MITO & REALIDADE – SOBRE A CENSURA AOS LIVROS – Para a História da edição em Portugal – 2 – por José Brandão –

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Sobre o mundo editorial, há ideias feitas que, na maior parte dos casos, não correspondem à realidade. José Brandão vai em alguns artigos falar sobre esse tema – realidades da edição em Portugal – Começa por um tema sobre o qual se tem falado pouco – a censura feita aos livros.

No último mês de 1973 o semanário «Expresso» informava que o general António de Spínola tinha concluído a revisão do livro Portugal e o Futuro estando a publicação prevista para breve pela editora Arcádia.

No último mês de 1993 o diário «Público» dá a conhecer alguns pormenores da História de Portugal dirigida pelo professor José Mattoso a ser editada por iniciativa do Círculo de Leitores durante os meses mais próximos.

O livro do general marcou a História de Portugal da forma que bem se conhece e constituiu o maior êxito de vendas até então verificado na edição livreira portuguesa. Duas centenas e meia de páginas vendidas ao preço de capa de 100$00 esgotaram-se em sucessivas edições de 50 mil exemplares atingindo em pouco tempo um recorde de 250 mil cópias, algo nunca visto em matéria de livro político editado em Portugal.

Portugal e o Futuro foi parte importante de uma Revolução registada na História política portuguesa e ao mesmo tempo uma estrondosa revolução verificada no mundo dos livros editados no País.

A obra dirigida pelo professor Mattoso apresenta-se com propósitos inovadores e também revolucionários no conceito e na forma de abordar a História de Portugal assentando em critérios de globalidade identificados com o que há de mais moderno no panorama das correntes historiográficas. Um total superior a 4400 páginas, distribuídas por oito volumes, vai culminar numa tiragem a rondar os 700 mil exemplares destinados aos 80 mil compradores que vão fazer entrar nos cofres do CL qualquer coisa como 4,8 milhões de contos.

Com uma tiragem por volume de 87 mil exemplares, cerca de 23 vezes a tiragem média dos livros neste País (3764 em 1992) a História de Portugal dirigida por José Mattoso é, sem sombra de dúvida, um dos acontecimentos de maior vulto na área da edição livreira nacional e, simultaneamente, uma verdadeira revolução nos conceitos analíticos da historiografia portuguesa.

O Portugal e o Futuro do general António de Spínola, anunciado em 1973, e a História de Portugal do professor José Mattoso, lançada em 1993, são dois marcos determinantes em qualquer perspectiva tendo como principal debate o livro português.

Ambos têm Portugal como objectivo central e ambos vêm revolucionar algo nos hábitos e costumes do País. Vale a pena, e é mesmo dignificante, começar a escrever e a falar de editoras e de livros a partir destes dois eventos orientadores.

Mas, convém frisar, se existe tema cuja abordagem é repleta de embargos e de estranhas contrariedades, a edição e publicação de livros está mesmo muito bem classificada nesse capítulo. Reconhecidas publicamente no nosso meio, as dificuldades de quem se mete pelos trilhos de análise da edição e da biblioteconomia nacional, não chegam as tradições de uma escola bibliófila, que tem entre nós algum peso de notoriedade, para tornar fácil qualquer empreitada como a que está subjacente no trabalho ora proposto.

Com intenção prioritária virada fundamentalmente para um estudo de evolução do mercado livreiro nacional nos últimos vinte anos, as páginas que se seguem procuram alcançar um objectivo até agora deixado por preencher nas mais diversas oportunidades e pouco dado aos entusiasmos dos investigadores dedicados a temas afins. Apontando quase exclusivamente para inquéritos destinados a conhecer os hábitos de leitura dos portugueses, quase nada tem sobrado para o conhecimento do próprio livro e da sua evolução enquanto produto comercial lançado nas teias da concorrência do mercado de consumo.

 

O Inquérito ao Livro em Portugal, levado a cabo por uma das mulheres mais notáveis da cultura portuguesa, Irene Lisboa, e editado pela Seara Nova em 1944, e, igualmente, o estudo encetado, pelo professor Jacinto do Prado Coelho, no âmbito do Departamento de Literatura da Faculdade de Letras de Lisboa, em 1978, são raras excepções de uma estranha regra que parece querer afastar o livro de qualquer abordagem profunda e integral.

Em 1944, com a edição e o comércio livreiro atravessar uma crise profunda, Irene Lisboa queixava-se das respostas que recebia por parte dos escassos vinte editores e livreiros que se dispuseram a colaborar no seu Inquérito. Evasivas e quase sempre com reservas, assim viu a prestigiada escritora, as respostas dos editores e livreiros, relutantes em revelar aspectos fundamentais para o que estava em causa conhecer.

Com Jacinto do Prado Coelho, em 1978, basta dizer que do conjunto das 285 editoras a quem foi enviado um questionário de 6 questões, responderam unicamente 16.

As 6 questões pretendiam saber apenas o seguinte:

 

1 – Títulos e autores publicados desde 1973 a1976 (incl.), em língua portuguesa;

2 – Classificação por géneros de cada título (romance, história, policial, etc.);

3 – Ano e mês da publicação (lançamento ou relançamento);

4 – Número de edições de cada título e respectiva tiragem;

5 – Tipo de publicação de cada título (p. ex. livro de bolso/outros);

6 – Preço de venda ao público.

 

Conforme era adiantado, os dados referentes a cada editor seriam tratados confidencialmente. Publicando-se apenas os resultados globais do estudo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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