MITO & REALIDADE – AS EDITORAS E O LIVRO ANO A ANO – 1 – Para a História da edição em Portugal – por José Brandão –

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Sobre o mundo editorial, há ideias feitas que, na maior parte dos casos, não correspondem à realidade. José Brandão vai em alguns artigos falar sobre esse tema – realidades da edição em Portugal – Começa por um tema sobre o qual se tem falado pouco – a censura feita aos livros.

AS EDITORAS E O LIVRO ANO A ANO

Em vésperas do 25 de Abril de 1974, um conjunto de alguns dos melhores editores nacionais estava agrupado num bloco editorial chamado Expresso. Começando por ser o Clube de Leitores, a Expresso arrancou em de 1970 com a garantia de ter no seu rol o nome de editores que dispensavam qualquer apresentação especial: A EDITORIAL ESTÚDIOS COR, a EDITORIAL PRESENÇA, a LIVROS HORIZONTE, a PRELO EDITORA, as EDIÇÕES DELFOS, a EDITORIAL ESTAMPA, a SEARA NOVA, e ainda, O TEMPO E O MODO e a VÉRTICE, duas publicações sobejamente conhecidas na época – tal como os editores do grupo – são campo fértil para os 20 000 sócios do Clube Expresso: uma organização que tem como objectivo aproximar o leitor da produção editorial; porque actividade editorial não é apenas programar títulos, imprimir livros: é também o seu consumo, a leitura, a sua venda.

  Por ocasião do Natal de 1971, o já BLOCO EDITORIAL EXPRESSO, tinha esta curiosa forma para promover a venda de livros:

da sua mulher,

aos seus amigos,

aos seus filhos,

ao patrão,

à namorada,

aos seus empregados,

à porteira,

à sogra,

ao avôzinho,

Você pode oferecer: uma rosa, um automóvel de desporto,

um rebuçado, um cacto, um colar de pérolas…

Mas já pensou que pode oferecer livros?

Em 1972, A LIVRARIA JÚLIO BRANDÃO junta-se ao grupo e, em 1973/74, o Bloco Editorial Expressoconta com a adesão de mais algumas editoras que trazem consigo um valioso espólio de títulos e autores consagrados. Para ter uma ideia do que representava esta união de editores em 1973, basta lembrar que cerca de um terço dos livros proibidos nessa altura eram títulos de editoras associadas na Expresso. Dos dez editores portugueses com mais obras retiradas do mercado, seis estavam integrados neste Bloco, que, no entanto, não iria ter longa vida após o 25 de Abril de 1974, e, já com o fim a delinear-se no horizonte, a Expresso deixava a seguinte mensagem:

 A EXPRESSO – BLOCO EDITORIAL DE DISTRIBUIÇÕES pode orgulhar-se da sua já bem conhecida e fecunda contribuição para o desenvolvimento cultural do país, pondo à disposição dos leitores muitas das melhores obras de todos os géneros até hoje publicadas em Portugal.

 Como Clube de Leitores, ou como Bloco de Editores, a Expresso desempenhou uma tarefa de indiscutível valia na divulgação e acesso ao livro.

Se se recordar que em Abril de 1973, e segundo um estudo da época, “três quartas partes das famílias portuguesas dispunham de menos de 3500 escudos mensais, um quinto entre 3500 e 6500 e apenas cerca de um décimo mais do que isso,” não é difícil entender como era complicado editar e vender livros num país onde 90 por cento da população adulta nunca tinha lido um único livro que abordasse problemas sociais.E onde perto de 25 por cento nunca lera um jornal, e mais de 45 por cento qualquer tipo de revista.

 E, enquanto mais de 20 por cento lia o Diário de Notícias, menos de 6 por cento lia o jornal República. Ou, onde 34 por cento lia as revistas Século Ilustrado ou a Flama, e menos de 10 por cento lia a Vida Mundial, e pouco mais de 7 por cento o semanário Expresso. E aonde uns escassos 4,2 por cento lia a Seara Nova, e menos ainda o Comércio do Funchal, (1,6%); o Notícias da Amadora, (1,3%) e O Tempo e o Modo, (1,3%).

 Significativo, ainda, verificar que nesse ano de 1973, e segundo estudo feito na época, 64,5 por cento dos portugueses preferia acompanhar as notícias pela Emissora Nacional, e 31 por cento pelo Rádio Clube Português. Isto apesar de 52 por cento não confiarem na rádio, enquanto no caso jornais e revistas essa não confiança quedava-se, então, pelos 29 e 23 por cento respectivamente.

 

 

 

 

 

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