CRÓNICA DE DOMINGO – UM PÓLO À ESQUERDA – por João Machado

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Ontem, ouvi no Eixo do Mal, da SIC Notícias, Daniel Oliveira defender como solução para a situação do país a existência de um pólo à esquerda do Partido Socialista, claro que com uma influência agregadora, e decisiva na vida política do país. Esperando ter compreendido bem a ideia do Daniel, passo a dizer que, em princípio a acho uma boa ideia, mas que se vai deparar com muitos obstáculos.

O primeiro é, sem dúvida, o próprio PS. Uma vez, Mário Soares, na altura na liderança do partido e do país, disse, alto e bom som, que à esquerda do PS não havia ninguém. Esta declaração teve e tem apenas um valor relativo. Terá demonstrado apenas duas coisas: uma, que Mário Soares não teria grande consideração, pelo menos em termos de peso político, por quem estava à sua esquerda; dois, que em termos de coligação, ou mesmo de simples procura de apoios pontuais, olharia sempre preferencialmente à direita. E não será exagero dizer que esta segunda conclusão tem sido sistematicamente seguida pelo PS. A tentativa de formar um pólo agregador à esquerda do PS será sempre afectada por esta orientação dos dirigentes deste partido.

Outros problemas há, claro. Uma muito hipotética aliança de forças à esquerda do PS que incluísse o Partido Comunista, seria sempre encarada por este como muito transitória, na melhor das hipóteses. Por outro lado, outra hipótese, a da aliança PC-PS, não é encarada como viável pelos seus dirigentes, por temerem perder eleitorado, o PC à esquerda e o PS à direita. O Bloco de Esquerda e outras forças poderiam engordar eleitoralmente com esta hipótese, por isso ela é recusada pelos dois partidos.

A grande dificuldade para criar um pólo à esquerda, neste momento em Portugal, não está nas relações difíceis entre as direcções partidárias (que elas realmente não são fáceis). Está na dificuldade em fazer grandes opções (do tipo: nacionalizar a banca, sair da união europeia, acabar com as privatizações, relançar os serviços públicos) que fossem aceites por uma plataforma mínima de pessoas e organizações (estas poderiam incluir os partidos), grandes opçõesestas que merecessem a adesão da maioria dos portugueses. Claro que o programa aprovado nessa plataforma iria quase de certeza encontrar grandes resistências ao nível da União Europeia, e não só.

Não bastaria fazer um congresso, ou uma iniciativa semelhante, para criar essa plataforma e aprovar o programa. Terá de se fazer mais, tendo em conta que as grandes organizações partidárias, podendo até concordar com uma parte maior ou menor do programa eventualmente aprovado, temeriam sempre ver a sua influência reduzida. O caminho será longo e difícil, mas começará sempre pelo alargamento da discussão dos problemas do país.

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