A FINAL DO MUNDIAL DE FUTEBOL – Um grande espectáculo a coroar um torneio de excepção – por Paulo Rato (enviado especial)

imagem3Na próxima semana apresentaremos uma crónica final, completando a série que dedicámos à memória de um grande e saudoso amigo – Sílvio Castro – que se comprometera a comentar nas tardes de sexta-feira o Campeonato do Mundo de Futebol. Depois de António Gomes Marques, Carlos Loures, João Machado e Manuel Simões, é Paulo Rato que, completando a participação da equipa dos amigos de Sílvio, nos apresenta uma crónica satírica sobre a «Copa». Não queremos sequer imaginar o desgosto que o nosso amigo teria sentido com a pesada derrota do seu Brasil. Preferimos pensar numa das suas intermináveis e tão peculiares gargalhadas ao ler este relato de um jogo entre a Bulménia e a Servósnia… Tem a palavra o nosso enviado especial.

A tão ansiada final do Campeonato do Mundo, que pôs frente a frente duas das maiores potências da modalidade – a Bulménia e a Servósnia – decorreu com o equilíbrio que já se esperava (ainda que o favoritismo pendesse para a equipa que acabou por arrebatar o troféu), terminando com um resultado quase tangencial: 37-35. De facto, foi por esta escassa diferença que a Bulménia se sagrou campeã, perante uma Servósnia que, menos bem servida de valores individuais, se bateu com dignidade e empenho, explanando no campo uma táctica bem estudada, que levou até ao limite do possível.

O jogo, à imagem da generalidade do campeonato, decorreuno mais rigoroso acatamento das regras deste desporto,como novos e dedicados dirigentes, com o indispensável apoio tecnológico, foram impondona última década. Regras simples mas que, em tempos não muito distantes, que alguns cidadãos não conseguemrecordar sem uma certa náusea, originavam interpretações subjectivas estranhamente controversas e conflituosas. Curiosamente, a juventude e consequente falta de experiência e maturidade emocional da maioria dos elementos das duas equipas – cujas qualidades técnicas são bem conhecidas – criou algumas dificuldades inesperadas ao famoso árbitro lusitano Pedro Intransigença e à sua prestigiada equipa de auxiliares.

Iniciado o prélio, logo os bulménios procuraram fazer valer a superior qualidade das suas individualidades, tentando construir rapidamente um resultado que os livrasse de preocupações, revelando-se mais activos e levando repetidas vezeso perigo à baliza do adversário.

Porém, aproveitando o excessivo adiantamento da equipa contrária, os servósnios colocaram-se na frente. Logo nos primeiros. Num rápido contra-ataque, conquistaram um canto. Quando Garavic se preparava para a sua marcação, dentro da grande-área registaram-se alguns empurrões e abraços pouco afectivos entre defesas e atacantes. Logo o árbitro fez uma pequena prelecção aos jogadores envolvidos, recordando-lhes quais as partes do corpo cuja utilização é permitida nesta modalidade, bem como a definição rigorosa dos gestos e movimentações aprovadas pelos regulamentos, sendo proibido tudo o que se assemelhe a técnicas usadas no râguebi e outros desportos, como placagens, choques não acidentais ou constrangimento dos movimentos do adversário. Lembrou-lhes, ainda, que as regras se aplicam, de igual modo, em toda a superfície delimitada pelas quatro linhas.

O entusiasmo juvenil de umdefesabulménio, Defcanhotan, fê-lo reincidir num desses gestos proibidos, levando o árbitro a marcar a consequente falta, no caso, uma grande-penalidade (pois fora praticada dentro da área), impecavelmente convertida por Golovic, e a mostrar ao prevaricador o cartão azul, que o excluía por 10 minutos. A esta contrariedade somou-se idêntica exclusão, por protesto, de Sordonov. Aproveitando a superioridade numérica, rapidamente a Servósnia marcou mais dois golos, ambos da autoria de Stremdextrovic.

A Bulménia reorganizou-se, fechou-se bem na defesa durante o período de exclusão dos seus dois jogadores e chegou ao golo, ainda nesse período, pelo sempre oportuno Centravancov, que reeditou a proeza já com as duas equipas em igualdade numérica.

Pouco depois, quando a maior estrela da Bulménia, Christianeyev, corria para a baliza, depois de fintar vários adversários, Lateralic derrubou-o, numacto denominado, naera pré-civilizada de má memória, de “falta cirúrgica”, então defendida, com inusitada seriedade, por uns senhores muito compenetrados, em longuíssimas reuniões televisionadas, obtendo a concordância dos outros senhores presentes, assentindo,com os crânios movendo-se lentamente, pesados da areia pútrida que os preenchia. Intransigença mostrou o vermelho directo ao faltoso e do livre resultou o golo do empate. Embalados pelo entusiasmo desse primeiro golo, depressa os bulménios aumentaram a vantagem, não sem que se registassem mais algumas expulsões, em ambas as equipas, devido à distracção de umas tantas jovens “estrelas”, que, no calor do confronto, se esqueceram de que, actualmente, as regras do futebol se aplicam sempre com toda a exactidão, sendo qualquer complacência do árbitro severamente punida pelas instituições que dirigem o futebol.

Deve-se, porém, salientar queo intervalo chegou sem que se registassem mais do que três expulsões definitivas para a Bulménia e quatro para a Servósnia. Marcaram-se mais doze golos para cada lado, 21 de grande-penalidade, dez para os bulmenos e 11 para os servósnios. O somatório dava um empate de 15-15, que se revelava justo, dado o modo como a partida se desenrolara até ao momento.

