Carta do Rio – 7 – por Rachel Gutiérrez

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Ainda à sombra ou à luz da Copa, ocasião sem dúvida privilegiada de congraçamento e convívio alegre com os visitantes de tantos países e costumes diferentes, que nos fascinam e enriquecem. A Costa Rica, por exemplo, cuja seleção prefere comer como desjejum um refogado de feijão com arroz e condimentos, também surpreende e encanta por vários outros motivos: o pequeno país da América Central do qual faz parte a Ilha do Coco, declarada pela Unesco Patrimônio Natural da Humanidade, possui o rio mais limpo do mundo, fauna e flora preservadas numa superfície em grande parte coberta por bosques e selvas, além de praias paradisíacas e sua maior cidade, a capital San José, tem pouco mais de 300 mil habitantes. Mas o mais surpreendente ou invejável é que a Costa Rica teve seu exército abolido em 1948 e em seu lugar foi criada uma Guarda Civil, que mantém a ordem nas cidades e nos campos.

Uma coisa leva à outra e a repercussão dos bárbaros assassinatos em Israel e suas possíveis represálias violentas me remeteram ao que a grande filósofa da História do século XX declarou num seminário, organizado por intelectuais de Nova York, em 1961, sobre “a legitimidade da violência”. Hanna Arendt, a judia discípula de Heidegger, que fugira do nazismo alemão décadas antes, afirmou: “De um ponto de vista geral, a violência provém sempre da impotência”. E referindo-se ao poderio bélico dos Estados Unidos, o país onde viveu e lecionou até morrer, continuou: “Pretender, por exemplo, que este país é o mais poderoso da terra porque possui o maior arsenal de destruição seria ceder à tentação habitual mas errônea de identificar o poder com a violência.”

E isso me remete a um outro judeu, argentino, igualmente ilustre e corajoso, o músico Daniel Barenboim que poderia se contentar em ser um dos mais famosos e bem sucedidos pianistas e regentes da atualidade, que criou com seu melhor amigo, o intelectual palestino Edward Said, e com um alemão, Bernd Kauffmann, a orquestra sinfônica West-Eastern Divan, formada por jovens músicos do Egito, Irã, Israel, Jordânia, Líbano, Palestina, Síria e da Espanha. A orquestra formada, portanto, por muçulmanos, judeus e cristãos está sediada em Sevilha, cidade de longa tradição multicultural.

E voltando aos trágicos acontecimentos de Israel, não deixa de ser alentador que o líder do Partido Trabalhista, sem negar a necessidade de capturar e punir os assassinos, se declare contra qualquer tipo de vingança e tente intervir para acalmar a situação em seu país. Referindo-se aos vizinhos palestinos, Yitzhak Herzog afirmou: “Viveremos juntos para sempre. Temos que buscar a paz.”

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