BISCATES – “Os intelectuais do psyché”* – por Carlos de Matos Gomes

biscates

*Psyché,(ou pechiché) móvel de dois corpos com um espelho ao meio, inclinável, para reflexão inteiriça.

Sobre um artigo de Paulo Moura no Público de 15 de Junho de 2014:

Os intelectuais de direita estão a sair do armário.

A expressão sair do armário tem óbvias conotações sexuais: é utilizada pela comunidade gay para significar que um dos seus, até aí de homossexualidade clandestina, decidiu assumir a sua orientação sexual. Não faço a mais pequena ideia da orientação sexual dos chamados intelectuais de direita que o autor diz estarem a sair do armário. Interessa-me a questão política. O título parece querer dizer que existiam uns seres oprimidos – intelectuais de direita identificados com gays – que viviam num ambiente hostil, na clandestinidade, e por isso escondiam a sua condição de gays, nuns casos, e de direita noutros, mas que estão, nesta época de abertura de mentalidades e de neoliberalismo, a sair do armário, quer dos armários da homossexualidade reprimida, quer do neoliberalismo não assumido.

Aquilo que Paulo Moura diz de João Pereira Coutinho, de Henrique Raposo, e dos seus progenitores, Miguel Esteves Cardoso, Nogueira Pinto, Rui Ramos e Paulo Portas (na sombra) não se diz nos contos tradicionais africanos nem das cobras nem das hienas. Se tivessem pudor (uma palavra horrorosa para quem sai do armário), deixavam crescer as barbas, passavam a imitar o Portas a falar grosso, deixavam de revirar os olhos.

O que Paulo Moura diz destes “intelectuais de direita” é que eles são uns dandies vazios de ideias, de valores, que são incapazes de pensar, de dizerem o que propõem e que estão muito satisfeitinhos por serem contratados pelos jornais para escreverem umas croniquetas à la MEC do Independente, como este havia escrito umas redacções à la Guidinha de Sttau Monteiro do saudoso Diário de Lisboa. Isto é, estes contentinhos de direita que saíram do armário, são imitadores em segunda mão e, para mais, de uma certa esquerda que eles querem criticar. Não estão mal, os meninos.

O artigo coloca várias questões interessantes, uma delas, a mais direta para mim, é a de como uma certa esquerda vê uma certa direita. Um jogo de espelhos. Uma certa esquerda que pensa pouco e se exibe muito – que se deixou alcunhar de esquerda caviar – comenta uma certa direita, que também pensa pouco e se exibe muito – que é uma esquerda de psyché (narcísica, diante do espelho, que é inclinável, para a reflexão inteiriçanecessária à maquilhagem) – uma certa esquerda e uma certa direita que pensam pouco nos mesmos jornais e programas, que se exibem muito por locais da moda.

A primeira tentação de velhos rezingões é dizer que estes não são intelectuais, são “famosos” de televisão e revista que dizem e escrevem umas coisas para terem o estatuto de famosos. São relações públicas de ideias gerais, discojóqueis de músicas de salsifré que posam de copo na mão e pé cruzado à entrada dos eventos sociais. Uns querubins. Mas não, eles são na verdade intelectuais. Para o bem e o mal, são os intelectuais desta cultura e desta civilização, são os intelectuais dos agentes do actual poder, da actual ideologia. São os intelectuais do regime.

Segundo o artigo de Paulo Moura, os intelectuais de direita, são liberais. O que para eles significa não serem salazaristas, isto é, não usarem chapéu, nem botas e não frequentarem as missas do cardeal Cerejeira. São esteticamente pós-modernos e consideram o salazarismo, retrógrado, não por causa da polícia política e dos seus pides grosseiros, dos coronéis da censura, do sistema de castas e de privilégios aos correligionários, dos negócios manhosos, mas principalmente por causa das posturas municipais a proibirem e punirem os maus costumes de mão na mão, de mão no coiso, do coiso na coisa, no coiso no coiso do coiso. Quanto ao resto, são pelo mercado como lei da selva etêm um pastor de ideias Hayek, o que os distingue dos de esquerda que têm pelo menos dois, o velho Marx e o Keynes. São pelo individualismo, mas todos têm, como as meretrizes, um protector e trabalham por conta de outrem e não por conta própria, o que não os distingue dos correspondentes intelectuais de esquerda. São pela modernidade dos parties com alguma cocaína, pela superficialidade, pelo feeling que os leva a dizer o que quem lhes paga espera que digam. São bolinadores das ideias. Apresentam-nas como os vendedores de óculos escuros nas praias: têm uma ideia na ponta da língua e várias disponíveis em carteira.

Quanto ao problema de vivermos num estado-nação com 10 milhões de habitantes, com um território no limite ocidental da Europa, de sermos atlânticos ou continentais, de nos organizarmos para produzir saber internamente ou exportar mão de obra barata, de vivermos de serviços de vénia e travessa – hotelaria e turismo – ou de conhecimento e criatividade: Nada! Quanto ao desenvolvimento dos sectores produtivos, agricultura, pescas, indústria, serviços, sistema de ensino e formação, de solidariedade intergeracional, de distribuição da riqueza, do conflito capital e trabalho: Nada! Quanto a corrupção: Nada! Quanto a construção europeia e respectiva moeda: Nada! Portugal, para eles não existe. Conseguem não ser nacionalistas, nem soberanistas, nem europeístas, nem federalistas. Vivem na sustentável leveza do ser. Leves e flutuantes como penas.

Além de serem pela privatização de tudo e até do olho vazado do Camões, têm uma ideia sobre um outro assunto: o desemprego! Quando a desemprego dizem alguma coisa: é um acto purificador. Só está desempregado quem não é como nós, um topa a tudo que vende pai e mãe! Nós somos e exemplo do sucesso do desemprego. Qualquer beduíno que venda um camelo com três patas dirá o mesmo!

Os intelectuais da direita saem do armário para dizer que vão almoçar à beira-rio, que têm mérito, porque se não tivessem ninguém os contrataria para fazer o que fazem: o que também é verdade para os cavalos de cortesias das touradas.

Os intelectuais de psyché só são de direita porque existe um nicho no sacrossanto mercado para publicistas de direita. Porque os patrões e os que fazem mover os cordelinhos do mundo necessitam de “famosos” que ocupem o espaçam com os “pensamentos” que lhes convém aos negócios. No dia em que o mercado abra um nicho para vendedores de bolas quadradas, os Pereiras Coutinhos, os Raposos, os Camilos Lourenços, os Gomes Ferreiras e outros aí aparecerão com um compasso sem pernas a explicar uma nova trigonometria.

A sério, existem em Portugal verdadeiros e consistentes intelectuais de direita mas não são estes pardalitos pagos à linha. Existem até famílias com pergaminhos, a família Espirito Santo, a família Mello, por exemplo. Existem mais, a título individual, como o engenheiro Jardim Gonçalves, o reitor da Universidade Católica, o dono do Pingo Doce, entre outros, lembro-me do Mexia, do falecido Borges. Os verdadeiros intelectuais de direita estão nas escolas de negócios, nos negócios das PPP, dos SWAPS, nos grandes escritórios de advogados… o resto é poeira…

Enfim, convém não confundir a corneta com quem dá ordens ao corneteiro.

Carlos de Matos Gomes

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