Em memória de Vasco Graça Moura (1942-2014) – 15 – por Álvaro José Ferreira

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Nota prévia:

Para ouvir os poemas (cantados) de Vasco Graça Moura, há que aceder à páginaImagem2

http://nossaradio.blogspot.com/2014/05/em-memoria-de-vasco-graca-moura.html

Fado de Santa Catarina

Poema: Vasco Graça Moura (versão em quadras) [versão em décimas >> abaixo]
Música: José Fontes Rocha
Intérprete: Mísia* (in 2CD “Ruas”: CD “Lisboarium”, AZ/Universal Music France, 2009)

Quero a luz leve e vibrante
da Lisboa ribeirinha
fazer menos vida errante
ter, ter uma casa bem minha

casa antiga, casa nova
mas de traça pombalina
meu coração posto à prova
junto a Santa Catarina

ver do alto o rio, espelho
que a certas horas revela
algum quadro do Botelho
a entrar-me pela janela

durante o dia divide-a
fronteira de sombra e luz
marcada por uma orquídea
que num copo de água pus

e se à noite tem perfume
que as rosas rubras lhe dão
a lua dá-lhe um volume
musical de solidão

não é preciso mais nada:
sobre a mesa pão e vinho
a porta fica encostada
empurra-a devagarinho.

* Mísia – voz;  Luís Pacheco Cunha – violino; Fado de Santa Catarina; (Vasco Graça Moura, in “Mais Fados & Companhia”, Lisboa: Público, 2004 – págs. 18-19; “Poesia 2001/2005”, Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – págs. 60-61)

No peitoril da janela
uma caprichosa orquídea
verde, castanha, amarela,
sinal da tua perfídia.

Quero a luz leve e vibrante
da Lisboa ribeirinha
quero uma casa bem minha
e a vida menos errante,
quero a gaivota distante
que o meu olhar atropela,
quero o rio que revela
como se fosse um espelho
algum quadro do Botelho
no peitoril da janela.

Quero a traça pombalina
de uma casa antiga e nova,
quero pôr o fado à prova
junto a Santa Catarina.
Já vi que a casa fascina
a Mafalda, a Berta, a Lídia:
quando é de dia divide-a
fronteira de sombra e luz
e num copo de água pus
uma caprichosa orquídea.

Se à noite as rosas lhe dão
um esquisito perfume,
a lua dá-lhe o volume
musical da solidão.
Mas sobre as tábuas do chão
vê-se inda a sombra daquela
orquídea curva e singela,
flor das nossas tentações
e das minhas condições,
verde, castanha, amarela.

E tu alta madrugada
podes vir devagarinho,
sobre a mesa há pão e vinho
e a porta fica encostada,
não é preciso mais nada.
Creio que amas sem insídia,
e a vida é tua, decide-a,
mas se achas que isso a atrasa
fico eu de olhos em brasa,
sinal da tua perfídia.

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