Poema: Vasco Graça Moura (versão em quadras) [versão em décimas >> abaixo]
Música: José Fontes Rocha
Intérprete: Mísia* (in 2CD “Ruas”: CD “Lisboarium”, AZ/Universal Music France, 2009)
Quero a luz leve e vibrante da Lisboa ribeirinha fazer menos vida errante ter, ter uma casa bem minha
casa antiga, casa nova mas de traça pombalina meu coração posto à prova junto a Santa Catarina
ver do alto o rio, espelho que a certas horas revela algum quadro do Botelho a entrar-me pela janela
durante o dia divide-a fronteira de sombra e luz marcada por uma orquídea que num copo de água pus
e se à noite tem perfume que as rosas rubras lhe dão a lua dá-lhe um volume musical de solidão
não é preciso mais nada: sobre a mesa pão e vinho a porta fica encostada empurra-a devagarinho.
* Mísia – voz; Luís Pacheco Cunha – violino; Fado de Santa Catarina; (Vasco Graça Moura, in “Mais Fados & Companhia”, Lisboa: Público, 2004 – págs. 18-19; “Poesia 2001/2005”, Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – págs. 60-61)
No peitoril da janela uma caprichosa orquídea verde, castanha, amarela, sinal da tua perfídia.
Quero a luz leve e vibrante da Lisboa ribeirinha quero uma casa bem minha e a vida menos errante, quero a gaivota distante que o meu olhar atropela, quero o rio que revela como se fosse um espelho algum quadro do Botelho no peitoril da janela.
Quero a traça pombalina de uma casa antiga e nova, quero pôr o fado à prova junto a Santa Catarina. Já vi que a casa fascina a Mafalda, a Berta, a Lídia: quando é de dia divide-a fronteira de sombra e luz e num copo de água pus uma caprichosa orquídea.
Se à noite as rosas lhe dão um esquisito perfume, a lua dá-lhe o volume musical da solidão. Mas sobre as tábuas do chão vê-se inda a sombra daquela orquídea curva e singela, flor das nossas tentações e das minhas condições, verde, castanha, amarela.
E tu alta madrugada podes vir devagarinho, sobre a mesa há pão e vinho e a porta fica encostada, não é preciso mais nada. Creio que amas sem insídia, e a vida é tua, decide-a, mas se achas que isso a atrasa fico eu de olhos em brasa, sinal da tua perfídia.