EM LOUVOR DOS EQUILIBRISTAS, de CARLOS LOURES

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EM LOUVOR DOS EQUILIBRISTAS, de CARLOS LOURES

 

 

Falta ainda uma condecoração,

ordem, ou comenda, que consagre

o esforço do equilibrista

em prol da civilização.

Formidável ciclista,

verdadeiro paganini da circulação

em cima do arame,

o equilibrista percorre,

sem qualquer hesitação,

o ténue traço que separa

a esquerda da direita.

É um simples traço,

quase uma abstracção,

um risco passado

por onde não há espaço.

Ágil, aproveita

o espaço inexistente

deslocando o corpo

obliquamente:

metade sobre o risco da direita

e outra debruçada

sobre os riscos da vertente

que à esquerda, sobre o abismo,

Mas ouçamos a receita do artista

(que ninguém está livre

de a ter de usar:

quando menos se espera e pensa,

a corda tensa, a pista, a vertigem,

lá estão à espera

dos que não aprenderam a voar).

Diz, com modéstia,

o frágil saltimbanco:

– Afinal nem é assim tão complicado.

Sigo pela direita

quando

ando;

avanço pela esquerda

quando estou

 

 

In O Cárcere e o Prado Luminoso, Edições Salamandra, Lisboa, 1990.

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