VAMOS BEBER UM CAFÉ? – 4 –  por José Brandão

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Café mágico

 

Durante muito tempo, pensou-se que a planta do café fosse de facto originária da península arábica, mas evidências posteriores sugeriram que o seu verdadeiro berço fosse a Etiópia onde, ainda hoje, cresce naturalmente nas florestas húmidas do país. Julga-se terem sido as tribos nómadas da região que descobriram, há mais de mil anos, os poderes estimulantes das suas bagas, usadas primeiro como alimento, esmagadas e misturadas com gorduras animais e, depois, como bebida, juntas a água quente.

A maneira como este arbusto viajou da Etiópia para o lémen não é conhecida; foram possivelmente mercadores árabes que, há mais de 700 anos, trouxeram para a terra natal alguns pés da planta do café, O que se sabe é que foi na costa iemenita do Mar Vermelho, na outrora próspera cidade de Moka, que o café, o chamado mokha, começou a ser cultivado e que se expandiu progressivamente até se tornar famoso no mundo inteiro.

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No Médio Oriente, por volta do século XIII, os grãos de café já eram torrados e moídos para fazer uma infusão basicamente igual à que hoje se bebe. O café tornara-se num hábito quotidiano; as casas de café que iam abrindo um pouco por todo o lado eram pretexto para festas e convívio. A bebida era mesmo comparada à água sagrada do poço de Meca, a ponto de se pensar que quem morresse com café no estômago ficava livre das chamas do inferno.

Os estrangeiros que paravam por terras da Arábia não podiam deixar de cobiçar os aromas da divina bebida e, apesar dos esforços dos árabes para controlar o monopólio do café, alguns mercadores iam levando discretamente sementes da planta para outros destinos. Nos anos de quatrocentos, os preciosos grãos já eram conhecidos na Pérsia, na Turquia, no Egipto e no Norte de África. Comerciantes turcos levaram sementes para a índia, de onde chegaram depois a Java, nos barcos dos holandeses.

Em 1615, os turcos deixavam em Veneza o primeiro carregamento de café que entrava assim, finalmente, na Europa. Chegou rapidamente a Roma e os seus efeitos estimulantes suscitaram tamanha consternação no meio clerical que chegou a ser pedido ao papa Clemente VIII que proibisse o consumo daquela que diziam ser a “bebida do diabo”. Para azar dos queixosos, o papa provou e gostou; recusou qualquer tipo de sanção e acabou por abençoar a controversa bebida que, em pouco tempo, era consumida em toda a Europa.

Entretanto, os cafés proliferavam pelas grandes cidades da Europa, como pontos de encontro de artistas, intelectuais e políticos famosos que neles passavam tardes a fio, a amadurecer e discutir ideias e teorias inovadoras. Não é por acaso que os turcos chamavam aos seus cafés escolas dos sábios. É que o café estimula o intelecto, ajuda a pensar com mais clareza e torna os discursos mais fluentes. Diz-se que foi num café que a revolução francesa foi engendrada. Sabe-se que a poderosa companhia de seguros londrina Loyd’s deve o seu nome ao café onde os seus fundadores se encontravam diariamente para a discutir e idealizar. Na Brasileira de Lisboa, Pessoa, Amadeo, Almada e outros, insurgiram-se e protestaram contra a pequenez e a indiferença que vigoravam no país. Perde-se a conta dos nomes de escritores, pintores, músicos, filósofos e outros inconformados que mudaram o mundo sentados à mesa de um café.

É óbvio que uma bebida tão poderosa tinha de ser temida por alguns: Carlos II, rei de Inglaterra, mandou fechar, em 1675, todas as casas de café por julgá-las uma ameaça à estabilidade da Coroa. Também na Prússia, Frederico, o Grande, proibiu o consumo de café fora da sua corte. Um grupo de mulheres revoltadas – na altura, as mulheres não podiam entrar nos cafés -, publicaram uma petição, em 1674, onde afirmavam que os cafés eram uma tentação para os seus maridos que os afastava de casa e que, para além disso, a bebida em si tornava-os impotentes! Escusado será dizer que os cafés a tudo resistiram e muitos deles, ainda hoje, continuam a ser espaços privilegiados de tertúlia e meditação.

 

 

A seguir – Histórias do café

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