americanos saído da crise , temos Utopia or Bust, o mais recente trabalho de Benjamin Kunkel, um dos colegas mais velhos do Saval no jornal  n + 1. Kunkel descreve-se na introdução do livro como “um jovem  com uma base  literária”, mas que subestima o produto. Indecision, primeiro e único romance de Kunkel, é um livro modesto, mas encantador  e aparentemente  reflectido . Uma espécie de socialista a descrever um enorme arco de tempo do seu personagem central ,  descreve  a trajectória da consciencialização e crescimento  de Dwight Wilmerding, o seu narrador ignorante mas entusiástico. Como sublinha  Kunkel em Utopia or Bust, a “ingenuidade de Dwight era… para permitir que ele aprenda a ver  o mundo — que só poderia ser o  da globalização neoliberal — com olhos relativamente frescos.” Isso pode parecer uma justificação retrospectiva, mas é um  resumo do seu livro que termina com a semi-irónica conversão de Dwight  ao  “socialismo democrático”

Desde o lançamento de Indecision , em 2005, Kunkel passou a maior parte do seu tempo a examinar a globalização neoliberal por si mesmo. Enquanto outros romancistas viraram a sua atenção para a  política radical — no ano passado, o que incluía Rachel Kushner’s The Flamethrowers, Jhumpa Lahiri’s The Lowland and Jonathan Lethem’s Dissident Gardens — Kunkel tem ido mais longe, agora  denominando-se (novamente, apenas   semi- ironicamente) publicamente ” um intelectual marxista ” e “um economista autodidacta.” Utopia or Bust  é uma colecção de artigos anteriormente publicados sobre esta transformação, principalmente ensaios da London Review of Books em que se examina algumas  figuras canónicas do marxismo contemporâneo. O resultado, nas palavras de Kunkel, é um breve estudo do “capitalismo global e dos seus teóricos”. Lúdico e infalivelmente lúcido mesmo quando os teóricos em questão não são assim, o livro é uma das peças mais agradáveis da crítica marxista desde há muitos anos — imagine uma mais politicamente orientada Zadie Smith, que não pode esperar para explicar a interpretação do pós-modernismo de Fredric Jameson. Kunkel mais que solidificou o seu papel não oficial como o inteligente irmão mais velho face a todos os tristes jovens literários marxistas que pululam na Internet.

Precisamente por causa de sua clareza, no entanto, Utopia or Bust  revela alguns dos aspectos mais peculiares de um grupo que pode parecer mais inclinado a recitar Marx do que a  repensar o marxismo, ou do que a mover-se para além dele. O livro é um prelúdio para um trabalho maior que Kunkel prometeu em que deseja  integrar  o marxismo e a ecologia, mas evidências desse projecto estão aqui em grande parte ausentes. Embora capaz de tornar estimulantes os seus temas, Kunkel vai devagar  quando se trata de trabalhar sobre  os textos  marxistas que analisam as questões do domínio da   economia política, limitando geralmente a sua análise à exposição e à crítica imanente

Depois há a constante afirmação da derrota exigida por uma fixação que Kunkel chama de um “capitalismo global  quase que incontestado.” As disparidades de poder são reais e assim também são as injustiças cometidas por aqueles que comandam sobre os enormes  recursos disponíveis para a  elite económica do mundo. Mas os marxistas têm uma fraqueza e uma dificuldade muito grande para tratar os  capitalistas pelos seus próprios nomes, o que distorce a sua avaliação sobre a forma imprópria como na verdade o capitalismo actual funciona.

As representações de um capitalismo totalizante foram úteis para os socialistas do fim de século  tentando convencer potenciais adeptos de  que a revolução estava  iminente, e têm levado facilmente muita pancada desde então, até mesmo pelos  capitalistas ávidos de declarar vitória sobre o socialismo depois de 1989. Mas isso é uma virtude da polémica, não da análise . Como Joseph Schumpeter observava  há muitos anos, “a ordem capitalista assenta não só no respeito de elementos externos ao capitalismo  mas também extrai a sua  energia  de padrões de comportamento igualmente externos ao capitalismo .” O melhor escritor  marxista  reconhece implicitamente esta posição, mas o seu poder explicativo fica  desconfigurado quando começa a teorização. Excepções à regra do capital têm sempre sido essenciais ao capitalismo: trabalho doméstico realizado sem salários, a escravidão ao longo do século  XIX e os investimentos em catadupa vindos da China  hoje, para citar apenas alguns exemplos. E isso não inclui redutos supostamente atávicos de uma ordem pré-capitalista que têm não só resistido mas igualmente prosperaram no século passado, incluindo as variantes conservadoras do Islão que apoiam os governos do Médio Oriente,  responsáveis pelo fornecimento do petróleo e pela  injecção desses capitais  na economia global. O capitalismo nunca se serviu de uma dominação fora de qualquer controlo sobre o globo. Se agora viesse a acontecer , o sistema poderia  entrar em ruptura total  tão rapidamente quanto levaríamos para acabar esta frase.

A procura de avanços conceptuais nos jornais da esquerda mais recente, dita nova esquerda, no entanto, leva-nos a não perceber o seu projecto. Eles pretendem não só querer  transformar o mundo das ideias, mas também avançar para uma agenda política, um ponto que se tornou especialmente claro em Jacobin. Aqui, política não significa uma interminável conversa aberta à ambiguidade, à incerteza e à diferença. Não, a política é uma guerra — especificamente, uma guerra de classes — e a única esperança que tem uma esquerda em apuros é a de  organizar essa mesma guerra. A inspiração deriva de uma mistura de sucessos do marxismo europeu e da história da direita americano desde Barry Goldwater até  Ted Cruz. Os aliados serão tomados, mesmo procurados,  onde  poderão ser encontrados. Mas o objectivo é o de ensinar (e o de pregar), não o de aprender.

(continua)

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Texto disponível em The Nation, cujo endereço electrónico é o seguinte:

http://www.thenation.com/article/179337/thomas-piketty-and-millennial-marxists-scourge-inequality

Timothy Shenk, a doctoral student in history at Columbia University, is the author of Maurice Dobb: Political Economist.

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Para ler a Parte III deste texto de Timothy Shenk, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

SOBRE PIKETTY, SOBRE DESIGUALDADES NA REPARTIÇÃO DO RENDIMENTO, SOBRE NEOLIBERALISMO – NOVA SÉRIE – 5. THOMAS PIKETTY E OS JOVENS MARXISTAS SOBRE O DISPARAR DA DESIGUALDADE, por TIMOTHY SHENK

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