BISCATES – “O supérfluo sem o qual não podemos viver” – por Carlos de Matos Gomes

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No discurso da moral, o supérfluo surge quase sempre associado ao vício, aos pecados, ao Mal. O discurso da moral – com excepção dos epicuristas – assenta no ascetismo. No ascetismo dos outros, diga-se.

No entanto os fundadores das religiões e os grandes pastores de multidões aperceberam-se muito cedo de que, se não fossem os vícios e o supérfluo, a vida dos humanos era insuportável e por isso não controlável. Não sendo possível exterminar o prazer do inútil, havia que o fornecer com as máximas cautelas, em pequenas doses só de lamber os beiços. A isso chamaram: governar. O panem et circenses, as palavras de Juvenal aos romanos, o nacional fado, futebol e Fátima expressam essa consciência dos que pastoreiam os povos, os governam, os comandam, os salvam, em suma. Os exemplos da natureza confirmam a ideia da centralidade do vício e do supérfluo na vida animal por isso não há nada a fazer a não ser limitar os instintos dos humanos se os queremos dominar (aos humanos). A essa limitação chamaram os pensadores: racionalidade. Os gatos lambem-se horas a fio pelo prazer que obtêm do vício. Muitos primatas masturbam-se continuamente, outros catam piolhos, mas não raciocinam. Nós raciocinamos e logo esses atos são nos humanos condenáveis.

Estou convencido de que não é o prazer que se obtém com um dado gesto que é viciante para os seres da espécie humana e perigosa para os seus pastores, mas sim a ideia de que alguém possa ser donos de si próprio. Esse é o grande perigo para os directores espirituais e materiais da humanidade. Todos os profetas, todos os livros sagrados nos ameaçam porque a ninguém, a não ser aos eleitos, é permitido acreditar que a nossa boa existência depende de não estamos dependentes do essencial, de trabalhar para comer, para termos um abrigo, para nos reproduzirmos.

O pecado original apresentado no Génesis da Bíblia de 3 grandes religiões assenta no facto de Adão e Eva viverem no Paraíso sem trabalhar e não no roubo da maçã, ou na desobediência ao Deus. O pecado, o mau exemplo do casal bíblico, era não fazer nada, viver do supérfluo. Isso não é aceitável, não é exemplo que os chefes da humanidade possam aceitar. Não podíamos ser feitos à imagem e semelhança de um casal que nunca saíra das praias das Caraíbas ou das Maldivas! Já podemos ter sido feitos à imagem e semelhança de um Deus que fez o mundo em seis dias, porque a mensagem divina é: Têm muito que esgalhar para me imitar! Deus não disse, ide e multiplicai-vos, mas ide e trabalhai!

Se alguma coisa é em si mesma prazerosa, logo é considerada inadmissível e condenada. Como bem disse há muito Santo Agostinho, um dos sábios do cristianismo a propósito das relações sexuais, estas pareciam-lhe incompatíveis com o Paraíso. Não se fode no Paraíso, procria-se! Para o santo, a sexualidade é um indicador da queda do homem do seu triste declínio da anterior situação angelical, fazendo com que deslizasse para baixo, para a natureza física, e desta para a sepultura. Admitia que os casais se deveriam preocupar em gerar filhos, mas que o fizessem conscientes de que estavam cometendo um ato de rebaixamento. Era algo necessário, porém degradante, que deveria ser praticado sob os acordes de uma intensa melancolia. E sem prazer. Só por necessidade, como ainda hoje defendem alguns deputados da Nação.

A religião e a política são, no fundo, a arte de uns poucos convencerem a maioria de que o supérfluo é sagrado, no caso das religiões e, no caso da política, um pesado encargo, um aviso que o ministro Mota Soares também não se cansa de fazer, afirmando que os pensionistas são uns supérfluos que andam a gozar os últimos dias de vida à custa de quem trabalha, como por exemplo ele próprio, o doutor Relvas, toda família Espirito Santo, os Pingos Doce…

O maior caso de sucesso contra o supérfluo e a calaceirice é o do IKEA: o cliente paga o produto, vai busca-lo à loja, carrega-o e ainda tem de trabalhar para o ver na sua forma final!

O capitalismo nasceu com a introdução do supérfluo no mercado. Quando um tipo vendeu a primeira roda, a primeira flauta, o primeiro espelho, o primeiro copo de vinho, o supérfluo passou a ter um valor de troca. O capitalismo tornou o supérfluo numa actividade empresarial, com os seus profissionais. Gostava de saber quem foi o primeiro que recebeu dinheiro por contar uma anedota para o comparar com o economista que o aconselhou a investi-las em produtos estruturados, hipotecas incobráveis, por exemplo. A crise do sub prime, a doutrina do neoliberalismo bem explicada é isto: um tipo vende uma anedota em troca da hipoteca a um banco de uma casa de um sem-abrigo!

Mas toda a arte é, desde as pinturas rupestres à Pietá de Miguel Angelo, a elevação do supérfluo à categoria de elemento distintivo da nossa espécie e do nosso sistema de vida com base nos santos mercados. Se todos os seres vivos vivem para o supérfluo e para o prazer viciante que ele proporciona, só a arte e o mercado nos distinguem dos outros animais. A arte é o supérfluo belo, ou o belo supérfluo. Mais uma vez, os sumo sacerdotes e os sumo reinantes perceberam a importância de acrescentar o belo ao supérfluo. As pinturas das capelas mortuárias do Egito, a escultura das esfinges, como as imagens das igrejas do renascimento, as capelas de talha dourada do barroco católico, os monumentos equestres de cabos de guerra e invasores particularmente assanhados são a prova desse aproveitamento e transmitem a mensagem: Isto de colocar o belo a render não é para todos! O supérfluo é uma marca distintiva de classe. Entre uma campa rasa e um monumento funerário num panteão vai uma bela distância do supérfluo sem e com valor de troca.

Entretanto, falando de supérfluo, em pão e circo, está em curso o campeonato do mundo de futebol, que nos vai servir para passar umas horas a fazer o que mais gostamos e não temos que nos sentir culpados de nos alienarmos. Abençoada alienação. Que dure até à eternidade! Assim pudéssemos viver toda a vida, em jogos e descantes, a trincar tremoços e pipocas, a bebericar umas cervejas, a ler A Bola, a discutir os joelhos dos ronaldos, a humidade relativa de Campinas, a assistir de longe às incompreensíveis manifestações das gentes de S. Paulo, às cargas da polícia, tudo por causas supérfluas, claro, porquanto havia a boa intenção de garantir a todo o Mundo, partir do Brasil, que tout va três bien, Madame la Marquise, mais à part ça, tou tva três bien…

Carlos de Matos Gomes

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