Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
O Consenso das Commodities e linguagens de valorização na América latina
Neoextractivismo en America Latina
Maristella Svampa, Argenpress.info, 13 de Maio de 2013
Parte I
O “Consenso das Commodities destaca a entrada da America Latina numa nova ordem económica e político-ideológico, suportada pelo boom nos preços internacionais de matérias-primas e de bens de consumo cada vez mais procurados e consumidos nos principais países centrais e nas potências emergentes. Esta ordem consolida um estilo de desenvolvimento neo-extractivista que gera vantagens comparativas, visíveis no crescimento económico, ao mesmo tempo que produz novas assimetrias e novos conflitos sociais, económicos, ambientais, políticos e culturais. Estes conflitos marcam a abertura de um novo ciclo de lutas, centrado na defesa do território e do ambiente, bem como na discussão sobre os próprios modelos de desenvolvimento e sobre as próprias fronteiras da democracia.
Introdução
Na última década, a América Latina fez a passagem do Consenso de Washington, assente na recuperação financeira, para o “Consenso das Commodities”, baseado na exportação de bens primários em grande escala. Neste artigo, usamos o conceito de commodities em sentido amplo, como sendo « produtos indiferenciados cujos preços são definidos internacionalmente» (1), ou como “produtos de fabrico, disponibilidade e procura global, cujo preço pode variar dentro de um dado intervalo de preços internacionais e não exigem tecnologia avançada para o seu fabrico e para a sua transformação” (2). Ambas as definições incluem desde matérias-primas a granel até produtos semi-acabados ou industriais. No caso da América Latina, a procura por commodities está concentrada em produtos alimentares , tais como o milho, soja e trigo, bem como hidrocarbonetos (gás e petróleo), metais e minerais (cobre, ouro, bauxita, estanho, prata, zinco, entre outros (3)).
Assim, embora seja verdade que a exploração e exportação de matérias-primas não são actividades novas na América Latina, é claro que nos últimos anos do século XX, num contexto de mudança do modelo de acumulação, intensificou-se significativamente a expansão de mega-projectos destinados a controlar a extracção e exportação dos recursos naturais, sem grande valor acrescentado. Portanto, em geral, o que aqui chamamos de ‘Consenso das Commodities’ ressalta a entrada numa nova ordem, económica e político-ideológico, sustentada pelo boom dos preços internacionais das matérias-primas e bens de consumo mais procurados pelos principais países e potências emergentes, que geram inegáveis vantagens comparativas visíveis no crescimento económico e no aumento das reservas cambiais, ao mesmo tempo em que se produzem novas assimetrias e novas desigualdades profundas nas sociedades latino-americanas.
Em termos de consequências, o “Consenso das ‘Commodities” é um processo complexo e rápido que deve ser lido na base de uma leitura múltipla, simultaneamente numa perspectiva económica e social, política e ideológica, cultural e ambiental. Por causa disto e para ilustrar melhor esta problemática, propomos ao leitor uma apresentação do presente trabalho em três partes. Em primeiro lugar, avançaremos com uma conceptualização do que entendemos por “Consenso de Commodities” e as formas que assume o actual estilo de desenvolvimento neo-extractivista. Em segundo lugar, propomos uma breve síntese sobre o nós chamamos “viragem ecoterritorial”, como expressão das novas linguagens de valorização que atravessam sobre as lutas socioambientais no continente. Finalmente, concluiremos com uma referência para os desafios que agora enfrentam muitas organizações sociais e do pensamento crítico latino-americano.
(continua)
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Notas:
1) Andrés Wainer: «Inserción argentina en el comercio mundial: de la restricción externa al desarrollo económico» en Realidad Económica No 264, 11-12/2011, p. 77, disponible en http://www.iade.org.ar/uploads/c87bbfe5-d90c-6211.pdf.
2) «Los commodities» en Mundo Finanzas, 12/6/2012, http://www.mundofinanzas.es/finanzas/los-commodities/.
3) É interessante observar como, a nível global, “a geografia da extracção é muito diferente da geografia do consumo”. Por exemplo, a América Latina produz 26,2% de bauxite do mundo, mas consome apenas 2,9%; Quanto ao cobre, 45,1% produz e consome 6,1%; em relação ao ouro, produz 15,2% do total mundo e consome apenas 3%. Citação e dados extraídos de Horacio Machado Aráoz: Naturaleza mineral. Una ecología política del colonialismo moderno, tesis de doctorado, Facultad de Humanidades, Universidad Nacional de Catamarca, Catamarca, 2012.
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Ver original em:
http://www.argenpress.info/2013/05/consenso-de-los-commodities-y-lenguajes.html



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