EDITORIAL – PARABÉNS, BRASIL!

Correm mundo as imagens de multidões de argentinos cantando uma irritante canção jocosa -“Brasil decime qué se siente, tener en casa a tu papá”. Os brasileiros sorriem. O que podem fazer?

Em 1950 foi bem pior. O Brasil esmagara a Suécia por 7-1 e a Espanha por 6-0 e naquele 16 de Julho a certeza da vitória sobre o Uruguai era tão grande que a hipótese de a equipa brasileira não se sagrar campeã do mundo era uma ideia absurda que não cabia em nenhuma cabeça. A imprensa e o público em geral aclamavam o Brasil como novo campeão mundial dias antes da final. Perante 200 mil espectadores que enchiam por completo o Maracanã, o prefeito do Rio de Janeiro fez antes do apito inicial este discurso: “Vós brasileiros, a quem eu considero os vencedores do campeonato mundial; vós brasileiros […] sereis aclamados campeões por milhares de compatriotas […]; vós que superais qualquer outro competidor; vós que eu já saúdo como vencedores!”

O jogo começou com: uma sucessão de ataques brasileiros que a defesa uruguaia susteve e a primeira parte acabou sem golos. No recomeço, o Brasil marcou aos dois minutos, o que empolgou a assistência. Mas, apesar da sua capacidade ofensiva, o Brasil mostrava falhas na defesa – aos 21 minutos, Schiaaffino empatou, silenciando a multidão. Quando faltavam 11 minutos para a o termo, Ghiggia correu pela ala direita e fez outro golo. O Uruguai venceu. Jules Rimet, presidente da FIFA, preparara um discurso em português para felicitar os vencedores, que, segundo esperava, seriam os brasileiros. Mas, quando descia da tribuna para o relvado, assustou-o o silêncio sepulcral..

Nos dias que se seguiram, não era bom para a saúde ironizar sobre a derrota. Houve cenas de violência contra imigrantes, alguns pelo crime de sorrir no momento errado…

64 anos depois, os brasileiros suportam com alguma irritação, mas com maior fair play as manifestações de alegria dos hinchas. Salvo uma ou outra picardia, a equipa brasileira demonstrou uma postura correcta. Nas nossas retinas perdura   a imagem de David Luiz abraçando James Rodríguez, o   jovem colombiano que chorava a    derrota.  Em seis décadas o Brasil demonstra, através dos seus jogadores e do seu público,  ter evoluído muito em termos comportamentais. E isso é mais importante do que vencer jogos de futebol. Parabéns,    Brasil!

Os argentinos ainda não ganharam e diríamos que nem sequer se podem considerar favoritos para o jogo de amanhã. Em matéria de criatividade e de ironia, os brasileiros não necessitam de conselhos – mas se a Alemanha vencer, esta repetitiva melodia dos hinchas pode ter resposta numa fácil adaptação do tema de Andrew Lloyd Webber – No llores por Brasil, Argentina, ahorra tus lágrimas para tí…

Em Portugal as opiniões estão divididas. Julgamos não errar se dissermos que a maioria está com a Argentina. O espírito europeísta é débil e a popularidade da Alemanha não está num bom momento. Porque será?

 

 

 

 

1 Comment

  1. Obrigada, Carlos Loures.
    O que se pode louvar do Brasil, também, é seu irresistível senso de humor, que faz troça até de si mesmo.. As piadas, nas redes, surgiram segundos depois da derrota. Uma das primeiras: Recomenda-se rever na TV os filmes da Segunda Guerra, nessa a Alemanha perdeu! E logo esta: Para curar a derrota, só um outro alemão – Alzheimer!

    E acredito que depois das lágrimas e dos risos, teremos coisas mais sérias a tratar. Oxalá!
    abraço grato,
    Rachel

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