Carta do Rio – 6 – por Rachel Gutiérrez

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Não sei se é só no Brasil que as notícias sobre jogos de futebol são as principais manchetes da primeira página dos jornais. Durante a Copa, compreende-se, mas entre nós é assim o ano inteiro. Agora, o assunto não pode ser outro e seu destaque, inevitável. E além dos comentários sobre as partidas, acontecimentos ligados aos jogos constituem matéria rica e fértil para os articulistas das rubricas de opinião. Dorrit Harazim, excelente jornalista do Globo, que muito estuda a cultura e o comportamento dos Estados Unidos, revelou o quase assustador esquema de segurança criado pelos norte-americanos para proteger sua equipe; e o escritor de extraordinário bom senso e bom gosto que é Luis Fernando Veríssimo, cuja verve o aproxima, mesmo quando trata dessa sua paixão pela bola, de G. K. Chesterton, o pensador também humorista conhecido como o “príncipe do paradoxo” da literatura britânica do início do século XX, vem publicando crônicas diárias absolutamente antológicas; Cacá Diegues, que além de cineasta, escreve cada vez melhor, referiu- se ao sursis  que está vivendo o país e à reconquista da alegria, apesar de todas as críticas que os gastos excessivos provocam etc, etc.

E além do comportamento descontrolado e da pesada punição do jogador uruguaio, que levou até mesmo o grande Mujica a tentar em vão defendê-lo, o outro assunto incontornável tem sido o xingamento chocante da Presidente da República na abertura dos Jogos. E aqui preciso citar o que escreveu o incansável defensor da causa da Educação –  Cristovam Buarque, senador pelo PDT, partido de Leonel Brisolla, que tanto lutou, junto do visionário Darcy Ribeiro, para melhorar as condições de ensino criando os CIEPS. Buarque aproveitou para nos remeter à nossa história.  Sem deixar de observar que foi injustificável aquela “vergonhosa agressão à presidente e ao país”, também afirmou que “é injustificável que a presidente não reflita sobre (…) suas causas históricas e conjunturais”. E eis o que me pareceu mais importante:

“A incivilidade brasileira não é fenômeno apenas de uma tarde no estádio, é uma característica atávica da sociedade brasileira. Os gritos daquela tarde são ecos de nossa história, ouvidos há séculos no dia a dia da sociedade degradada que caracteriza nossa estrutura social, nosso padrão de distribuição de renda; nossas ruas violentas e maltratadas; nossos serviços públicos ineficientes; a corrupção no comportamento dos políticos e nas prioridades das políticas; o desprezo pela educação das crianças.”

O contundente artigo de Cristovam Buarque acaba com um apelo à presidente, a todos os brasileiros e principalmente aos políticos, alertando para o fato de que simplesmente criticar e manipular o escândalo para tirar proveito da obscenidade gritada e “não buscar suas causas e soluções é um gesto de cumplicidade com os que gritaram.”

Impossível dizer melhor.

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