CONTOS & CRÓNICAS – A reencarnação de Luís de Camões (ou o desacerto de uma parelha) I – por Manuela Degerine

contos2 (2)

Tinha treze anos quando li “O fio da navalha” de William Somerset Maugham por a professora de Geografia evocar o percurso do protagonista, Larry, um jovem americano que aprende o grego antigo em Paris, vai para Lens laborar numa mina de carvão, em seguida viaja a pé pela França, pela Bélgica, pela Alemanha, onde trabalha numa quinta e depois se demora a estudar filosofia, regressa a Paris, segue para Espanha, parte para o oriente… A professora – chama-se Aline – incitava-nos a ver, ouvir, multiplicar as experiências: uma conversa que não encontrou só orelhas desatentas.

Larry rejeita o itinerário que os outros lhe traçam, um bom emprego, um bom casamento, dois ou três filhos, quer compreender o que pode fazer da vida, aceita o risco de avançar no fio da navalha… Esta recusa ressoou de maneira intensa na adolescente à qual casar e ter filhos parecia uma morte prematura, mas também me interessou o olhar impertinente do narrador, assim como as restantes personagens, peripécias, experiências narradas, por conseguinte fui procurando os livros do autor traduzidos em português, mais tarde li vários em francês, em espanhol… e um ou outro no texto original.

O que me agrada nos textos de Somerset Maugham? A ironia, o inconformismo, a busca de sentido na vida, a curiosidade pelo género humano, o refinamento estilístico que produz, quando o lemos, uma ilusão de simplicidade, a técnica perfeita do conto… Por outro lado o cinismo dos seus narradores e protagonistas contrasta com a hipocrisia e a língua de pau da nossa sociedade; é uma leitura que nos incita a falar com as nossas palavras e a pensar com o nosso cérebro. Não obstante Somerset Maugham ser um homem do século XIX – nasceu em 1874 – a sua frase, a sua ficção não carregam com os preciosismos e lugares-comuns de outros escritores da mesma época, o que faz dele um contemporâneo nosso que conta, numa sociedade do passado, a intemporalidade do género humano. Somerset Maugham tem uma cultura literária, pictural e filosófica, prenda mais rara do que se pensa entre os escritores; estas alusões, citações, referências, comparações, pontos de vista criam uma cumplicidade com o leitor e constituem peças do puzzle que o texto vai construindo: “puzzle” é uma palavra da língua inglesa que significa “enigma”. Mas nas obras de Somerset Maugham quem deve poisar – ou não – as últimas peças é quase sempre o leitor.

Se formos à Internet procurar informação, não falta quem cole nesta obra uma etiqueta: superficial. Não acreditemos. Somerset Maugham somava – do ponto de vista de alguns críticos – o defeito de não haver passado por Oxford nem Cambridge com o pecado de não ser comunista (numa época em que estava na moda sê-lo) mais a vexante mania de não respeitar os dogmas da época e, para agravar o seu caso definitivamente, um irritante sucesso no teatro, nas livrarias e no cinema. Quando aos treze anos descobri “O Fio da Navalha” ignorava se o escritor era (ou não) burguês, canibal, comunista, homossexual e onde mandava fazer os fatos, por isso li-o sem preconceitos e sem preconceitos prossegui a descoberta das obras: pelo prazer do texto, das personagens, das situações, dos ambientes… Pelo tom. Pelo olhar. Pela liberdade. E lê-lo é ainda uma terapia à qual recorro nos momentos difíceis.

Estava a reler “The narrow corner” quando dei com uma situação que já antes anotara na margem… E agora exponho aos leitores.

(Continua.)

Leave a Reply