O MUNDIAL NÃO SOMOS NÓS. COMENTÁRIO – por Manuel Simões

Imagem3Como se o futebol não usufruisse já de enorme popularidade, o Mundial veio exacerbar a paixão que reúne multidões desde os estádios às praças públicas, a ponto de desencadear “psicodramas nacionais” quando uma selecção sai vencida. E à medida que se desenvolvem as tecnologias, maior é a insistência com que o cidadão é martelado com imagens, comentadores de lugares-comuns, porque os “media” também já fazem parte deste alto negócio que é o futebol, amplificando fortemente as incidências dos jogos, e alienando a consciência colectiva a um evento que perdeu qualquer ligação com o desporto. No caso português, é inaceitável que a RTP tenha dedicado dez horas de transmissão (só no canal generalista) em cada um dos três dias de jogos da selecção, sem olhar a despesas com os ditos especialistas do comentário, quando a administração pretende rescindir contratos ou despedir funcionários. E tal como já aconteceu no “Euro 2004”, foi enorme o investimento financeiro em contraposição com a austeridade que é imposta ao país

Ora a paixão gera conteúdos ideológicos; e quanto às ligações entre futebol e ideologia, os exemplos são flagrantes, tantos e tão evidentes se manifestam na prática quotidiana e no modo como se processa o enredamento público numa teia que serve para garantir a chamada ordem social, cimentando as manifestações do poder político: uma grande percentagem dos portugueses tem um discurso (e um centro de interesses) que não vai para além do futebol-competição, aspecto que qualquer Mundial vem agudizar até pelos nacionalismos passadistas e patéticos, fomentados pela televisão, tendo atrás de si patrocinadores e agentes/empresários, os grandes beneficiários desta indústria do espectáculo e que tiranizam os actores em nome dos dividendos que encaixam sem nada produzirem.

 Os actores, esses, exibem-se a contento, e este Mundial brasileiro é fértil em demonstrações exóticas ou modismos, certamente efémeros, com que preparam a sua aparição no palco. Refiro-me às tatuagens quase generalizadas e aos penteados excêntricos (Balotelli talvez seja o arquétipo de Raúl Meireles & companhia), que não deixarão de estar ligados, suponho eu, à personalidade de cada um.

 E outro aspecto que este Mundial veio confirmar é o que se prende com a importância da religião, ou melhor, da superstição que está profundamente enraizada no espírito de jogadores e técnicos. Já se sabia da protecção invocada por Scolari a Nossa Senhora da Candelária (às vezes falha…) e da importância que este técnico atribui à “oração com o grupo”. Mas agora, no Brasil, a selecção canarinha pode ainda contar com o contributo da macumba (mães-de-santo e deuses afro-brasileiros), enquanto as outras selecções chegam a recorrer a bruxos, cartomantes, etc.. Vi um guarda-redes ajoelhar-se diante da baliza, antes do jogo, rezando a não sei que deus, deve haver vários a pairar nos santuários/estádios como se se tratasse das guerras no Olimpo entre Júpiter/Zeus e os deuses menores. A um comentador televisivo ouvi referir que certa jogada da selecção brasileira tinha sido certamente construída por Deus: deve ser o dos católicos (ou o da variante protestante) porque no Mundial havia outros deuses mas estes já foram mandados para casa.

 Para nós, falantes de português, o Mundial deu-nos a oportunidade de importar a palavra “Copa” – creio que, por sua vez, já foi importada do italiano -, que se propagou como um fósforo e já é de uso generalizado nos meios de comunicação. E não importámos mais expressões porque não ouvimos os comentaristas brasileiros; senão estaríamos agora a usar expressões como “escanteio” ou “zona do agrião” (pequena área) que atestam a criatividade linguística brasileira. Mas este é o intercâmbio saudável que nada tem a ver com o (des)acordo ortográfico que nos querem impor e com as maquinações da CPLP, mas essas pertencem a outra história.

 Uma nota positiva: li que os jogadores gregos renunciaram aos prémios de jogo, destinando o montante à construção de um novo centro de estágios. E teriamImagem1 dito: «Não queremos prémios extra ou dinheiro, jogamos apenas pela Grécia». Também os jogadores da Argélia, num gesto talvez ainda mais nobre, destinaram os prémios a instituições de solidariedade da Faixa de Gaza. Afinal, nem todos são mercenários de uma indústria que se chama futebol.

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  O artista  chama-se  Paulo Ito, do bairro de Pompeia, em São Paulo. Parece que é o primeiro mural que ganha repercussão em todo o mundo.

 

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