O segundo tempo trouxe algumas substituições, cuja lista, bem como a dos autores dos golos e outros elementos informativos e estatísticos, os nossos leitores podem consultar no final desta crónica, como habitualmente. O jogo tornou-se mais aberto, sobretudo pelo aproveitamento, por um conjunto de atletas de elevada craveira técnico-táctica, dos espaços sucessivamente gerados por mais algumas expulsões temporárias.

Tal permitiu que os golos fossem surgindo com maior frequência, nesta segunda parte, como, de resto, quase sempre acontece, hoje em dia.

Sublinhe-se que não se registarammais expulsões definitivas, pois o breve desnorte dos jogadores mais jovens fora debelado pela acção correcta e firme do árbitro.

Um velho comentador televisivo (o mesmo que aplaudia as “faltas cirúrgicas”), hoje praticamente reduzido a um crânio chocalhante montado numa estrutura cibernética, ainda tentou polemizar, nos comentários ao jogo, sobre a validade de um golo da Servósnia, marcado por Medavnic, pois o esférico ficara na sua possedepois de bater, acidentalmente, no braço de um colega de equipa, tendo-lhe sido explicado pelos restantes comentadores (com mal disfarçado desprezo, o que seria de evitar nestas transmissões directas de grandes acontecimentos desportivos) que as regras eram exactamente as mesmas, quer a colisão acidental acontecesse com um atacante, na área do adversário, quer com um defesa, na própria área.

Este incidente vem, mais uma vez, reforçar a nossa opinião de que não tem qualquer utilidade o convite a estas relíquias do comentário desportivo, já empoeiradas quando pontificavam na paisagem comentarista, cuja presença apenas serve para serem cruelmente achincalhadas, sem qualquer utilidade pedagógica, perante um público actualmente muito mais bem preparado para – conhecendo as regras,estando ciente do rigor da sua aplicação e tendohá muito abandonado o fanatismo cego que acompanhava os adeptos primitivos – usufruir do prazer do espectáculo, da técnica dos executantes e das descobertas de novas tácticas que vão sendo introduzidas por treinadores cada vez melhor preparados, técnica e civicamente.

Ainda há poucos dias, um outro convidado foi confrontado com uma gargalhada geral, em pleno estúdio, por se ter referido a um resultado bastante desnivelado como uma “humilhação” para a equipa vencida, noção plenamente absurda e ridícula, justamente caída no esquecimento, pois, em desporto não há humilhações, apenas diferentes graus de desempenho, diferentes níveis entre desportistas, cujo desempenho advém dessas diferenças e de outros factores inconfundíveis com o conceito de “humilhação”.

O encontro terminou com quinze jogadores em campo, um número aceitável para um embate com esta envolvência, em que o sentimento de pertença dos adeptos a diferentes comunidades, com raízes históricas e culturais profundas, ainda prevalece sobre o puro prazer do espectáculo. Mas estamos já bem longe do período imediatamente posterior à decisão de aplicar com rigor e equidade as leis do futebol, quando os jogos terminavam com dois ou três elementos em campo.E adivinha-se que, em breve, raro será o espectáculo que termine sem a totalidade dos jogadores e um número mais reduzido de golos (ainda que resultados nulos sejam hoje em dia, impensáveis, dada a quase total ausência de faltas deliberadas e a inevitável marcação de algumas grandes-penalidades, pois ainda há quem, num ou noutro momento, se esqueça de que, por exemplo, agarrar o braço ou o ombro de um adversário – mesmo sem o derrubar – não se coaduna com os regulamentos deste desporto e é, sempre, falta).

A Bulménia acabou por vencer com justiça, mas a Servósnia foi um adversário digno, que muito contribuiu para os momentos esteticamente mais destacados do jogo, feitos da beleza do movimento harmonioso dos corpos na sua ligação com o esférico e da criatividade com que os jogadores, hoje sem receio de sofrerem agressões por parte dos seus colegas de profissão e arte, deslumbram os verdadeiros apreciadores do espectáculo desportivo.

Num espectáculo de elevado nível colectivo, não podemos deixar de destacar os desempenhos do bulménioChristianeyev (14 golos) e do servósnio Messianic (16), que confirmaram o seu estatuto de “génios” do futebol, sendo o segundo naturalmente mais decisivo numa equipa com uma quantidade menor de executantes de excepção.

É gratificante verificar que, no futebol, triunfou o desporto-espectáculo sobre a comercialização, os interesses económico-financeiros, a subordinação da saúde dos intérpretes desportivos à ditadura das transmissões televisivas, a corrupção, o facilitismo, as desigualdades de tratamento de equipas e países e todo um cortejo de comportamentos moralmente inaceitáveis. E isso sem que se desistisse da paixão, mais focada na qualidade do espectáculo que em rivalidades tontas que os antigos dirigentes alimentavam em seu próprio proveito, nomeadamente material, não nos iludamos…

Infelizmente, esta viagem em direcção ao progresso ainda não foi transporta para as “grandes-áreas” da vida e da civilização humanas. Mas isto seria já assunto para outras crónicas, que não desportivas. Fiquemo-nos, pois, pela alegria de apreciar um golo de génio, pela beleza de um lance colectivo.

Leave a Reply