Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Piketty versus Marx: os dois economistas têm muito em comum mas as suas diferenças são também importantes
Russell Jacoby
New Republic, 7 de Junho de 2014
Parte I
O livro de Thomas Piketty Capital in the Twenty-First Century é tanto um fenómeno sociológico como um fenómeno intelectual. Como em 1987 The Closing of the American Mind de Allan Bloom, esta obra de Piketty é um tomo que inesperadamente capta o zeitgeist. Poucos terão lido todo o livro de Bloom — pela simples e boa razão de que era principalmente empolado — mas ele falava de um momento em que muitos sentiram que os liberais e as gentes muito à esquerda estavam a destruir o ensino, a educação, na América, se não a própria América. Esta sensação, de facto, não diminuiu ainda hoje e Capital in the Twenty-First Century pode situar-se no mesmo campo de forças, com a diferença que Piketty vem da esquerda e o terreno mudou, da educação para a economia. Mesmo no âmbito do ensino, o debate mudou-se em grande medida para a economia, as barreiras que dão origem a uma escolaridade diferenciada e muito desigual. O livro do Piketty anuncia a mudança palpável que a sociedade americana, com efeito, as sociedades desenvolvidas do mundo inteiro, parecem cada vez mais terem estado a criar; essa desigualdade tem estado a agravar-se e a distorcer o futuro. O livro Twenty-First Century poderia ser mais apropriadamente intitulado A desigualdade no século XXI.
É injustificado estar a criticar Piketty por aquilo que ele não reivindicou fazer; mas é igualmente insuficiente estar simplesmente a elogiá-lo. Muitos analisaram aquilo em que Piketty está muito próximo das posições de Marx ou ainda aquilo em que está muito distante relativamente a este último autor, mas o importante pode ser, sobretudo, saber como é que o livro de Piketty nos pode ajudar a perceber a nossa actual situação. Sobretudo e em relação com a sua preocupação com a igualdade, a obra de Marx pode ser relevante. Para se considerar em conjunto o autor francês do século XXI e privilegiar a Alemanha no século XIX estabelece-se uma divergência. Ambos protestam contra as disparidades económicas, mas movimentam-se estes dois autores em sentidos opostos, Piketty avança no domínio dos salários, do rendimento e da riqueza; ele pretende moderar estes extremos e para nos dar uma versão modificada do slogan da infeliz Primavera de Praga de 1968, pretendo ele um capitalismo de rosto humano. Marx avança no domínio da mercantilização, da mercadorização, do trabalho, e da alienação; Marx pretende ir ao fundo na análise destas relações, desfazê-las e, com isso, dar-nos uma sociedade transformada [e não uma versão aparentemente diferente da mesma, à Leopardo].
Piketty é implacável na sua acusação contra a desigualdade: ““Desde há já muito tempo,” escreve ele na sua introdução, ” que deveríamos ter colocado a questão da desigualdade de novo no centro da análise económica.” Como epígrafe do livro cita a segunda frase da Declaração dos Direitos do Homem: “as distinções sociais só podem ser baseadas na utilidade comum”. (Não está claro porque é que no seu prolixo livro Piketty não colocou também a primeira afirmação: “Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos.”) Piketty trabalhou e mostra-nos uma montanha de números e tabelas para demonstrar que se está a intensificar a desigualdade económica; que os mais ricos estão a ficar cada vez mais ricos; e que os ricos ganham cada vez mais. Alguns críticos têm-no questionado sobre as estatísticas, mas simplesmente por aqui atingem-no somente de raspão. Entretanto, Piketty argumentou com uma sólida resposta às críticas que lhe eram feitas
Piketty aponta tiro após tiro no alvo que é a desigualdade crescente e em que esta pela sua dimensão desfigura as sociedades- em especial a sociedade-americana. Para arrancar do seu livro um exemplo da desigualdade no ensino, que não é o seu objectivo, Piketty nota que a educação supostamente oferece mais ou menos um igual acesso a todos a fim de promover a mobilidade social. Ele calcula, contudo, que “o salário médio dos pais dos estudantes de Harvard é actualmente aproximadamente $450.000,” o que corresponde aos 2 por cento superiores na escala dos rendimentos. Numa subestimação típica, escreve que “um tal resultado não parece inteiramente compatível com a ideia da selecção baseada unicamente no mérito”.
Para alguns radicais de esquerda, isso é uma informação já velha. Para outros, que sofrem de uma implacável burrice, porque é o salário mínimo não pode ser aumentado; porque é que os “criadores de empregos” não podem ser tributados ; e porque é que a sociedade americana continua a ser a mais aberta do mundo, para todos estes, Piketty é a receita que o médico passou. Por exemplo, de acordo com um relatório — não mencionada por Piketty — os 25 gestores de topo dos hedge funds americanos ganharam US $21 mil milhões em 2013, bem acima de duas vezes tanto quanto o rendimento junto de aproximadamente 150.000 educadores americanos. Isso significa que o trabalho de um gestor de um hedge fund ganha um rendimento igual a cerca de 17.000 professores de jardim de infância.
Porém, a fixação do Piketty sobre a desigualdade também revela limites teóricos e políticos. Para ter a certeza, lembremos que a procura da igualdade tem impulsionado convulsões políticas desde a Revolução francesa do século XVIII ao movimento americano pelos direitos civis do século XX, com passagens pelos cartistas, abolicionistas e sufragistas do século XIX. Desempenhou um papel positivo e crítico — e continua a fazê-lo. A entrada “igualdade” na “Enciclopédia do protesto político” levaria centenas de páginas e de referências cruzadas para tudo. Os protestos dos anos mais recentes sobre a desigualdade estão subjacentes nos Occupy Wall Street ou na agitação relativamente ao casamento gay. O grito de igualdade será dificilmente esgotado. Se alguma coisa mais se pode dizer, parece até ter ganho nova força. .
Não obstante o igualitarismo como uma ideia e como procura também contém um elemento de resignação; com este aceita-se a sociedade, mas quer-se mais equilíbrio na posse dos bens e dos privilégios. Os gays querem igualdade, o direito como toda a gente de se casarem. Tudo bem, mas o casamento ainda é o casamento, a instituição imperfeita de que a sociedade não pode desistir ou melhorar. R.H. Tawney, o historiador britânico de esquerda radical analisou os limites da igualdade no seu livro de 1931 Equality, uma ampla defesa do igualitarismo. O movimento da classe trabalhadora, escreve ele, coloca a sua fé na ” possibilidade de uma sociedade,” onde um maior valor seja colocado sobre as pessoas e um menor valor sobre o dinheiro. Mas esse movimento expõe-se a não existir. “Quando assim é, o que é apetência pelo desejo não é uma ordem social de um tipo diferente, em que o dinheiro e o poder económico deixarão de ser o critério de realização dos indivíduos, mas uma ordem social da mesma espécie, em que o dinheiro e o poder económico estarão apenas diferentemente distribuídos. ” Esta simples frase coloca-nos no centro da questão. Igualizar a poluição polui de modo igual por todo o lado, mas não acaba com a poluição.
(continua)
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Ver o original em:
http://www.newrepublic.com/article/118024/piketty-and-marx-where-they-disagree


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