Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Eu não desejo a vitória da Alemanha
Jérôme Leroy, revista Causeur, 25 de Junho de 2014
O campeonato do mundo realiza-se de quatro em quatro anos, o que nos faz envelhecer de maneira terrivelmente rápida. Um pouco e como estes desgraçados pelos quais se interessou Lichtenberg num delicioso pequeno livro, Consolations à l’adresse des malheureux qui sont nés un 29 février “Depois de fácil e imediato cálculo parece que a infeliz criatura que nasceu a 29 de Fevereiro, comparando-se com as outros pessoas, perde pelo menos setenta e cinco por cento das suas manifestações de alegria durante a sua vida. Eis-nos pois perante uma situação desagradável.
“Situação desagradável.” Certamente. O primeiro campeonato do mundo que acompanhei de perto foi o de 1978. Ainda não tinha 14 anos. O seguinte, em 82, era já o ano da minha entrada na Universidade. Veja-se como o tempo passa. 82, Espanha, esta arte tão francesa da derrota resplandecente, heróica mesmo. Contra o inimigo fidagal, para além do mais. Mas sobre isso conheço um bom livro para me refrescar a memória, o do meu amigo Pierre-Louis Basse, Sevilha 82. França-Alemanha, o jogo do século.
Mas volto ao campeonato do mundo de 78. A final Argentina-Holanda. Quem se lembra de Johnny Rep ou de Mario Kempes ?
Tudo isto tinha dado aso a pequenas histórias, este campeonato do mundo de 78. Perguntávamo-nos se seria necessário ir jogar no país do general Videla enquanto que se torturava as pessoas em locais situados muito perto dos estádios, e torturava-se em nome da luta contra a subversão comunista no âmbito da operação Condor. Diz-se mesmo que também aí havia instrutores franceses a trabalhar na operação Condor. Não Hidalgo, tranquilizemo-nos. Não ele, mas sim os especialistas da guerra suja, dos tipos que tinham já feito prova da sua experiência, do seu saber-fazer, durante a guerra da Argélia. Não estava assim muito longe a guerra da Argélia, em 1978.
Ainda em 78, lembremo-nos de que Bernard Pivot, grande amador de futebol além disso, tinha sido encarregado de fornecer aos jogadores livros para lerem no período da competição. Sim, não me tratem de reaccionário mas falo-vos de uma época em que os jogadores de futebol liam. Não vos falo do tempo em que os jogadores passam o seu tempo agarrados ao seu smartphone ou à sua consola de jogos para se distenderem ao mesmo tempo que tratam dos seus penteados que são o equivalente capilar da buzina vuvuzela.
Se quiserem ter uma ideia da decadência do ensino ou da sua impossibilidade em se opor à imensa estupidez da indústria do divertimento assistido por computador, comparem Rocheteau a Giroud, não sobre o terreno mas exactamente na maneira de falar, de estar. Mas um Giroud ganha quantas vezes mais que um Rocheteau? Como quê, o dinheiro… e vão perguntar hoje a um crítico literário que experimente aconselhar leituras aos nossos jogadores de futebol de 2014. Este, ou rebenta à gargalha ou morre. Nada mais, nada menos. [Melhor ainda, ou morre de gargalhadas que não consegue parar ou então morre por suicídio. Morre-se sempre, não há escolha, por isso é melhor não perguntarem. A fazer lembrar num plano inverso, a mensagem de Piketty, o capitalismo está condenado à violência das guerras e salve-se com elas pois estas geram uma forte depreciação do capital e uma tributação elevada, ou salva-se pela violência social, interna, pois esta tem o mesmo efeito. Fora desses extremos, a dinâmica de r>g é inexorável e conduz sempre para um destes dois extremos. Mais violento que o velho Marx, o Marx do século XXI].
Vuvuzela, uma vez que se fala dela. A única lembrança que guardo do campeonato do mundo de 2010. Com o autocarro de Knysna. O máximo que nos pôde dar a geração Sarkozy. Uma greve de multimilionários, de gente vil enriquecida e narcisista. Como os três quartos dos rapper’s que desenvolvem a mesma ideologia da massa, da ostentação odiosa e do desprezo que assume qualquer plutocrata da economia financeirizada
Dizer que se chamou a Knysna uma greve. Uma greve, faz–se por si sem dúvida, mas também e sobretudo para os outros, como por exemplo a dos ferroviários que se bateram num clima de linchagem generalizado para que haja ainda qualquer coisa que se assemelhe, nem que seja vagamente, a um serviço público dos transportes de caminho-de-ferro daqui a dez anos.. Será que os grevistas perderam? Tanto pior para nós. Uma greve, é uma acção colectiva que pressupõe um mínimo de consciência política. Regresso a Rocheteau. Em 78, na Argentina, tinha expresso publicamente o seu mal-estar face à ideia de jogar numa ditadura. Tinha falado de uma bandeirola a colocar sobre o campo. Pediu-lhe-se para se calar, para parar com este filme. Aqui, questiono-me, se haverá na realidade de hoje alguns jogadores que estejam simplesmente ao corrente da revolta social no Brasil, neste mesmo momento. É verdade que com um Platini que pede ao povo brasileiro que espere o fim do campeonato do mundo para se revoltar, não se vai pedir à Hugo Lloris que leia as teologias da libertação e Don Helder da Camara.
Cada campeonato do mundo reenvia cada um de nós à sua geopolítica íntima. Desejamos todos, enfim é o que penso, a vitória da França, [ou eu que desejei a de Portugal]. De resto, o último que disse que desejava a vitória da Alemanha, não lhe deu grande sorte. Mas depois, se a França perder, para quem vão as nossas simpatias? É aqui que a questão se complica. Tem-se prazer em gostar deste belo desporto, tem-se as nossas preferências culturais, diz-se. Quando a França deixa de estar na corrida, eu apoio a seguir as equipas de língua francesa. Para andar rápido nesta crónica, aqui, as minhas simpatias iam para a a Bélgica e a Argélia que jogaram com alguma qualidade. A Suíça, acabou. E, depois, as equipas africanas, a Costa de Marfim ou os Camarões. Se não houver mais nenhuma equipa de língua francesa em liça, as equipas latinas, a Espanha e Portugal (não há nenhuma possibilidade para este) ou a Itália (apesar da provocação de Materazzi em 2006). Sem estar a contar com as equipas da América do Sul e neste campeonato do mundo com uma especial ternura para o Uruguai que tem o chefe de estado mais simpático do momento, “Pepe” Mujica, o homem que possui apenas o seu velho Carocha como fortuna, um antigo tupamaro que pratica para o seu povo a arte de Vitor Hugo em ser avô. [E as nossas simpatias? Para um qualquer país que não seja emergente, que seja tipicamente do SUL, com a carga política e económica que isto tem. Felizmente os candidatos são vários]
Uma última coisa que é também um sinal dos tempos que correm. Na época em que havia três cadeias de televisão, podiam-se ver todos os jogos. Agora que há trezentos canais devemo-nos contentar com os jogos da equipa da França e mais um outro. Se quisermos mais, então é necessário ir sobre uma cadeia de televisão de sinal fechado, a pagar o direito de acesso. É um perfeito resumo do que é uma privatização: dá a escolha ao consumidor, a liberdade, como dizem. A liberdade, ok, mas unicamente se o consumidor tiver os meios para a pagar.
Jérôme Leroy, revista Causeur, Je ne souhaite pas la victoire de l’Allemagne – Pivot, Platini, Rocheteau: souvenirs, souvenirs.
________
Ver o original em:

