OBAMA DEVE IGNORAR OS GUERREIROS E CENTRAR-SE NA ECONOMIA – por KATRINA VANDEN HEUVEL

Selecção, tradução e montagem por Júlio Marques Mota

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Obama deve ignorar os guerreiros e centrar-se na economia

 

KATRINA VANDEN HEUVEL, Washington Post  

24 de Junho de 2014

Com o Iraque a explodir  (de novo) e as tensões a aumentarem  na Ucrânia e no mar da China Meridional, o debate nos Estados Unidos está centrado  na intervenção militar. Os neoconservadores, nada tendo aprendido com estas  calamidades que eles próprios provocaram no Iraque, acusam  o Presidente por não intervir na Síria e por  abandonar o Iraque. Os intervencionistas liberais, não tendo aprendido nada com as calamidades agora visitadas na Líbia  apelam ao bombardeio modulado em ambos os países. A administração sitiada envia aviões para os países bálticos e para a  Polónia, navios para a Ásia, tropas para Bagdad,  sustenta centenas de bases ao redor do globo e é acusada de se  retirar do mundo. Os comentadores questionam criticamente sobre se o cansaço da guerra do povo americano não impedirá  a “nação indispensável” de fazer o que deve ser feito.

Obama guerreiro - ILegenda. Mais de uma dúzia de aviões  F-16 e 300 elementos das forças armadas americanas serão  enviados para a Polónia, na próxima semana. Photo: ALAMY

 [À margem do presente artigo, publicado há já vários dias, o Washington Post publica hoje, 25 de Junho,  um cartoon curioso. Ei-lo:

Obama guerreiro - II

Desenho de : ANN TELNAES.

Um cartoon que vale um extenso artigo, é a minha opinião]

Quando se tem um martelo na mão, como nos diz o ditado popular,  tudo o que se vê é parecido com um  prego. O martelo dos Estados Unidos são  as   suas forças armadas –  e estas  são as mais sofisticadas no mundo — e os pregos aparecem numa  variedade infinita através do globo.

Virtualmente ausente do debate está  o problema da  conscientização de quanto é que custa o compromisso dos Estados Unidos em  policiar o mundo ou seja de quanto é que nos  diminui em capacidades para  tratar das necessidades reais de segurança das pessoas  e do globo. Na semana passada, Richard Trumka, presidente do AFL-CIO, expressou-se numa conferência a lembrar-nos  do que está a ser  perdido neste jogo de forças.

Como Trumka sublinhou, o mundo ainda está a lutar   para recuperar da  pior crise económica desde a Grande Depressão. O Banco Central Europeu passou agora a aplicar  taxas de juro negativas numa situação de  pânico sobre a deflação — com os preços em  queda e na ausência de estímulos positivos pelo lado da procura agregada —  pânico este que se está a espalhar por todo do continente. A austeridade europeia está a condenar toda  uma geração ao desemprego e ao desespero.

No Estados Unidos, foram necessários seis anos para recuperar os  postos de trabalho  perdidos na recessão. Cerca de 20 milhões de pessoas ainda não conseguiram encontrar um posto de  trabalho a tempo integral. Os rendimentos domésticos estão estagnados  ou mesmo em  diminuição  no quadro da família típica. Os salários não estão a evoluir ao mesmo ritmo que os custos dos bens e serviços necessários. A economia global funciona a bom ritmo somente  para uns tantos que podem gozar a sua riqueza  para além do que é imaginável mas não são  muitos. As regras, como Elizabeth Warren argumenta  são pura e simplesmente manipuladas ou contornadas. A política comercial e fiscal, a política monetária, a austeridade orçamental e os direitos laborais foram claramente manipulados  para manter os salários  em  baixa

O resultado, argumenta Trumka, é uma economia mundial instável e desarticulada em que a deflação ou pior ainda que a deflação são sempre uma ameaça e em que  o crescimento só é visível nas  bolhas financeiras. As elites estão a prosperar sustentadamente e consideram   que podem continuar como antes. As empresas escondem lucros no exterior enquanto defendem a aplicação de reduções fiscais. Entretanto, as alterações climáticas catastróficas, já reconhecidas até pelo próprio  Pentágono como sendo de  perigo crescente, possivelmente não irão ser evitadas nem enfrentadas  de forma conveniente uma vez que  a atenção do mundo está centrada não na economia,  a funcionar de forma disfuncional,  mas somente sobre na propagação da violência e do autoritarismo que são, na sua maior parte,  o resultado dos actuais  problemas económicos.

O Presidente Obama é ridicularizado  por sensatamente tentar acabar com duas das guerras actuais e está  relutante em entrar em novas situações de guerra. Mas onde Obama falhou verdadeiramente tem sido na sua  incapacidade ou  falta de vontade para alcançar  um NEW DEAL global, o que exigiria a criação de  novas regras para a economia global, novas regras que iriam dar  origem a uma prosperidade partilhada e a  uma comunidade global ao invés de uma Idade de Ouro da  desigualdade  e  da  plutocracia.,

Isso exigiria políticas comerciais de âmbito global que protejam  os direitos dos trabalhadores e o ambiente e não apenas os direitos dos investidores. Seria necessário acabar com os desequilíbrios comerciais graves, nomeadamente limitando fortemente s práticas mercantilistas da Alemanha e da China. Seria necessário um compromisso em torno do pleno emprego aqui e rapidamente,  impulsionado por importante e necessários  investimentos públicos em áreas vitais para uma sociedade decente — desde  esgotos e pontes até a  escolas e à energia sustentável. Seria necessário dinamizar a revolução industrial dita revolução verde por respeitadora do meio ambiente  para que o crescimento e o emprego seja  sustentável.

Nos anos Clinton, o então embaixador dos EUA na  ONU, Madeleine Albright, segundo se relata[1]  terá desafiado Colin Powell num  debate sobre bombardear ou não a Síria: “Qual é a razão de ser de termos tão importante   aparelho militar se o senhor está sempre a dizer que  não o podemos usar?” Armados com o nosso martelo, capazes de matar  terroristas com drones, capazes de controlar as forças com os satélites, de colocar escutas telefónicas  em todo o mundo, como é que podemos evitar de querer  martelar  em todos os pregos que descobrimos?

Do que realmente precisamos é  de ignorar os guerreiros de  poltrona e os lobbies militares. Centrar a nossa atenção na economia global, que é fundamentalmente disfuncional, desarticulada, sobre as regras que estão mal concebidas ou facilmente violáveis. Precisamos de centrar a nossa atenção na  construção de uma economia de crescimento sustentável e partilhado — e não de  andarmos a policiar um globo que se desenvolver  de maneira  cada vez mais instável e violenta sob as condições atuais de funcionamento e de policiamento.

As grandes nações não entram em decadência porque esquecem o que as fez grandes. Elas morrem porque elas continuam a fazer o que sempre  fizeram, ignorando o facto de que o mundo mudou. A ala dos que consideram os EUA como a “nação indispensável[2]” está enganada. Um poderoso exército funciona melhor se não tem de ser utilizado, permitindo aos nossos dirigentes centrarem-se  sobre as verdadeiras  ameaças à nossa segurança. E os militares, com todo  o seu poder, não podem resolver os crescentes perigos postos por uma economia global desarticulada e a funcionar de forma disfuncional  e  sujeita ainda a  mudanças climáticas catastróficas.

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[1]  Nota de tradução. Penso que o autor foi buscar a informação a este texto do Washington Post que aqui reproduzimos. Decidimos deixá-lo na língua de origem.   Michael Dobbs, Washington Post Staff Writer,  December 8, 1996; “    In his memoirs, Powell recalled that he almost had “an aneurysm” when Albright challenged him to explain “What’s the point of having this superb military you’re always talking about if we can’t use it?”

[2] Ao que me dizem quem lanço a ideia de « nação indispensável” foi Hillary Clinton.

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Ver original em:

http://www.washingtonpost.com/opinions/katrina-vanden-heuvel-obama-should-ignore-the-warriors-and-focus-on-the-economy/2014/06/23/e5e49a7a-fae5-11e3-b1f4-8e77c632c07b_story.html

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